Os tugas (17)


Pedro Correia,

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A senhora, com imeeeeensa laca no cabelo, apanhou um táxi de manhã bem cedo, ainda estava o comércio fechado, na praça de Entrecampos.

Pediu ao motorista:

– Leve-me à Caixa Geral de Depósitos.

Era mesmo ali adiante. O taxista lá a transportou sem um resmungo. Chegados ao destino, quase do outro lado da rua, o taxímetro marcava 3,25 euros. A senhora apresentou uma nota de 50 euros para pagar.

– Minha senhora, não tenho troco. Não me arranja uma nota mais pequena?

– Lamento, mas só tenho esta.
– Olhe, fica-lhe a corrida de graça. Não tenho alternativa, sobretudo a esta hora da manhã. Mal peguei agora ao serviço…

Chegada a pausa de almoço, novamente na praça de Entrecampos, o motorista relatou o sucedido aos colegas que ali estavam. Diz-lhe logo um, de sorriso largo:

– Ah! Ah! Caíste também na esparrela! Ela faz isso todos os dias, já enfiou o barrete a muitos de nós.

O homem ficou a matutar no caso. Por capricho do destino, na semana seguinte a senhora voltou a entrar no táxi à mesma hora e no mesmíssimo local.

– Leve-me à Caixa Geral de Depósitos.

Repetiu-se a cena: a mesma quantia, a mesma nota de cinquenta. Mas desta vez o taxista aceitou-a.

– Minha senhora, vou passar-lhe um recibo.

– Mas para quê? Não quero recibo. Não preciso…
– É que não tenho troco, minha senhora. Já na semana passada aconteceu isto consigo. Desta vez vou aceitar o seu pagamento e passar-lhe o recibo. A senhora só terá de ir depois com o recibo à nossa empresa, que até fica aqui perto, para receber o troco desta quantia. Naturalmente, como compreende, ser-lhe-á descontada também a anterior deslocação que não chegou a ser paga.

A mulher nem hesitou. Abriu a mala e tirou de lá um saco carregado de moedas:

– Que distracção a minha! Afinal tenho aqui trocos.
Lá pagou as duas corridas, reavendo a nota de 50 euros. O motorista ficou a vê-la, num trote apressado, em direcção à Caixa, emoldurada naquele inconfundível cabelo com imeeeeensa laca…

7 comentários em “Os tugas (17)”

  1. Praça de Táxis de Entrecampos. O Zé (o taxista) sai do carro e começa a abanar as portas de trás para arejar o interior. O Quim (colega) aproxima-se, de palito na boca.

    Quim: Então? A múmia do capacete de laca voltou a fazer-te de Santa Casa da Misericórdia?

    Zé: (A sacudir os tapetes com fúria) Santa Casa o car****. Hoje a velha fo***-se. Acha que um gajo anda aqui a queimar gasóleo para patrocinar as suas caminhadas matinais.

    Quim: Não me digas que lhe aceitaste os 50 paus…

    Zé: Foi que nem ginjas! Disse-lhe que lhe ficava com a nota de 50 e passava recibo para ela ir levantar o troco à sede, já com a taxa da semana passada incluída.

    Quim: (A rir) Não me digas! E a velha? Deu-lhe o badagaio ou quê?

    Zé: Qual badagaio, ó Quim… Houve foi um milagre em Entrecampos! A gaja mete a mão na mala e vem com um saco de moedas que parecia o peditório da missa do galo.

    Quim: Filha da mãe da velha… E andava a chorar que só tinha a nota grande.

    Zé: É sempre a mesma merda. Esta malta que chora que as pensões são baixas, é a mesma que usa notas de 50 para pagar três euros só para ver se o desgraçado que está de serviço lhes perdoa a conta.

    Quim: E ela foi-se embora assim, de fininho?

    Zé: Foi a bater com os calcantes no alcatrão, chateada da vida por ter pago o que devia. Agora sai lá da frente não vá aparecer um turista americano que queira ir para o aeroporto e não se importe que eu vá dar a volta por Sacavém.

  2. Isso é que era valente a fazer pouco de um homem que anda a ganhar a sua vidinha. Esta cigana do c*ralho devia era de ir bater os costados na cadeia.

  3. Olá, Pedro Correia.É mesmo isso. Há mulherzinhas que por toneladas de laca que lhes encharca a cabeça e rios de perfume por elas abaixo nunca disfarçam a trampa de que são feitas. Também conheço algumas.
    Vergonha alheia, é o que sinto.
    É aquilo que já disse: todas as senhoras são mulheres, mas nem todas as mulheres são senhoras. Essa nem mulher é, não passa de uma mulherzinha da mais ínfima categoria.
    Fique bem e tenha um excelente fim-de-semana.

  4. Enfim, um “episódio da vida real” em que não é o taxista o trafulha!
    Por razões de vida académica e profissional, terei usado muitas dezenas de vezes os serviços de táxi na cidade de Lisboa e arredores – e contam-se pelos dedos de uma mão as tentativas de vigarice. Em contrário, cruzei-me com taxistas que foram capazes de gestos de bondade e de quase inconcebível honestidade, que nunca esqueci e que até faço por recordar neste nosso tempo de logros normalizados.

    Aí a Madame já devia ter infiltrações de laca na mioleira: apanhar táxi na mesma praça, para o mesmo destino, com o mesmo esquema… Mas como alguém dizia, se não padecessem de algum tipo de estupidez poucos vigaristas seriam apanhados.

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