
Diálogo entre um avô e um neto adolescente:
Olha lá, João, um dia destes ensinas-me a mexer na internet. Está bem?
– Está bem, avô. É fácil…
– Pode-se combinar, lá na internet?
– Combinar o quê, avô?
– A… queria saber se podemos combinar um almoço com alguém.
– Podemos, sim. Eu ensino-lhe.
– E pode-se falar com as pessoas?
– Também.
Passam uns minutos. O avô insiste, desta vez baixando um pouco o tom da voz:
– Olha lá, João. E pode-se namorar lá na internet?
– Claro que sim. Não me diga que o avô gostava de arranjar uma namorada. Olhe se a avó sabe…
E logo o velho, olhando em volta, visivelmente embaraçado:
– Não, não, era só para saber. Deixa estar: isso são modernices de mais para mim. Eu já nasci no outro século!

Olha lá, João: já ouviste falar de uma coisa chamada Grindr?…
Eu já nasci no outro século!
Eu também.
O que não falta pra aí é velhos, alguns até de Ferrari com raparigas novas na casa dos vinte e tal anos. Realmente elas sabem bem o que querem: um velhinho para ir aos bolos e estes com esperteza de coral aproveitam e bem o que a natureza lhes deu.
Toda a mulher nova e bonita, segura de si e do seu valor que se casa com um homem velho e rico, sabe sempre oferecer a si mesma aquilo que lhe dá prazer. E se bem que seja com o dinheiro do marido, raramente ou quase nunca o reconhecimento recai sobre esse.
Fonte) o meu querido avozinho a quem o nascimento no século passado trouxe conhecimento e sabedoria.
O João não desistiu. Com o entusiasmo sádico de quem quer ver o circo pegar fogo, instalou o Tinder no telemóvel do avô. O “set-up” foi rápido: uma foto do velho a segurar um peixe em 1994 (onde ainda tinha cabelo e esperança) e uma biografia que dizia: “Gosto de caminhadas e sopas de cavalo cansado”.
O João começou o swipe. Esquerda. Esquerda. Uma senhora com um filtro de orelhas de cão. Esquerda. Até que o ecrã congela. O João estaca. O avô aproxima-se, ajeitando os óculos de massa.
— Olha esta, avô. “Mena, 68 anos. Gosto de homens decididos e de hidroginástica sem touca”. Reconhece o papel de parede atrás dela? É o nosso corredor. E aquele bibelô do Menino Jesus a piscar o olho? É o da comoda da entrada.
O avô limpa as lentes com a ponta da camisola, o pânico a subir-lhe pela garganta como uma azia de rancho mal temperado.
— João… aquela… aquela é a tua avó? Por que é que ela está a fazer “biquinho” e a segurar uma taça de espumante? E o que é que significa “disponível para novas aventuras”? Ela nem para ir ao Pingo Doce sozinha tem coragem!
— Pois é, avô. Ela aqui diz que procura um “espírito livre”. Pelos vistos, o teu espírito está preso”.
O avô senta-se, pesado, como se o século XX lhe tivesse acabado de cair em cima das costas.
— Mas… ela está de batom vermelho. Ela só usa esse batom nos casamentos nem quando está a ver o preço certo na televisão ela o põe! João, tira-me daqui. Apaga isto!
— Calma, avô. Repara bem na descrição: “Farta de ressonar e de telejornais em altos berros”. Acho que isto é uma crítica direta à tua gestão do comando da TV, não achas?
— Isto é, mas é, uma pouca-vergonha… Uma mulher da idade dela! Com as pernas cheias de varizes. O que é que ela quer?
— Olha, avô, o mercado está difícil. Tu estás aqui a tentar “modernices” e afinal a avó já é “Premium”. Enquanto tu estás a aprender a ligar o Wi-Fi, a avó já está a dar “match” com velhos que ainda têm metade dos dentes.
O velho olha para o ecrã, entre o horror e uma estranha e nova admiração.
— E agora, João? O que é que eu faço?
— Agora? Agora fazemos o que qualquer pessoa civilizada faz no Tinder. Fazemos “swipe” para a direita. Se der “match”, convidas a “Mena” para um jantar romântico no quarto ao lado.
O avô suspira, derrotado pela tecnologia e pela traição geriátrica.
— Põe lá o “match”, João. Mas se ela me rejeitar na internet, juro que amanhã lhe escondo o aparelho auditivo. Sempre quero ver quem é que ela ouve no Tinder em modo silêncio.
Tudo quanto um homem do alto da sua “privilegiada” inteligência possa fazer, uma mulher, se quiser, faz sempre muito melhor.
Quer seja neste século, no passado e em todos os outros desde que os humanos emergiram neste planeta.
Ela faz sempre muito melhor.
E com menos alarido e muito maior discrição.
É profundamente reconfortante saber que, se uma mulher quiser, consegue ser muito mais burra, corrupta, incompetente e bélica do que qualquer homem, mas sempre com aquele toque aveludado da humildade milenar.
Ela faz sempre muito melhor.
E com menos alarido e muito maior discrição.
Surpreso?

