MÁRIO MONIZ PEREIRA
Desportista nato, praticante das mais diversas modalidades (atletismo, andebol, voleibol, basquetebol, futebol, ténis de mesa e hóquei em patins), campeão nacional de vólei e recordista nacional do triplo salto, o actual sócio número 2 do Sporting Clube de Portugal começou desde cedo a treinar atletas: era esta a sua maior vocação e foi nisto que mais se distinguiu.
Enfrentando todas as adversidades, lutando contra todos os obstáculos, ultrapassando a proverbial tendência muito portuguesa de deixar as coisas para amanhã e jamais voltar a pensar nelas, conseguiu, após décadas de esforço, pôr o País inteiro a correr. Ele dava o exemplo, fizesse chuva ou fizesse sol.
Eu vivi essa época e sei do que falo: graças a Mário Manuel Freire Moniz Pereira e aos campeões que ele treinou, o atletismo tornou-se uma paixão nacional. Porque, naqueles anos 70 e primeira metade da década de 80, só nas pistas e nos trilhos o desporto português teve as suas horas de glória. Começando em Fevereiro de 1977 com a vitória na Taça dos Campeões Europeus de corta-mato – proeza colectiva da equipa do Sporting que viria a repetir-se sete vezes nos dez anos seguintes – e culminando naquele instante irrepetível que foi a entrada de Carlos Lopes, com a sua passada larga e segura, no estádio de Los Angeles, estabelecendo novo recorde olímpico da maratona e conquistando a primeira medalha de ouro portuguesa nuns Jogos Olímpicos – proeza antecipada na medalha de prata que obtivera em 1976, na final dos 10 mil metros, nas Olimpíadas de Montreal, e que poderia ter ocorrido logo em 1980 se Portugal não tivesse aderido nesse ano ao boicote ocidental aos Jogos Olímpicos de Moscovo.
No momento em que a bandeira portuguesa subia ao mastro e se escutavam os acordes do hino nacional em Los Angeles, o professor Moniz Pereira via coroados 39 anos de trabalho incansável.
Em ocasiões como essa ou no mês anterior, quando Fernando Mamede bateu o recorde mundial dos 10 mil metros, em Estocolmo, o Senhor Atletismo – como também é conhecido, a justo título – demonstrava a sua verdadeira estatura de campeão não só do desporto mas também da vida: associava-se com júbilo às celebrações mas nunca reivindicou louros especiais como treinador. Como se aquela fosse uma tarefa ao alcance de qualquer um. Que diferença em relação a certos técnicos no mundo do futebol, que mesmo sem vencerem nada falam de forma petulante e empertigada, como se não fossem a nulidade que realmente são…
Mantendo incólume o sportinguismo de sempre, continua a dar-nos lições. Diz-nos, por exemplo, que não devemos odiar os adeptos de outros emblemas. E gaba-se de ter amigos de todas as filiações clubísticas.
Perguntem-lhe do que mais se orgulha. Ele responder-vos-á que foi de ter conseguido, através do seu exemplo, que toda uma geração de portugueses calçasse sapatilhas e fosse correr para as ruas e estradas do País.
Apenas isto. Que é muito.
Como na letra daquele fado tão conhecido, composto por este homem de múltiplos talentos, Mário Moniz Pereira bem pode exclamar: “Valeu a pena ter vivido o que vivi.”
Imagens:
1. Durante a homenagem que lhe foi prestada pelo Sporting em 2011, ao festejar 90 anos
2. Com Fernando Mamede, na década de 70
3. Capitão da equipa de Sporting campeã nacional de voleibol, em 1954 (jogava com o nº 8)
Mário Moniz Pereira, nascido a 11 de Fevereiro de 1921, faz amanhã 95 anos.

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Curvo-me perante um grande, enorme português.
Os meus sinceros parabéns!
Quando teremos na política homens assim?
Bem merece a homenagem de todos os desportistas, seja qual for o clube de cada um. Direi mais: merece a homenagem de todos os portugueses.
“Porque, naqueles anos 70 e 80, só nas pistas e nos trilhos o desporto português teve as suas horas de glória”. Sei lá, o FC Porto ter conquistado a Taca dos Campeoes e a Taca Intercontinental foi um feito menor e nao pode ser considerado “horas de glória”… Ou a meia-final de Portugal no Euro 84. No Hóquei em Patins também nao foi nada mal… OK, desporto menor. Mas esquecer o FCP, enfim… fica lá no cantinho do Morais.
Obrigado por ter chamado a atenção para um erro factual que já corrigi. Queria eu referir-me – como ficou na versão alterada – à primeira metade da década de 80, não à totalidade da década.
Um Homem sério, devotado, pragmático, profissional, culto mas ao menos tempo de enorme coração.
Não sendo Sportinguista sempre o admirei e é uma justa homenagem que o Pedro Correia aqui lhe faz ao lembrá-lo ainda em vida, lembrando-nos a todos nós que cada vez mais faltam exemplos para a sociedade como o do Prof. Mário Moniz Pereira.
Nesta data, até como sportinguista, senti o dever de apontar o bom exemplo do professor Moniz Pereira como figura de referência da sociedade portuguesa. Procurarei trazer aqui outras figuras, nesta mesma série, sempre com o mesmo propósito: apontá-las como personalidades exemplares, com quem todos temos e teremos certamente algo de bom a aprender.