Os painéis entre os seus


João Pedro Pimenta,

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A obsessão da vida de Almada Negreiros realizada: a obra maior da pintura portuguesa na  obra maior da arquitectura nacional, no seu espaço mais nobre.

 

Em 1918, de visita ao Museu de Arte Antiga, Almada, Santa Rita-Pintor e Amadeo Souza Cardoso fizeram um pacto (que implicou rapar o cabelo e as sobrancelhas, como disciplina e provocação digna do Orpheu) de que estudariam os painéis conhecidos como de S. Vicente até descobrirem todos os seus segredos. Santa-Rita e Amadeo morreriam no espaço de um ano e Almada ficou sozinho com uma missão perpétua. Tinha ficado fascinado pelos painéis e por um Ecce Homo exposto ao seu lado. Sendo um artista de vanguarda, afirmava que “a arte moderna sabe que o novo está perpetuamente no antigo”.

 

Os painéis, atribuidos a Nuno Gonçalves (tal como o Ecce Homo, erradamente, como se comprovou mais tarde) como representando S. Vicente, padroeiro de Lisboa, já tinham dado origem a discussões e teses várias, que duram até hoje, e a dada altura tornaram-se motivo de discussão artística, histórica e até política e ideológica. Havia quem defendesse que quem estava representado era o Infante Santo, D. Fernando, levando a polémica tão ao extremo que provocou o suicídio a um investigador que tinha sido enganado, Henrique Loureiro, e a uma cena de pancadaria no Chiado entre Almada e José de Bragança pela autoria da descoberta do “mistério”, e que era do próprio Almada. Tempos em que polémicas estéticas levavam a vias de facto.

 

Descobrindo um pormenor nos ladrilhos do quadro e partindo de raciocínios puramente geométricos, Almada considerou que os painéis fariam parte de um conjunto maior, de 15 peças, projectadas para figurar na parede Norte da Capela do Fundador, no Mosteiro da Batalha, ao lado dos túmulos de D. João I, Dona Filipa de Lencastre, D. Afonso V, D. João II e do Infante D. Henrique, entre outros, sendo que alguns estão representados na obra. A tese tinha lógica, mas também os seus “buracos”: há poucos anos determinou-se que o Ecce Homo, figura central do conjunto, era do séc. XVI, e por isso nunca poderia ser concebido antes para figurar ali. Ainda assim, há outros elementos que dão razão a Almada, mesmo que ele duvidasse que seja S. Vicente a figura central dos painéis. As discussões e as interrogações sobre essa pintura fascinante hão de continuar sempre. Se há dúvidas sobre a verdade, escolha-se a lenda.

 

O que é certo é que a obsessão de uma vida de Almada Negreiros está agora exposta na Capela do Fundador, na Batalha, até ao fim do ano, a quem a quiser ver.

 

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10 comentários em “Os painéis entre os seus”

  1. Estão bem um para o outro, os painéis e o mosteiro. Honram-se mutuamente.
    Gostei de ler a história que desconhecia. Uma pena Santa-Rita e Amadeo terem morrido tão cedo. E Santa-Rita deixar ordem para queimarem toda a sua obra. Bem podiam desobedecer.

    1. O que não seria o séc. XX portuguÊs com mais uns anos desses autores. Se bem que desconfie que a certa altura Santa-Rita deixaria o futurismo para se dedicar a outras correntes. E Amadeo? Em que é que se teria transformado?
      E sim, a capela e os painéis estão muito bem um para o outro.

  2. Óptimo alerta João. É aqui bem perto e já está na agenda para os ir ver pela primeira vez. Com este introito, cujo enredo desconhecia, ainda merecerá mais a visita.
    Obrigado
    Para quem não conhece o Mosteiro da Batalha, além da maravilha gótica que é, recomendo esperar para ver o render da guarda no túmulo do Soldado Desconhecido e o espaço museológico relativo à participação portuguesa na Grande Guerra. Do lado de fora, o melhor é a sandes de presunto no Brogueira acompanhada por um copo de tinto.

    1. Vou lá amanhã, com direito a visita guiada.
      Obrigada pelas sugestões, uma boa sandes de presunto é uma tentação!

    2. Tarde demais para a sugestão no Brogueira, Paulo. Ficará para outra vez. Mas a exposição (e tudo o resto) impõe-se. A propósito, passei em Porto de Mós, que ainda não conhecia. Tenho uma gravura antiga do castelo e do pelourinho e achei que era vergonhoso não conhecer os modelos ao vivo

      1. É sempre uma boa paragem.
        O castelo é uma varanda com vista para a Serra dos Candeeiros, que é um tesouro que merece ser visitado.
        Espero que tenha gostado do desvio.
        Um abraço

          1. Todos os elogios que se possam fazer ao interesse histórico e cultural dos monumentos e dos museus, esbarram perante a rigidez dos direitos dos funcionários que nunca poderiam lidar com a incerteza que decorreria de terem de fazer uma escala de serviço para os manter visitáveis durante todos os dias. Estamos em Portugal.
            Felizmente os pasteis de Mós não são produzidos por funcionários públicos.

  3. Note-se: os painéis expostos são reproduções. Os originais estão (ainda) em restauro.
    Quem puder, complemente a visita à Batalha com a exposição “irmã” no MNAA.

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