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À mesa de um restaurante lisboeta. Pai, mãe e dois filhos – um de 10/11 anos, outro de 8/9 anos. O mais velho protesta com a escolha da progenitora em termos veementes (digamos assim):
– Já disse mil vezes que não gosto de peixe, f…-se!
Os pais, impassíveis. De imediato, o irmão faz coro:
– Eu também não gosto, f…-se! C……!
A mãe, quase imperturbável:
– Já disse que não gosto de vos ouvir dizer palavrões.
E logo o pai:
– Não faz mal, deixa-os lá. Eu também digo f…-se.
Ri muito. Os miúdos também. E até no rosto da mãe desponta a sombra de um sorriso.

Os meninos e as meninas de hoje, têm um dicionário tão rico e educado de fazer inveja a qualquer um. Não tenho dúvidas que vamos longe, e nem o c*ralho dos políticos de m*rda que temos podem estar mais orgulhosos. F*da-se!
deviam estar a comer sus scrofa domesticus, filho de marrã parideira.
são mais porcos que o dito.
Já que Pedro Correia marcou o (baixo) nível deste postal, lembro a história da professora que pediu a miúdos para fazerem uma redacção sobre uma coisa que achassem muito boa.
O Zezinho encheu meia página: c.na, c.na, c.na, ….
A professora fez um relatório para o Zezinho mostrar ao pai e, no dia seguinte perguntou-lhe se o pai lhe tinha batido (é uma história do tempo em que castigar filhos com pancada não era crime). O Zezinho disse que não e a professora insistiu: e não fez nada? O Zezinho disse que não e a professora insistiu: e não disse nada? Aí o Zezinho respondeu: disse que, às vezes, cu também era bom.
O papagaio do restaurante, uma arara que passava os dias no poleiro com o olhar vazio, processa em tempo real aquele nível de pedagogia infantil. Até àquele fatídico momento, a ave limitava-se a imitar o silvo da máquina de café e a berrar esporadicamente «Sai uma imperial!».
Mas a biologia tem destas coisas: o bicho reconheceu de imediato o chamamento da selva.
Eis que, do alto da sua gaiola dourada, o papagaio ergue a crista, fixa o olhar no miúdo de 10 anos e solta:
— Trrrrak! Não gosto de peixe, f…-se! f…-se!
O miúdo de 8 anos aponta para o poleiro, maravilhado com a inovação zoológica:
— Olha, pai! Será que o papagaio também diz C……!
O papagaio, que tem um sentido de oportunidade melhor que muito comentador político, aproveita a deixa:
— Trrrrak! C……! O c…… come o peixe!
É então que se aproxima o senhor Alfredo. Empregado de mesa há quarenta anos, tem a coluna desfeita de carregar travessas e a paciência de quem já enterrou dois patrões e três úlceras.
— Boa tarde. Peço imensa desculpa por interromper, mas ia pedir o enorme favor aos vossos herdeiros para não utilizarem este tipo de léxico.
O pai, ainda a limpar as lágrimas de tanto rir com a cena, ajeita o pólo da Ralph Lauren com aquela impunidade típica de quem estaciona o SUV em segunda fila:
— Ó amigo, tenha lá calma. São crianças a expressar as suas frustrações. Não me diga que você também não diz f…-se!
— Não é isso, senhor doutor. O problema é que o papagaio, até os vossos meninos chegarem, era uma ave de família. Dizia «bom dia», imitava a sirene dos bombeiros e assobiava o hino da Seleção. Em cinco minutos com a vossa excelentíssima prole, o bicho já tem vocabulário para ir liderar uma claque.
A mãe, com aquele ar superior de quem tirou um mestrado intensivo em parentalidade quântica no Instagram:
— Sabe, nós não reprimimos os sentimentos dos nossos filhos. É violento. Se o menino não gosta de peixe, o menino comunica naturalmente.
O Alfredo suspira, olhando para o teto como quem pede ajuda ao Altíssimo.
— A senhora tem toda a razão. A culpa deve ser do bicho que não tem o privilégio de ter uns pais tão modernos que levem a parentalidade tão a sério.
