
– Ó mãe, vamos atravessar ali na passadeira.
– Que disparate. A gente atravessa já aqui.
– Mas há muitos carros, mãe. E vêm tão depressa!
– Anda, anda! Elas param todos quando nos virem. Nunca óvistes falar nos direitos dos peões?

– Ó mãe, vamos atravessar ali na passadeira.
– Que disparate. A gente atravessa já aqui.
– Mas há muitos carros, mãe. E vêm tão depressa!
– Anda, anda! Elas param todos quando nos virem. Nunca óvistes falar nos direitos dos peões?
Dreitos e grantias, do berço à tumba!
Estas devem ser boas como o milho até aparecer um ceguinho que lhes passa a ferro na passadeira. Nunca fiando na virgem…
Uma delas, pelo menos, não corre o risco de ser atropelada em passadeira.
Em muitas ruas atravessar na passadeira já é uma aventura, quanto mais…
Aquele “óvistes” soou muito taxativo. Como imperativo categórico.
Admito que a senhora seja kantiana.
A mãe mal pousa o verniz do sapato no alcatrão, ouve-se o ruído característico de uma travagem brusca. O jipe da GNR estanca a dois milímetros da senhora, fazendo a frente mergulhar como se estivesse a fazer uma vénia à estupidez humana.
Do interior, baixa-se o vidro com a lentidão de quem está a decidir se passa uma multa ou se toma um calmante.
— “Minha senhora, peço desculpa”, diz o guarda, com um sorriso assustadoramente calmo. “Não sabia que o alcatrão era uma extensão da sua sala de estar. Se soubesse, tinha trazido pantufas e um chá em vez de um veículo de duas toneladas.”
A mãe, recuperando a compostura e a arrogância que só os ignorantes conseguem manter sob pressão, ajeita a mala:
— “Ouça lá, o senhor sabe com quem está a falar? Eu tenho direitos! O peão é soberano”
O guarda olha para o colega ao lado, suspira, e volta-se para ela com uma doçura letal:
— “Soberano? Com certeza. E a senhora deve ser a Rainha dos acidentes de trânsito. Presumo que a passadeira ali a dez metros seja apenas um elemento decorativo, um conceito artístico que a senhora, na sua infinita sabedoria, decidiu ignorar.”
— “Os carros têm de parar! Está na lei!” — insiste a mulher, enquanto o filho tenta desesperadamente encontrar um buraco para se esconder.
— “Claro que sim”, diz o guarda, abrindo a porta do carro. “Agora, se não se importa, vamos ali até à berma discutir esse seu ‘direito’ de ser atropelada.”
agora há uma nova forma de ”jogar ao pião”
Se não fosse pelos tugas, Portugal era um grande país.
Que raio de gente que você conhece, Pedro. Não se aproveita um.
Por acaso você diz bem, marina! Ainda bem que o Pedro não nos conhece.
A si devia conhece-lo , pessoas com sentido de humor são de estimar.
A mãe deve ser do Sporting, acha que todos lhe devem prestar vassalagem.
Quando se fala em passadeiras lembro-me sempre daquela rábula dos Monty Python, passada na África do Sul, em que brancos e negros só as podiam atravessar aos saltinhos…
Mais recentemente também me ocorre logo aquele sujeitinho inenarrável, o Grila, influenciador de profissão, que também protagonizou uma rábula, mas na vida real, de atropela-e-foge numa passadeira – e foi contar a “façanha” aos microfones de uma rádio especializada em estúpidos.
Ora aí está um cavalheiro bem “tuga”, e em tantos aspectos, do ridículo físico à repelente moral e à espertice patética, que seria fonte generosa de exemplos de “tuguice” num figurão só.