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Local: num transporte público. Personagens: uma criancinha de quatro ou cinco anos, a mãe e vários outros passageiros.
Criancinha: Hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Mãe: Está caladinha, Vanessa.
Criancinha: Hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Mãe: Já disse que te calasses. Olha que incomodas estas pessoas…
Criancinha: Hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Mãe: És sempre assim. Eu digo para te calares e tu nunca ligas. Já nem sei o que hei-de fazer contigo.
Criancinha: HIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
Mãe (virando-se para os outros passageiros): É mesmo uma gracinha, não é?

No banco de trás, o casal (Rui e Marta) respira fundo. Acabaram de despejar a sua Inês, de quatro anos, no infantário. Têm olheiras, e a paciência reduzida a pó.
Rui (olhando o vazio com o olhar de quem já não dorme bem há três anos): Sabes, Marta… há momentos na vida em que eu pondero a utilidade da nossa existência. Depois oiço isto…
Marta (ainda meio atarantada): A nossa Inês também faz birras. Mas ao menos tem a decência de as fazer numa frequência normal. E o melhor de tudo? Pagar 650 euros por mês para não ouvir isto é o dinheiro mais bem gasto da minha vida.
Rui: Esta miúda não chora. Isto é terrorismo sonoro. Parece que engoliu um alarme de incêndio.
Rui: Se eu fosse ao motorista travava a fundo. Só para testar as leis da física. Dizem que a inércia é lixada.
Marta: O que me fascina é o orgulho da mãe. É uma gracinha, diz ela.
Rui: Esta mulher devia era dar a cara por uma campanha a favor da pílula. Metiam este som e a taxa de natalidade caía a pique, é verdade, mas resolvíamos a crise da habitação e as vagas nas creches em menos de duas gerações. Admiram-me é como a Durex ainda não patrocina a Carris.
Marta: Vá, não sejas assim. A criança não tem culpa.
Rui: Tens razão, se calhar vou fechar os olhos e fingir que estou no quartel dos bombeiros. Lá, pelo menos, não há criancinhas.
Se fosse minha filha levava um palmadão no rabo.
Não tenho a mínima dúvida. Já agora, dois palmadões.
Um para a criança e outro para a mãe que a não soube educar.
É que se está mesmo ver a serial killer que dali vai sair.
Julgue-se o crime pela proporção da idade da criminosa.

5 aninhos. Só cumpre a sua função de criança dessa idade.
Com mais 2 ia eu e a avozinha colher amoras ao mato para ela fazer o doce que eu adorava. Chegadas a casa a avozinha lavava as amoras para o doce, e eu pegava nelas e ia pô-las no muro para os passarinhos comerem, que, coitadinhos, tinham muita fome.
E nem sequer me chamava Vanessa, quanto mais.
Além disso nunca se sabe se num autocarro pejado de passageiros não ia lá um verdadeiro leão de raça envergando uma t-shirt verde repleta de dísticos: o segundo lugar é nosso, o segundo lugar é nosso.

vítima de um descuido:
esqueceu a pílula ou a camisa de Afrodite