Lá atrás, o papagaio remata o serviço, balançando-se no poleiro:
— Trrrrak! F…-se! a parentalidade! Sai uma imperial C……!
E não estariam pouco antes as crias, cada uma com um ecrã a dez centímetros dos olhos, exercitando furiosamente os polegares, enquanto os progenitores (não se pode, por estes dias, escrever “pais”, creio) faziam o mesmo, num enternecedor momento de consolidação dos laços familiares?
A filha da minha vizinha fez agora 15 anos e já está com um corpo de galdéria e uma linguagem mundana. Não sei não; a liberdade era bem mais respeitada no tempo de Salazar, com os miúdos a levarem bofetadas na escola quando diziam asneiredo. Levei algumas e hoje estou uma senhora com bom pézinho para andar de saltos.
Oh, Amélia/Amélio deixe-se de (falsos) puritanismos e moralismos bacocos. Toda a gente sabe isto:
“As meninas boas vão para o céu, as meninas más vão para qualquer lugar e para onde quiserem.”
(Roubado da internet, autor desconhecido)…
“Levei algumas…”
E gostou, Amélia/Amélio?
Com 12 anos, os pais já as deixam ir para discotecas, gastarem 1000 euros, numa noite, porque foi o valor que receberam, dos vídeos, numa rede social.
Se lhes acontecer, alguma coisa… ganham 500000 euros, na mesma rede social e ainda podem ir buscar 20 milhões, a dar entrevistas e em indemnizações.
E o que é um corpo de galdéria numa miúda acabada de fazer 15 anos?
A dona Amélia já nasceu adulta e não sabe o que é ter 15 anos?
E já agora é mais aceitável e incomparavelmente menos perigosa uma linguagem mundana numa miúda de 15 anos do que uma linguagem viperina de uma dona Amélia adulta.
A minha avozinha dizia: é preferível ter uma matagal de silvas à porta que nos pique todos os dias do que ter uma vizinha coscuvilheira.
Pois parece-me que a dona Amélia que apanhou algumas na escola, não apanhou as suficientes para se sentir confortável nos saltos.
E para terminar, deixe a miúda ser parvinha que só agora fez 15 anos. F…-se
Uma delícia esta série de postais, Pedro Correia. Muito bom e obrigada
Eu sei que é feio escrever isto mas… estas pessoas votam. Já nem vou para a total demissão do pai na escolha do almoço dos filhos. Talvez seja um daqueles monos de quem as mulheres dizem “tenho 3 filhos, e o mais velho é o meu marido.”
O efeito contraceptivo da má-educação dos filhos dos outros é muito subvalorizado.
A possibilidade de saírem na rifa uns monstrinhos detestáveis e incontroláveis, ou não se conseguir viver com a ideia de se vir a ser tão mau educador como os tristes impotentes que por aí pululam, assusta muito boa gente.
A parvoíce e facilitismo normalizados nos dias que correm são uma concorrência muito forte a toda e qualquer espécie de decência; e a parentalidade responsável não é excepção, muito pelo contrário.
Em cenas como a que o Pedro descreve, e quem já não assistiu a teatros idênticos?, os filhos podem fazer dó, e os pais meterem nojo, mas de há muito que deixaram de ser caso de espanto.
Ó Pedro Correia. Hoje até pensei que tinha acordado num universo paralelo. Estou no trabalho e não ouço outra coisa se não f…-se.

_ F…-se aquele gajo do Morita com as patas no ar a dar penálti. Ó pá. e aquele gajo do Suárez a marcar o penálti com um passe ao Trubin, f…-se.
E por aí adiante. Para onde quer que vá, para onde me vire não ouço mais nada que não o f…-se.
É que já é de mais, f…-se.
Parece que pequenos e mais as pequenas, 13 anos para cima se sentem realizados com o vernáculo em qq conversa.
Pois, desde meus avós e meus pais, eu e filhos, nunca pronunciamos vernáculo. Mesmo em conversas não o reproduzo como acompanhamento.
Questão de educação.