Os tugas (24)


Pedro Correia,

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– Ó mãe, vamos atravessar ali na passadeira.

– Que disparate. A gente atravessa já aqui.

– Mas há muitos carros, mãe. E vêm tão depressa!

– Anda, anda! Elas param todos quando nos virem. Nunca óvistes falar nos direitos dos peões?

13 comentários em “Os tugas (24)”

  1. Estas devem ser boas como o milho até aparecer um ceguinho que lhes passa a ferro na passadeira. Nunca fiando na virgem…

  2. A mãe mal pousa o verniz do sapato no alcatrão, ouve-se o ruído característico de uma travagem brusca. O jipe da GNR estanca a dois milímetros da senhora, fazendo a frente mergulhar como se estivesse a fazer uma vénia à estupidez humana.

    Do interior, baixa-se o vidro com a lentidão de quem está a decidir se passa uma multa ou se toma um calmante.

    — “Minha senhora, peço desculpa”, diz o guarda, com um sorriso assustadoramente calmo. “Não sabia que o alcatrão era uma extensão da sua sala de estar. Se soubesse, tinha trazido pantufas e um chá em vez de um veículo de duas toneladas.”

    A mãe, recuperando a compostura e a arrogância que só os ignorantes conseguem manter sob pressão, ajeita a mala:

    — “Ouça lá, o senhor sabe com quem está a falar? Eu tenho direitos! O peão é soberano”

    O guarda olha para o colega ao lado, suspira, e volta-se para ela com uma doçura letal:

    — “Soberano? Com certeza. E a senhora deve ser a Rainha dos acidentes de trânsito. Presumo que a passadeira ali a dez metros seja apenas um elemento decorativo, um conceito artístico que a senhora, na sua infinita sabedoria, decidiu ignorar.”

    — “Os carros têm de parar! Está na lei!” — insiste a mulher, enquanto o filho tenta desesperadamente encontrar um buraco para se esconder.

    — “Claro que sim”, diz o guarda, abrindo a porta do carro. “Agora, se não se importa, vamos ali até à berma discutir esse seu ‘direito’ de ser atropelada.”

  3. Quando se fala em passadeiras lembro-me sempre daquela rábula dos Monty Python, passada na África do Sul, em que brancos e negros só as podiam atravessar aos saltinhos…

    Mais recentemente também me ocorre logo aquele sujeitinho inenarrável, o Grila, influenciador de profissão, que também protagonizou uma rábula, mas na vida real, de atropela-e-foge numa passadeira – e foi contar a “façanha” aos microfones de uma rádio especializada em estúpidos.

    Ora aí está um cavalheiro bem “tuga”, e em tantos aspectos, do ridículo físico à repelente moral e à espertice patética, que seria fonte generosa de exemplos de “tuguice” num figurão só.

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