Os tugas (25)


Pedro Correia,

california-san-francisco-zoo[1].jpg

Naquela tarde, Maria das Dores saiu de casa com algum receio. Mas o receio dissipou-se mal chegou à carruagem do metro. Sentadas à sua frente, duas volumosas mulheres – mais ou menos da sua idade, a caminho acelerado dos 50 – pareciam tão ousadas como ela.

Uma vestia calção muito curto, de ganga, que lhe deixava bem à mostra a coxa descomunalmente larga, muito branca. E uma blusa sem alças, com vastíssimo decote, que permitia vislumbrar grande parte dos seios intermináveis, descaídos quase até ao abdómen. Na base do seio esquerdo, via-se a tatuagem de uma ave – talvez uma águia, denunciando a filiação clubística da avantajada e atarracada mulher.

A segunda, igualmente baixa e volumosa, envergava uns jeans desesperadamente justos: o botão da cintura ameaçava saltar do seu posto a qualquer momento. Dores teve ainda tempo, antes de a outra se sentar, de reparar que usava fio dental, o que lhe acentuava ainda mais a imensidão das nádegas.

Sorriu de novo, ao contemplar as vizinhas da carruagem: qualquer uma pesava obviamente mais de 80 quilos. Nada que andasse longe do seu próprio peso.

Foi assim, notoriamente mais descontraída, que se levantou ao chegar ao seu destino, mostrando com algum orgulho as calças de cós descaído que lhe deixavam bem visíveis três ou quatro largos círculos de gordura em redor do que mal poderia chamar-se cintura.

Quem a visse, julgaria talvez tratar-se de uma campanha publicitária aos pneus Good-Year. Dores, assim à la page, nem queria saber. Só a incomodava que mal se conseguisse vislumbrar o piercing que acabara de plantar no seu rechonchudo umbigo…

39 comentários em “Os tugas (25)”

  1. Nada a opor à gordura de cada um excepto, talvez, o ser contraproducente para a saúde o que prejudica o próprio e quem com ele convive. Bom, se me é permitido, e ainda que mal pareça, a excessiva falta de gosto e de estética prejudicam a vista de terceiros,e, no caso, causam desconforto no próprio: calças por demais apertadas são estorvo e pneus sobre pneus em calças de cinta descaída, idem. Mas é claro que isto são apenas minhoquices, cada um veste como quer. Se para as mulheres andar em tais preparos é uma conquista, avante, não são menos que ninguém.

  2. Ele foi o Chico dos Anzóis, agora é uma das mulheres que ia no metro. Ambos representados como pacóvios e ambos adeptos do Benfica. Percebe-se logo que o caro Pedro não só detesta esse clube, como não deve frequentar a alta sociedade lusa, caso contrário teria muitas estórias sobre os simpatizantes dos viscondes, o clube dos VIPs e dos chiques

      1. O Duarte Praia não foi grande exemplo como marquês. Se calhar outros marqueses do seu tempo diriam que estava bem no Benfica.

          1. Com certeza que quem mostra interesse no tema do postal de hoje, não terá qualquer interesse em marqueses, que mais sugerem boa educação e, sobretudo, bom gosto (apesar de algumas boas piadas de marqueses de uma marquesa que estudara na Suiça).

          2. não sei porquê. Não são dissociáveis.
            Basta encostar a bicicleta enferrujada para um canto e mandar as sardinheiras para o lixo e aí estão as marquesas muito bem-vindas com espaço para socializar.

            Feliz Domingo para si, que o meu depois da obra-prima do Otamendi, f…-se!

  3. para emagrecer usam OZEMPIC. acabam sempre a emagrecer a contabilidade do SNS.
    «engordaram pela boca, é por lá que têm de emagrecer»

    brasileiro ” não é bunda, é abundância”

  4. No tempo de Salazar os portugueses eram tristes. Não me parece que agora sejam melhores. Então na amostragem dos transportes públicos é confrangedor. Mesmo o operário que apanhava o eléctrico antes da 8 da manhã, sempre de boné e lancheira de madeira com cantos metálicos, tinha dignidade.

      1. Outro exemplo e bem mais pertinente, é haver quem confunda “Salazar” uma pessoa, com “tempo de Salazar” um intervalo temporal.

