Quando era miúdo, um dos meus passatempos era coleccionar cromos da bola, numa caderneta que dava direito a prémio quando completa. Trocava os "repetidos" – os que estavam sempre a sair – com os meus amigos e havia os "dificílimos", aqueles que raramente saíam e que, praticamente, inviabilizavam o prémio. Por vezes, trocávamos os "dificílimos" por uma série de "repetidos", sempre no afã de completar a caderneta e ganhar a bola brilhante que o estabelecimento ostentava. Leio, agora, que a PSP se prepara para lançar uma variante dos cromos, só que agora já não da bola, mas do crime. Lê-se, no JN, que várias esquadras do país estão a impor "números-base" de detenções a fazer até ao fim do ano.
Estou a ver os polícias:
– Então, já detiveste este?
– Ora, esse é "dificílimo". Mas tenhos alguns "repetidos" para a troca…
– Ora, esses toda a gente detém…
– Troco 10 "repetidos" por um "dificílimo".
– Bem, deixa-me pensar…
(Palpita-me que todos vão completar a caderneta. Porque, neste jogo, os "repetidos" valem tanto como os "dificílimos"…)

É um problema! Aplicar mecanicamente raciocínios gerais sem se aterem à especificidade das situações. Como se a produtividade de qualquer actividade se pudesse restringir a quantidades. No limite (eu sei que é um raciocínio exagerado) a produtividade da acção policial poderia resumir-se a zero detenções se conseguissem uma prevenção tal que evitasse o crime! Por outro lado desloca-se a dimensão agonista da díade polícia/criminosos, para um dos lados. Qualquer dia os polícias andam a “competir” entre eles! Uma agonia! Uma alienação!
🙂
O problema é que enquanto andam a trabalhar para a estatística, vai deixar fugir o peixe graúdo 🙂
De qualquer modo, a Direcção Nacional já veio desmentir. Mas não deixa de ser curiosos que pelo menos duas esqaudras tenham feito estes planos. Alguma coisa deve ter havido.