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– Então quanto lhe devo por esta reparação?
– Com recibo ou sem recibo?
– Qual é a diferença?
– Sem recibo é mais barato.
– Azar, meu amigo. Sou funcionário da Autoridade Tributária. Vou ter de denunciá-lo ao Ministério Público e ao ministro Miranda Sarmento.
– Ó sotor, não faça isso, pela sua saudinha! Olhe, fica a obra de graça, não lhe custa nada. Foi com todo o gosto que lhe fiz esta reparaçãozinha, que nem deu trabalho nenhum. E quando precisar…
– Ah! Ah! Estava a brincar, não ligue. Faça-me lá o preço sem recibo. Também não quero dar dinheiro ao Estado, que aquilo é tudo uma corja de gatunos, só pensam em encher-se à custa dos contribuintes honestos e cumpridores como nós.

boa tarde, de facto aconteceu com um amigo meu…..
Cps
Não me admiro nada.
Então quanto lhe devo por esta reparação?
– Com recibo ou sem recibo?
– Qual é a diferença?
– Sem recibo é mais barato.
(com google translator era verídico à mesma)
ouço isso com frequência no mundo onde trabalho
Nada como emigrar para ver o que vale a expressão portuguesa “isto só aqui”
a economia paralela encontra a outra no infinito
— Espera, espera aí. “Honestos e cumpridores”? — A voz vem da porta, onde um homem de gabardine bege e um sorriso que parece uma cicatriz mal fechada observa a cena.
— Peço desculpa por interromper esta comovente aliança entre o “Estado atuno” e o “Povo Desenrascado”, mas eu é que sou o verdadeiro inspetor da AT.
O mecânico engole em seco. O primeiro cliente, o falso inspetor, tenta rir-se, mas o riso deu lugar a uma tosse tísica.
— Ora bem… — continua o verdadeiro inspetor, tirando um bloco de notas. — Vamos lá então analisar a vossa tese sociológica. O Estado é uma “corja de gatunos”? Realmente é uma visão arrojada. Gostei.
— Ó senhor inspetor, foi uma brincadeira… — balbucia o mecânico.
— Uma brincadeira? Claro que sim! Tudo neste país é uma brincadeira. O orçamento é uma brincadeira, o SNS é uma brincadeira, e a vossa moralidade é uma anedota.
— Eu só estava a tentar poupar uns trocos… diz o mecânico, encolhendo os ombros.
— Claro que sim. Todos queremos poupar. O problema é que em Portugal a “honestidade” é como o verniz das unhas: basta raspar um bocadinho de IVA e salta logo tudo.
O inspetor aponta para a reparação.
— Ora, vamos lá ao que interessa. Mestre, passe-me aí o recibo. Vamos fazer uma doação forçada à tal “corja”.
— Mas vai multar-nos? — pergunta o mecânico, quase a chorar.
— Multar? Não, isso é muito vulgar. Vou só aplicar-vos a “Taxa de Cinismo Agudo”. O Estado pode ser gatuno, mas eu sou o cobrador do fraque do destino. E hoje, o destino quer fatura com o número de contribuinte bem legível.
Nem o biscateiro nem o cliente eram tipos espertos por aí além.
Senão, veja-se: o primeiro devia ter ficado logo de pé-atrás quando o segundo lhe perguntou “Qual é a diferença?”, como se toda a Nação não soubesse a resposta desde os tempos do Paulo Macedo nos Impostos; o cliente porque, podendo ficar com a obra gratuita e ainda moralizar por cima, preferiu ficar-se pela chalaça e pagar o trabalho.
Portanto, para lá de um típico par de contribuintes tugas que gostam de fazer negaças à “corja”, temos que o biscateiro é mais parvo do que julga, e o cliente mais honesto do que pensa – características também muito tugas, sobretudo neste género de transações. Há muitos que vão buscar lã e acabam tosquiados.