Os minutos de fama dos micropartidos


Pedro Correia,

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É de bom-tom criticar os principais partidos com representação parlamentar, como se a pureza doutrinária e a bondade cívica morassem algures, noutras forças políticas, sem acesso aos circuitos do poder.

Nada como espreitar uma campanha eleitoral na televisão para averiguar se isso é verdade. Sobretudo os tempos de antena, confiados à responsabilidade destas agremiações partidárias sem assento na Assembleia da República. É pedagógico, a vários títulos. Desde logo para desfazer ilusões sobre o suposto mérito de quase todas.

Dez dias a acompanhar estes espaços de propaganda elucidaram-nos sobre tais grupos alternativos, que vão da extrema-esquerda à extrema-direita. Valeu a pena o esforço.

 

Os anos passam, as décadas sucedem-se, mas há coisas que não mudam nos tempos de antena. Ao som da “Internacional”, reencontrámos o vetusto PCTP-MRPP envolto em naftalina exibindo a foice num país sem agricultores e o martelo numa nação desprovida de carpinteiros. Nem um bom canalizador se arranja por estes dias, quanto mais um ceifeiro…

Outro micropartido já repetente é o MPT, fundado pelo saudoso arquitecto Ribeiro Telles em melhores tempos. Mensagem actual pouco acima do zero: mera colagem de frases ao nível de turma liceal, do género «o planeta não pode esperar mais». Talvez a mais original tenha sido esta: «Todos gostamos da sombra das árvores mas poucos cuidam delas.»

Mais original, um partido caloiro chamado Volt sugere a criação de um novo ministério – o da Digitalização. Para «reduzir os processos burocráticos». Nas próximas eleições, pela mesma lógica, hão-de propor um Ministério da Verdade para extinguir as fake news. Fica a sugestão.

 

E que mais? O partido do Tino de Rans sempre a mostrar… o Tino de Rans. A distribuir beijinhos e abracinhos como se fosse concorrer a Miss Universo. Tem, pelo menos, o mérito de nada prometer. Ao contrário do Nós Cidadãos, que não faz a coisa por menos: reivindica uma «revolução da cidadania», seja lá o que isso for. Com direito a cantiguinha, para animar a malta. «É preciso dar as mãos para um país diferente», reza o refrão. Também a jovem Aliança debitou cantilena: «Aliança, Aliança! Votemos na Aliança!» Profundíssimo.

Outros partidos surgiram sem trolaró. Façanhudos, zangadíssimos, com vontade de nos bater. Um deles usa hífen: Ergue-te. Declara combate sem tréguas «contra este regime podre, maçónico-corrupto», e parece ansioso por «reverter os fluxos migratórios». Outro, sem hífen, diz chamar-se ADN: nega a pandemia e proclama-se inimigo dos certificados digitais. Enfrenta o coronavírus sem máscaras nem vacinas.

 

Quem se sente farto dos “partidos do sistema” devia prestar atenção a estes grupos pseudo-alternativos e extrair as devidas conclusões. Ao menos podiam ser diferentes na linguagem, mas nem isso: aliviam-se a soletrar lugares-comuns. Com palavrões como sustentabilidade, priorizar, implementar, descarbonizar, paradigma, janela de oportunidade. Em comparação, até o defunto “proletariado” do MRPP quase cheira a novidade.

 

Texto publicado no semanário Novo

12 comentários em “Os minutos de fama dos micropartidos”

      1. Não é desperdício, é mesmo falta de fé nesta gente. Só um terramoto 9.6 seguido de um maremoto e depois um tufão com sida cósmica e se calhar um ataque nuclear pelo sim pelo não é que pode endireitar isto.

  1. Os pequenos partidos não tem dimensão nem habilidades para albergar e difundir as perniciosas manhas dos que se fizeram donos da podridão onde vegetam
    “O partido do Tino de Rans sempre a mostrar… o Tino de Rans. A distribuir beijinhos e abracinhos como se fosse concorrer a Miss Universo.”
    Mas tem o concorrente Marcelo que com pequenos intervalos para refrescar já ostenta o titulo vitalício de campeão das aparições onde quer que haja alguém para o ver e ouvir, como se estivesse a concorrer a ocupante mor do andor das crenças celestiais.

  2. Bom dia Pedro Correia
    Com a devida vénia assino por baixo. No meu “Chapéus” alguns comentários superficiais coloquei, e passei por cima dos “grupúsculos” exactamente pelo que, a meu ver, bem refere.
    E, opinião pessoal, isto bem retrata a formação real na sociedade portuguesa.
    Ilusões de que tudo é/ será simples, tudo a cair do Céu. Bom Domingo, saúde.
    António Cabral

  3. Infelizmente o POUS não se encontra entre nós.
    Realmente, se o RIR é o Tino, que é o Chega que não o André.
    O volt defende a Europa federal, não são tão burros quanto isso. Mais vale assumir ser um estado vassalo.

  4. estive a assistir
    o Big Bang originou o estado e este criou mais tarde os contribuintes
    por isso estes existem para servir o estado
    ofendem-me se me chamarem cidadão

  5. Quem for fraco de vista, ver-se-á um tanto ou quanto grego para descobrir, no meio daquela amálgama simbológica, qual o seu partido de eleição. Será a expressão dividir para conquistar levada ao extremo dos sinais dos tempos?

  6. O defunto grande educador mrpp já não é preciso para nada, a confusão foi armada no tempo em que ninguém lhes dizia “vocês querem um Portugal como a Albânia”. Ainda está a ser estudado pq é que as suas estrelas de educadores não conseguiram ser eleitas deputados. E que estrelas por lá houve com saídas de prestígio, não seguindo o caminho de delegado de propaganda médica, antes de prestigiado vendedor de vacinas covid.

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