Os tugas (27)


Pedro Correia,

pato[1].jpg

 

Local: num transporte público. Personagens: uma criancinha de quatro ou cinco anos, a mãe e vários outros passageiros.

Criancinha: Hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

 

Mãe: Está caladinha, Vanessa.

 

Criancinha: Hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

 

Mãe: Já disse que te calasses. Olha que incomodas estas pessoas…

 

Criancinha: Hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

 

Mãe: És sempre assim. Eu digo para te calares e tu nunca ligas. Já nem sei o que hei-de fazer contigo.

 

Criancinha: HIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!

 

Mãe (virando-se para os outros passageiros): É mesmo uma gracinha, não é?

6 comentários em “Os tugas (27)”

  1. No banco de trás, o casal (Rui e Marta) respira fundo. Acabaram de despejar a sua Inês, de quatro anos, no infantário. Têm olheiras, e a paciência reduzida a pó.

    Rui (olhando o vazio com o olhar de quem já não dorme bem há três anos): Sabes, Marta… há momentos na vida em que eu pondero a utilidade da nossa existência. Depois oiço isto…

    Marta (ainda meio atarantada): A nossa Inês também faz birras. Mas ao menos tem a decência de as fazer numa frequência normal. E o melhor de tudo? Pagar 650 euros por mês para não ouvir isto é o dinheiro mais bem gasto da minha vida.

    Rui: Esta miúda não chora. Isto é terrorismo sonoro. Parece que engoliu um alarme de incêndio.

    Rui: Se eu fosse ao motorista travava a fundo. Só para testar as leis da física. Dizem que a inércia é lixada.

    Marta: O que me fascina é o orgulho da mãe. É uma gracinha, diz ela.

    Rui: Esta mulher devia era dar a cara por uma campanha a favor da pílula. Metiam este som e a taxa de natalidade caía a pique, é verdade, mas resolvíamos a crise da habitação e as vagas nas creches em menos de duas gerações. Admiram-me é como a Durex ainda não patrocina a Carris.

    Marta: Vá, não sejas assim. A criança não tem culpa.

    Rui: Tens razão, se calhar vou fechar os olhos e fingir que estou no quartel dos bombeiros. Lá, pelo menos, não há criancinhas.

    1. Não tenho a mínima dúvida. Já agora, dois palmadões.
      Um para a criança e outro para a mãe que a não soube educar.
      É que se está mesmo ver a serial killer que dali vai sair.

  2. Julgue-se o crime pela proporção da idade da criminosa.
    5 aninhos. Só cumpre a sua função de criança dessa idade.
    Com mais 2 ia eu e a avozinha colher amoras ao mato para ela fazer o doce que eu adorava. Chegadas a casa a avozinha lavava as amoras para o doce, e eu pegava nelas e ia pô-las no muro para os passarinhos comerem, que, coitadinhos, tinham muita fome.
    E nem sequer me chamava Vanessa, quanto mais.

  3. Além disso nunca se sabe se num autocarro pejado de passageiros não ia lá um verdadeiro leão de raça envergando uma t-shirt verde repleta de dísticos: o segundo lugar é nosso, o segundo lugar é nosso.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *