Os heróis de milhares de jovens telespectadores de outra época estão a desaparecer com uma rapidez impressionante – o que nos deixa atónitos a todos nós, que os vimos em crianças: nessa altura nunca nos passaria pela cabeça que não fossem imortais.
Começou a 9 de Dezembro, com o desaparecimento de Gene Barry, protagonista de uma série de suspense que fez sucesso no final dos anos 60: O Jogo da Vida. Era um actor que chegou a contracenar com Clark Gable. O seu papel mais conhecido no grande ecrã foi como protagonista d’ A Guerra dos Mundos (1953), filme baseado no romance de H. G. Wells.
Prosseguiu a 24 de Janeiro, com a morte de Parnell Roberts, o último sobrevivente da saga Bonanza, que entusiasmou várias gerações de jovens consumidores de televisão. Era o irmão mais velho da família Cartwright, o mais calmo e ponderado, aquele que vestia sempre de negro por um motivo que nunca percebi mas que, aos olhos dos miúdos que éramos então, só poderia ser sério e grave. Um dia despediu-se da série – ainda hoje a mais popular de sempre, no género western, da TV americana – e rumou a outras paragens. Os episódios de Bonanza nunca mais foram os mesmos.
Agora despedem-se de nós dois outros heróis: Jim Phelps e Daniel Boone. Estes eram os nomes por que nós os conhecíamos, mas na vida real Phelps chamava-se Peter Graves e Boone era Fess Parker.
O primeiro liderava a brigada de elite de Missão Impossível, que conseguia levar sempre a melhor contra as forças do mal naqueles dias cinzentos da Guerra Fria, com Berlim ocupada e o arsenal atómico ao serviço de ideologias em confronto. Ness altura, como espectador assíduo de Missão Impossível, não fazia ideia, mas Graves fora um intérprete de excelentes filmes na década de 50, como O Inferno na Terra (1953), de Billy Wilder, e A Sombra do Caçador (1955), de Charles Laughton.
O segundo era a recriação televisiva de dois míticos heróis norte-americanos: Daniel Boone e também David Crockett – este último que mais tarde viria morrer em Alamo, de John Wayne, um filme que anda injustamente esquecido. Enquanto Phelps/Graves pertencia ao mundo ultra-sofisticado do radar e dos computadores da IBM, Boone/Crockett/Parker pertenciam ao intrépido mundo dos pioneiros que alargaram as fronteiras dos EUA – homem que viviam em cabanas de madeira à beira de lagos e conheciam os trilhos dos bosques como as palmas das mãos.
Jim Phelps, o mais duro e discreto dos agentes ao serviço do bem, e Daniel Boone, o aventureiro que desafiava todos os perigos da floresta, deixaram-nos inconsoláveis com este súbito adeus à vida. O mundo da nossa infância está a desmoronar-se.
Fotos: Fess Parker (David Crockett) e Peter Graves (Jim Phelps)



Caríssimo,
“O mundo da nossa infância está a desmoronar-se.”
Dentro e fora do Ecrã…
Forte abraço e boa semana,
Bem sei, bem sei. Quem de nós, miúdos que víamos essas séries, iria então imaginar isso? É o Jogo de Vida. Quero eu dizer: é a lei da vida.
Um abraço. E boa semana também.
Dois autores que fazem parte do meu imaginário.
Estes e tantos outros, Daniel. O Don Adams (de ‘Olho Vivo’), a Elizabeth Montgomery (de ‘Casei com uma Feiticeira), o par Eddie Albert-Eva Gabor (de ‘Viver no Campo’), o Carroll “Archie Bunker” O’ Connor (de ‘Uma Família às Direitas’)…
Disto já não há.
Pedro não concordo com o …” disto já não há ” … é verdade que preencheu os nossos universos de criança, mas achar que disto já não existe, parece quase dizer que as crianças de agora não têm nada…
dizer isso é cair nos mesmíssimos erros da geração dos nossos pais, quando condenavam a nossa.
Quando era adolescente fiz uma promessa a mim mesma, nunca dizer ” no meu tempo é que era bom “, era bom, mas já não é, e mal daqueles que não conseguem ver o presente, destes mais novos.
Neste contexto gostaria de lhe fazer uma proposta, mesmo que seja uma tarefa difícil, encontrar nos tempos mais recentes, esses imaginários…
O mundo da nossa infância está a desmoronar-se, porque temos de dar espaço a outros muros de outras infâncias, que têm tanto direito como as nossas.
Assim estas lembranças de infância que alimentam os nossos egos dos tempos em que saltávamos muros, e pulávamos das árvores com destreza, para mim servem para me rir, divertir e contar…como uma história muito bonita mas que termina sempre ao fechar do livro e que se pode retornar sempre enquanto existirmos.
Quanto a estes homens e mulheres que ” encarnaram” estas personagens fantásticas e de quem afinal nada sabemos para além destes papeis, poderiam até ser as piores pessoas, mas que nos fizeram sonhar…Paz á sua alma e que nos aguardem por muito tempo…
Não me entenda mal, CR. A frase “disto já não há” é uma espécie de senha que aqui usamos quando damos largas à nostalgia. Neste caso para dizer, em síntese, que estes actores concretos já não estão entre nós. Claro que cada geração tem os seus ícones – de alguma forma insubstituíveis pelos ícones de outras gerações. Onde eu quero chegar, no fundo, é aqui: não podemos viver sem figuras de referência, da vida real ou da ficção. Não podemos viver sem heróis.
hum..ok…Pedro, eu é que peço desculpa, provavelmente excedi-me, mas como é um assunto que me perturba, quando dei por isso, já tinha divagado de mais…
(bandeira branca ao vento)
Eheheh. Amigos como dantes.
São marcas exteriores do nosso próprio envelhecimento. 🙂
Marcas do nosso amadurecimento, digamos assim…
Está bem fiquemo-nos pelo amadurecimento, então. 🙂
Soa melhor, não soa?
Eu sou “extracção” de 1955.E isto não vai sendo para “velhos”…
Pois não. Que o diga o “jovem” José Sócrates, que anda com um ar tão cansado.
Não é esse o destino de todas as infâncias? Ficam as memórias, nem tudo se perde…
As memórias da infância são um baú inesgotável.