          1. Em blogs e comentários de jornais electrónicos, há sempre aqueles que nunca desistem de ter a última palavra (suponho que também em redes sociais mas não as frequento). Neste caso, Pedro Correia, sendo caridoso, talvez apenas queira inflacionar o número de comentários para depois publicar orgulhosamente a respectiva estatística. Para isso, responde sempre, ainda que com vaga relação com o assunto ou mesmo a completamente desconversar
            Mas também há aqueles que imaginam que quem tem a última palavra provou ter razão. São egos tão inchados que nem conseguem imaginar que os ignorem por desinteresse.

          2. Apareceram aqui, até agora, 21 comentários. Só respondi/ripostei a oito. O que demonstra bem que não pretendo ter a “última palavra”, seja o que isso for.

            Quanto a desconversar, o melhor exemplo é aqui dado por quem, a (des)propósito do que escrevi, apareceu com a estafada ladainha do Salazar.
            Ainda há-de surgir um idiota a mencionar o Hitler, para a desconversa atingir o clímax.

  5. As modas e os gostos hão de ser sempre tema de discussão, principalmente quando a falta de ambos é notória e fere a vista e a urbanidade de outros. Ser gordo não é crime, mas expor graficamente a evidência é por demais constrangedor, quiçá doentio.

    1. É a afirmação da positividade corporal! Ama-te como és, que ninguém tem nada com isso, esquece o risco aumentado de AVC e afins e a diabetes quase certa. Certo é que não me lembro de ver tanta gente tão gorda (principalmente crianças) quando era miúda, o que me leva a perguntar: o que é que comem? E como?

  6. As portas do metro fecharam-se com aquele baque metálico e seco, deixando a Maria das Dores no cais, a desfrutar no seu orgulho lipídico. Lá dentro, o silêncio durou o tempo de um disparo.

    A da águia — cujos seios pareciam estar a tentar chegar aos joelhos antes do fim da linha — deu uma cotovelada na amiga dos jeans em sofrimento.

    — Viste aquilo, Zulmira? — sibilou a da águia. — Aquela gaja não saiu de casa, ela foi evacuada.

    A Zulmira, cujo botão das calças estava a lutar contra a física e o bom senso, soltou uma gargalhada que fez tremer o vagão.

    — Vi, claro que vi. Parecia uma pilha de pneus empilhados à pressa numa oficina de província.

    — E o piercing, reparaste? — continuou a da águia, ajeitando a ave tatuada que, dada a flacidez, parecia agora mais uma galinha atropelada no IC19 — Enterrado no umbigo… parecia uma pérola perdida num alguidar de maionese.

    A Zulmira limpou uma lágrima de escárnio.

    — O que me mata é o “orgulho”. Saiu dali a balançar a banha como se tivesse acabado de desfilar em Paris. Aquilo não são calças de cós descaído, são um pedido de socorro.

    — Nem mais — rematou a da águia, enquanto olhava para a sua própria coxa branca, imensa e exposta, como se fosse um monumento à inocência. — Há pessoas que não têm mesmo espelho em casa. Sair à rua naquela figura… Enfim, só mesmo quem tem uma grande falta de noção. Ao menos nós ainda mantemos a classe e a elegância.

    Zulmira assentiu, sentindo o fio dental a serrar-lhe a dignidade em duas partes iguais, mas de cabeça bem erguida.

    — Nem mais, Lurdes. Há limites. Uma mulher tem de saber o que lhe fica bem.

  7. Por vezes não é preciso falar de Salazar basta ser como ele, um abjecto bota de elástico que se julga superior a alguns, enfim uma m…

      1. Não que sem antes não apareçam as Hienas a falarem do Varandas e do Borges, antecedendo as que virão falar do Trincão e do Pote.

  8. «O provérbio popular, muitas vezes citado em estudos de literatura e cultura, é: “Mula que faz him! e mulher que sabe latim, raras vezes têm bom fim”.
    «Significado: Esta expressão misógina do século XVII (popularizada em Guia de Casados de D. Francisco Manuel de Melo, 1651) sugere que uma mulher instruída ou educada (“que sabe latim”) seria perigosa, subversiva ou insubmissa, comparando-a a uma mula teimosa ou incontrolável. O “bom fim” refere-se à submissão feminina esperada na época.

    1. Se fosse só isso.
      esperada na época e em provavelmente metade da população, esperada hoje também.
      Um Domingo feliz.

