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Hora de almoço. Restaurante cheio no centro de Lisboa. Enquanto aguarda pela lista, uma senhora é alvejada em cheio… por um pickle. Atirado por um indivíduo engravatado, três mesas adiante. A perplexidade dela não se desfaz pela justificação atabalhoada dele.
– Queira desculpar. Só pretendia atingir por brincadeira o meu amigo, que está naquela mesa ali. Não costumo ter falta de pontaria…
O pickle lá ficou, no meio do chão. Acabaria a decorar um prato na vaga de refeições seguinte?

As senhoras fazem o mesmo mas com caroços de azeitona.
Talvez algumas mulheres o façam, mas nunca nenhuma senhora.
Ensino-lhe a diferença: todas as senhoras são mulheres, mas nem todas a mulheres são senhoras.
De quem terão sido alunos esta erudita e verdadeira imensidão de professores de que tivemos a sorte e a fortuna de ser bafejados?
Do professor Salazar não me parece, que não o conheci.
Semos uns mal agradecidos, é o que é.
Não interessa de quem terão sido alunos: importa sim que quem os lê aproveite a sorte e a fortuna com que foram bafejados com os ensinamentos desses alunos aplicados para adquirirem conhecimentos que, de outro modo, estariam muito longe dos vossos horizontes.
Muito grata e poupo-lhe a fadiga dos agradecimentos.
Foi um prazer.
“mas nem todas a mulheres são senhoras.”
Quando eu era jovem (e já passaram muitos anos) dizia-se que mulher que tivesse filho na Universidade (iam muito poucos) passava a Senhora e tinha o direito de ser tratada por Dona.
Parece que ainda há resquícios disso.
Senhoras ou mulheres cheiram todas a perfume.
A gravata não faz um senhor. As mais das vezes tenta camuflar a imbecilidade.
— O livro de reclamações. Por favor. — diz ela, com uma voz que cortava mais que a faca do bife.
— Minha senhora, tenha calma. Foi uma brincadeira entre amigos. O senhor dr. Pedro é cliente habitual, foi um deslize…— balbucia o empregado, enquanto o “engravatado” tenta esconder-se atrás de um nó de gravata maior que a sua dignidade.
— Com certeza. Diga-me uma coisa, Doutor Pedro: o arremesso de hortícolas em conserva fez parte do seu MBA ou é apenas uma manifestação vegan?
— Já pedi desculpa… — murmura o engravatado, com o carisma de uma sanduíche de queijo suada.
— Pediu desculpa? Ótimo. Vou anotar isso no livro. — Ela vira-se para o empregado. — O livro, rápido. Antes que o Doutor decida praticar outro lançamento olímpico.
— Mas vai mesmo escrever no Livro? Por causa de um… pickle?— arrisca o empregado.
— Não, vou escrever porque o restaurante é tão cosmopolita que até o couvert é servido por via aérea.
E o silêncio instalou-se, apenas interrompido pelo som da caneta a rasgar o papel e pelo pickle, que no chão, mantinha a sua dignidade intacta. Ao contrário do “engravatado”.
o meu mealheiro de molho
Ficou com as notas todas ensopadas.
Se aquele ‘pickle’ falasse… Talvez me explicasse os dois caroços de azeitona, ainda com pedaços da dita agarrados e com marcas de dentes, que encontrei debaixo do último bife que comi num (conceituado) restaurante.
Último no sentido de final e derradeiro, entenda-se, e já lá vai um bom par de anos.
Aí o reco pode ir-se rindo, mas já não de mim.
Suprema tuguice, essa dos caroços. Merecia participação imediata à ASAE para encerramento compulsivo do tugúrio vomitante.