Ela faz sempre muito melhor. Tirando, claro, o dom natural da asnice pela Criação concedido ao macho desde que pela primeira vez espreita pelo buraco alargado, o mundo complexo que o aguarda.
Como de resto, a interpretação que faz ao meu texto, claramente o explicita..
Ou será, – improvável mas possível,- que a sua surpresa provenha do último parágrafo.
Com menos alarido e muito maior discrição.
Assim sendo, veja:
” O teu marido não sabe que estás a escrever isto. É muito fácil escrevê-lo nas barbas dele. Tão fácil, porventura, como dormir com outras pessoas. Mas ninguém saberá quem és, nem o que fizeste porque sempre foste tida como a boa esposa.
” A Noiva Despida” de Nikki Gemmell, Edições ASA.
Sugiro uma pausa na leitura de “A Bola” e recomendo vivamente a leitura deste romance.
Ah, a doçura do veneno matinal. Deixa-me só tirar os olhos do “Record” — que isto de ler “A Bola” é para grunhos — e eu quero apreciar esta prosa que tresanda a misandria académica.
«A mulher faz sempre muito melhor». Sem dúvida alguma. Sobretudo a escrever textos com basófias moralistas. Com que então o macho que espreitou pelo tal «buraco alargado» (bonita imagem poética, fez-me lembrar as obras do túnel do Marão), é um asno. É um alívio saber que a superioridade intelectual feminina está tão bem entregue.
Mas o que seria do macho básico sem esta violenta tareia literária? Só mesmo lendo A Noiva Despida de Nikki Gemmell.
A editora ASA certamente agradece a promoção gratuita a esse calhamaço para donas de casa aborrecidas que acham que meter os cornos ao marido nas suas barbas — possivelmente com o gajo do gás ou com o contabilista — é um ato de subversão anarquista ao nível do Maio de 68. Parabéns, de certeza que o Che Guevara estaria orgulhoso.
Se calhar, é melhor voltar para os seus livros de literatura erótica de supermercado, que o mundo real lá fora é muito mais complexo, principalmente para quem é tida como a boa esposa.
Carroceiro, grosseirão, malcriado, porco sujo e mentiroso cobarde.
A Matilde não se assumiu como protagonista. Limitou-se a citar a autora do livro.
Vai morrer longe porco sujo.
Se precisares de ajuda para procurar palavras maiores no dicionário, avisa. Eu sei que o esforço de ler mais de duas linhas seguidas confundem o teu Tico e Teco, mas eu tenho paciência para atrasados mentais.
Profundamente reconhecida, meu amigo, meus amigos. Sei que posso contar sempre convosco. Muito obrigada.

Adoro-vos! trago-os sempre no coração.
Gosto dos meus amigos, e gosto que eles gostem de mim.
Antigamente era diferente, seria o avô a levar o neto as meninas.
Francisco Almeida
Isso era comportamento da era analógica, pré-digital.
Quase um pouco antes do calhau aterrar neste planeta.
Pois era. Mas felizmente a ternurenta cumplicidade masculina não se perdeu.
Por falar em ternurento, os bichinhos lá em cima estão super… Se não lhes conhecesse o “perfume” até estava capaz de os adoptar.
Não generalize