FERNANDO CORREIA
Há vozes que nos acompanham desde a infância: são elas que nos vão transmitindo a convicção de que não existem saltos bruscos no tempo mas uma perpétua linha de continuidade da madrugada ao crepúsculo da existência. Vozes treinadas, bem timbradas, em que cada sílada se entende. Vozes de um tempo que já não é bem este – cheio de gente a arfar aos microfones, incapaz de fazer pausas no momento certo, com defeitos de pronúncia de pasmar.
Quando Fernando Correia se estreou na rádio, com apenas 19 anos, as ondas hertzianas estavam circunscritas àqueles que sabiam colocar a voz e a tinham bem treinada, sem aquelas convulsões asmáticas que se tornaram corriqueiras nestes dias em que até os gagos se ufanam de picar o ponto em antena.
Foi animador de emissão e repórter radiofónico durante quatro anos nos Emissores Associados de Lisboa. Em 1958 entrou por concurso na Emissora Nacional e viria a destacar-se nesta estação a partir de 1964 como relator desportivo. “Locutor de 1ª classe” desde 1966, conforme atestava a sua carreira profissional, é um dos raros sobreviventes dessa era de ouro da rádio portuguesa. Em que cada voz era inconfundível.
Trabalhou em vários jornais, incluindo o Record, e continua a ser presença regular nos ecrãs televisivos. Passou pelo Rádio Clube Português e destacou-se mais ainda, após o 25 de Abril, na Rádio Comercial – num dos melhores períodos da actividade radiofónica no nosso país. Lembro-me dele desde miúdo, quando acompanhava os relatos da bola com o transístor de pilhas encostado ao ouvido. Aquelas Tardes de Desporto, domingo após domingo, perdurarão para sempre na memória de quem as escutou.
E nem só de futebol viveu a magnífica carreira profissional de Fernando Correia: outras modalidades, como o hóquei em patins e o atletismo, foram igualmente valorizadas com os seus relatos que nunca deixavam de ser empolgantes sem perder a elegância. Foi pela voz dele que acompanhámos em maratonas radiofónicas as inesquecíveis vitórias olímpicas de Carlos Lopes em Los Angeles (em 1984) e de Rosa Mota em Seul (1988).
Comandou durante 16 anos a Bancada Central na TSF – de segunda a sexta-feira, das 21.15 às 22 horas. Depois abriu o Lugar Cativo, no renovado (e efémero) Rádio Clube Português. Agora podemos escutá-lo na Rádio Amália e na Sporting TV. Adepto leonino desde sempre, mas sem sectarismos de qualquer espécie, tem amigos de todas as cores futebolísticas. É, acima de tudo, um excelente conversador. Porque não se limita a falar bem: também sabe ouvir.
Continua a trabalhar com o entusiasmo de um novato temperado com a veterania de quem já viu de tudo um pouco. E ainda arranja tempo para escrever livros: este ano lançou o comovente Piso 3, Quarto 313.
“Vou continuar até ter voz”, promete. E nós, seus ouvintes de sempre, fazemos votos para que a voz nunca lhe falte.
Fernando Correia, nascido a 16 de Julho de 1935, faz amanhã 80 anos.

![OriginalSize$2015_04_08_16_58_24_116009[1].jpg OriginalSize$2015_04_08_16_58_24_116009[1].jpg](http://7.fotos.web.sapo.io/i/Bf4145472/18635250_FmAID.jpeg)
Caro Pedro,
subscrevendo tudo o que diz, permita que sublinhe algo que não referiu: os relatos, duplos, que com Jorge Perestrelo por vezes fazia na TSF!
Duas enormes vozes, uma mais contida outra mais exuberante!
É verdade, António. Lembra bem. O espaço não chega para tudo, mas vale a pena recordar também essa fase muito feliz da longa carreira do Fernando Correia.
Pessoalmente, sempre gostei mais do estilo de relatar dele. Aprecio aquela sobriedade nunca isenta de emoção.
Isso de arfar aos microfones e fazer pausas fora do sítio é uma verdade como um punho. Merecem uma das frases mais assassinas da minha mãe quando os filhos armavam em engraçadinhos: “Não se faça saliente!”.
Deixei de ouvir rádio há uns anos com regularidade por causa disso, Isabel. Começou a tornar-se moda a voz de falsete, muito engasgada, muito aos solavancos e cheia de expressões gaguejantes. Uma certa estação radiofónica fez até gala de levar quase sempre ao microfone pessoas com essas características: pareciam ser todas farinha do mesmo saco.
Um dia fartei-me. Até hoje.
Extremamente curioso era o entusiasmo que havia relativamente ao hóquei em patins, nos tempos em que não era transmitido pela TV. Todo o país da minha meninice/juventude vibrava com os relatos radiofónicos dos diversos campeonatos em que Portugal ia participando – e até do torneio de Montreux. E FC bem contribuiu para isso… Mas, de facto, jogo menos televisivo não há.
Não é televisivo porque não querem, ou não têm ideias. O hoquei no gelo dá logo algumas ideias: pavimento branco, bola(disco) preta.
Julgo que as balizas foram ligeiramente alargadas e a bola aumentou ligeiramente de volume e passou a ter uma cor mais forte. Isso tornou a modalidade ligeiramente mais “telegénica”.
Mas os bons relatores, como Fernando Correia, faziam-nos “ver” as imagens só através da voz na rádio…
Também ouvi relatos de hóquei – nomeadamente os campeonatos do mundo de 1974 e 1982, que Portugal venceu – na rádio. Eram tão imaginativos e coloridos e empolgantes como os futebolísticos.
Pedindo desculpa pela banalização do termo, mas foi o que me ocorreu após a leitura do seu texto, que me trouxe à memória o meu pai, seu grande admirador – Fernando Correia, incontornável .
Tem razão, Fátima: o termo banalizou-se em excesso. Mas aplica-se sem favor a esse grande senhor que é o Fernando Correia.
Um grande Senhor, Fernando Correia. Ao pé duns tontos(as) que enxameiam aí as actuais rádios, armados em engraçadinhos(as), que não sabem falar mas apenas silvam aos microfones… FC é um monumento. Um profissional de mão cheia. Uma pessoal vertical, que sabe o que é a ética, praticando-a no dia-a-dia.
Acabei de usar essa mesma expressão (“grande senhor”) na resposta ao anterior comentário. Não por acaso: nós, que conhecemos há anos o Fernando Correia, nem que seja apenas enquanto consumidores da informação desportiva, aplicamos-lhe sem favor esse qualificativo.
Tem toda a razão, meu caro: hoje abusa-se na rádio da presença desses fulanos que adoram “silvar ao microfone”. E vários deles julgam-se engraçadinhos sem terem graça nenhuma.