      1. Confesso que às vezes penso que vivo num mundo paralelo. Tanta ladainha de volta da misoginia, como se os homens de hoje ainda fossem maioritariamente assim. Já na faculdade eram quase sempre os rapazes a cozinhar nas jantaradas. No meu ano, em 4 colegas que tinham carro, 3 eram raparigas. Saiam e faziam a vida que queriam tal e qual como os rapazes.
        Hoje, conheço n casos de maridos que tratam das coisas da casa e que cuidam tanto ou mais dos filhos. Eu próprio, sou quem cozinha em casa, sou o “dono” dessa divisão da casa, ponho roupa a lavar, estendo e apanho tantas vezes ou mais ainda. Levo e vou apanhar os miúdos à escola e ajudo a fazer os TPCs. Lá está n devo viver no mesmo mundo que aqui pintam tantas vezes, onde o homem aparece sempre como um ser priviligiado face à pobrezinha da mulher. Deve ser por isso, que fico algo chateado sempre que me aparecem a tentar colar esse tipo de rótulo pois detesto que me chamem algo que não sou.

        1. Bom-dia.
          Os homens de hoje são maioritariamente assim, sim senhora. Não o é o Lopes porque como em tudo na vida e nas coisas existem honrosas excepções. Colabora com a sua mulher, -detesto a designação esposa,- na governação do lar e na criação dos filhos,porque é uma das tais excepções que referi e ama a mulher que um dia juntou a vida dela à sua. Os meus sinceros parabéns e que Deus lhe conceda toda a felicidade de que é merecedor.
          Mas como se sabe se uma andorinha não faz a Primavera, não é o digno e honroso comportamento do Lopes na sua vida conjugal que modifica o paradigma comportamental do homem actual.
          Todos amam muito as mulheres,… na cozinha e no quarto.
          E mesmo assim, à condição de que o seu adorado clube não perca porque senão: não ouves o ganapo a berrar? Deixa de me chatear e vai calar o miúdo. Mexe-te, puta!

          1. o seu preconceito é deveras errado, nem condiz nada com a formação que supostamente deveria ter tido mas isso são outros quinhentos. Os homens são filhos das mães que os educam e a minha Mãe (que tem olhos verdes) sempre me educou a ser gentil e trabalhador para as senhoras tal como o meu Pai e nasceram ambos ainda no tempo da outra senhora num tempo onde realmente havia educação e se ensinava as pessoas a porem-se no lugar do outro…

          2. Bom-dia, caro senhor Anónimo.
            Não há erro nem certeza, nem justiça ou injustiça, nem virtude nem pecado naquilo que não existe Não sou preconceituosa nem feminista, mas também já não sou a adolescente parvinha que uma vez acreditou num mundo perfeito.
            Os homens, e também as mulheres, são filhos e filhas das mães e pais que os educam e os formam para a vida. Assim como a bonita senhora de olhos verdes sua mãe, soube dar-lhe a bonita e correcta educação que hoje faz de si um homem bem-formado.
            Os filhos são sempre o reflexo do comportamento dos pais.
            Teve bons pais assim como também eu os tive.
            não sou preconceituosa e imparcialidade, equidade é a minha aceitação do mundo masculino. Nem concebo, aliás, um mundo sem homens. Um homem casou comigo e deu-me aquilo que eu mais desejava no mundo, uma cria. E se não me deu mais, não foi por culpa dele e sim minha porque depois desse parto fiquei impossibilitada de ter outros.
            Não sou, portanto, preconceituosa nem feminista, mas conheço e vejo exemplos ao meu redor que me permitem dizer com toda a convição, que os homens amam muito as mulheres, na cozinha e no quarto e quando como mulas alombam com os sacos das compras, como o Pedro Correia já referiu, algures num “Tugas” perto de si.
            Fique bem e seja muito feliz, que com certeza será.

  9. de autor anónimo do século XVIII, manuscrito da biblioteca de Cardoso Marta, “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”
    «Dando peidos um sujeito,
    para mim estava olhando
    dizendo de quando em quando:
    — Que me faça bom proveito!
    Eu disto não satisfeito,
    pus-me a comer, e dizendo:
    — Se você caga, eu merendo.
    E disto fizemos alarde
    assim passamos a tarde,
    ele cagando, eu comendo.

    1. Eis um que não conhece o nome próprio, mas conhece 4,5 milhões de mulheres portuguesas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *