Os méritos da comunicação social


João Pedro Pimenta,

Tenho lido por aí que só agora é que a comunicação social tem dado atenção ao caso Homenyuk, que durante nove meses não se ouviu nada, etc, etc. Lê-se isso nas redes sociais mas também de outras paragens inesperadas, como alguns jornalistas em guerra autofágica contra a própria classe. Nada mais injusto, nesta ocasião.

Pegando nas palavras de um dos responsáveis do que sucedeu, houve quem não ouvisse nada. Porque desde fins de Março que se conhecia o casos e os seus contornos, que se sabia que algo de muito errado se tinha passado com o ucraniano e os agentes do SEF, e tudo isto porque a comunicação social o divulgou. Se o caso não teve mais repercussões é porque as pessoas até agora tinham ligado pouco.

Em lugar de bater sempre na imprensa, que tantas vezes e ao contrário do que se passou agora não cumpre as suas funções, seria bom pensar que talvez as redes sociais não sejam assim tão informativas ou eficazes. Afinal de contas, soube-se disto em fins de Março, quando a pandemia tinha repentinamente surgido e estava tudo em casa. Lembro-me aliás de ter sido o primeiro caso que não o covid-19 a abrir os noticiários em muitos dias. E não foram com certeza os “jornalistas” de smartphone que divulgaram a situação. Algumas pessoas ligaram mais, de certa forma para se libertar do totalitarismo informativo covidiano, mas outras pouco terão ligado. Até agora, quando a viúva do pobre Homenyuk disse “odiar Portugal”(e poderemos nós censurá-la, por muito que nos custe?). Através da comunicação social, claro.

Por isso, culpe-se o SEF, a ANA, o governo que só agora é que resolveu dar uma compensação à família, o ministro Cabrita, o presidente ou outros, mas deixem de se atirar à comunicação social. Há imensas razões e oportunidades para criticá-la. Eu próprio já o fiz, aqui no Delito. Mas ao menos, e ao contrário do que acontece com inumeras páginas manhosas da net, que atraem sempre alguns discípulos hipnotizados, os artigos vêm sempre assinados e podemos saber quem foram os seus autores. Aqui é manifestamente injusto que assaquem as culpas à CS, porque é graças a esta que sabemos os contornos do caso.

10 comentários em “Os méritos da comunicação social”

  1. Entretanto mais um crime horrendo cometido no fim de semana, 540 animais -javalis, gamos e veados, foram chacinados numa montaria na Quinta da Torre Bela, na Azambuja. Provavelmente daqui a uns meses escandalizar-nos-emos outra vez. Próximo.

  2. Tenho lido por aí que só agora é que a comunicação social tem dado atenção(…) Nada mais injusto, nesta ocasião.
    – Nada mais justo a critica à Comunicação Social, são os jornalistas que quando têm um caso que vai de acordo com os valores que defendem no momento vão logo contactar todas as associações amigas para reforçarem a narrativa que querem passar.
    Como o Governo é PS dá logo uma certa imunidade jornalista, caso fosse PSD em vez de “terem ido bater ” à porta da Amnistia Internacional em Novembro talvez tivessem ido em Maio. Por examplo Chega for Governo então todos os casos em que haja conflito com autoridade serão “escrutinados” a pente fino a apresentados à priori como violência do Governo como fizeram com Trump.
    É a mesma razão porque as “comissões de utentes” e as “associações” deixaram de ter opinião e desapareceram dos noticiários assim que o PS chegou ao poder.
    “Se o caso não teve mais repercussões é porque as pessoas até agora tinham ligado pouco.”
    Não. As pessoas foram “reeducadas” a só terem emoções quando a comunicação social embrulha e fornece essas emoções. Tivemos manifestações em pleno COVID por causa de uma americano a milhares quilómetros de distância. Porquê? porque a Comunicação Social deu vasto tempo ao assunto, chamaram “comentadores”,”associações” para reforçar a narrativa Anti Trump. Nada disto foi feito em relação ao Ihor. O Ihor não era útil a mostrar alguém de “direita” em má posição.

    1. Consegue falar de uma quantidade de assuntos e tirando a objecção no início do comentário não diz nada sobre o post. Se em lugar de olhar para a ideologização da CS se desse ao trabalho de a ler/ver talvez tivesse ouvido falar do caso mais cedo.

      1. As criticas à comunicação social não são porque não noticiou, mas porque não deu ao caso a dimensão que deu a outros casos menos e muito menos importantes.
        O jornalista tem o poder de:
        -destacar fisicamente a notícia. pelo seu posicionamento da ordem, pelo espaço e tempo que ocupa.
        -pelo número de intervenientes que chama ou não para falar
        -pela continuidade no tempo que a notícia ocupa: dias, semanas.
        -pelos adjectivos que emprega na notícia valorizando-a com a sua moral ou não, começando logo pelo título..
        Como a morte de Ihor não era possível de ser varrida para debaixo do tapete as notícias no fim de Março eram todas enxutas de adjectivos que não faltaram no caso Floyd e outros. De facto deve ter sido das raras vezes que os jornalistas em Portugal escreveram notícias próprias sobre algo sério. Mas as pessoas já foram reeducadas pelas forma que os jornalistas criaram de noticiar para consideraram importantes apenas notícias que têm muita opinião e adjectivos – comida muito saborosa…. Logo a função de a fazer passar sem reacção foi atingida. Era insípida – como devem ser todas as notícias -, mesmo com uma morte violenta sem justificação aparente por parte do Estado.

  3. Perguntar o porquê de tão pouca atenção ao ucraniano é o mesmo que questionar porque não se fala tanto do Desportivo de Chaves nos noticiários desportivos.
    Os critérios editoriais estão ligados ao suposto interesse e reacções do público. Este caso teria bem mais repercussão tratasse-se de um afro-descendente ou brasileiro. E sim, a CS vai atrás das redes sociais e público, mal houvesse “basqueiro” no facebook, os jornais e tevês atiravam-se à história como cão a um osso.

  4. Talvez por não estar assim muito exposto à comunicação social televisiva, achei que a vaga de fundo foi muito mais activa e persistente no Twitter. Apenas depois de muitas repetições e muitos comentários é que o assunto transbordou até à imprensa e televisão. Fiquei com a impressão que a comunicação social não quis foi ficar fora da onda.

  5. Li o que se segue no Blogue de rerum natura. E se for verdade?

    “Fui médico hospitalar e, em contexto de Serviço de Urgência, fui muitas vezes chamado a resolver problemas associados a grande agitação de doentes que se encontravam naquele espaço e também nas enfermarias onde tinham sido internados pelas mais diversas doenças.

    Frequentemente a agitação deveu-se a abstinência alcoólica, o que acarretava grande dificuldade em resolver, pois implicava não só conseguir acesso ao doente para lhe poder dar medicação, como também o uso de doses elevadas de sedativos, com risco de lhe provocar sedação excessiva e necessidade de suporte ventilatório. A actividade alucinatória é um componente que impede uma comunicação minimante eficiente.

    Pela descrição que ouvi sobre o que se passou no SEF em Março de 2020, tudo me leva a supor que Ihor Homenyuk, ao segundo dia de estar retido nas instalações do aeroporto, desenvolveu um quadro de Abstinência Alcoólica. A crise epiléptica descrita pertence ao quadro. A gíria chama-lhe “rum fit” e é frequente no início da síndrome. Ihor Homenyuk esteve num Serviço de Urgência e teve alta sem lhe terem diagnosticado Abstinência. Essas “crises epilépticas não se tratam com antiepilépticos, mas com sedativos para a abstinência. Uma abstinência alcoólica não tratada pode, só por si, levar à morte, mas a contenção “sem mais nada”, agrava a evolução, porque a agitação associada ao grande esforço muscular para se libertar, é equivalente ao que aconteceu aos recrutas Dylan da Silva e Hugo Abreu em 2016 – um grande esforço associado a desidratação, leva a alterações metabólicas graves com falência multi-orgânica.

    Eu não quero crer que o pessoal do SEF o tenha agredido. Acredito que não soube lidar com um indivíduo agitado e que o manteve imobilizado “demasiado tempo” na esperança infundada de “ele acalmar”.

    Os médicos chamados a dar opinião, não o fizeram dentro da “melhor arte”, talvez por não terem acesso a informação suficiente.
    1: quem o observou no SU, não diagnosticou Abstinência Alcoólica e deu-lhe alta.
    2: o médico do INEM, encontrou-o em “paragem cardio-respiratória”, isto é – morto. Não é dito o que escreveu na Certidão de Óbito.
    3: o médico de Medicina Legal escreveu que as lesões que causaram a morte foram causadas por “agressão”, não especificando se desencadeadas por “auto-agressão” ou por manobras de contenção demasiado prolongadas.

    Ihor Homenyuk pode ter caído, ter batido com a cabeça em qualquer lado com sequentes lesões cerebrais, pode ter fracturado costelas ou outros ossos nessas quedas, pode apresentar múltiplas equimoses sem que elas signifiquem violência intencional, mas decorrentes das quedas ou das manobras de contenção, e pode ter falecido em consequência dessas lesões ou das alterações metabólicas que referi.

    Parece-me imprudente que o Presidente da República, Ministros e Líderes Partidários (da Esquerda à Direita), venham a terreiro falar em “HOMICÍDIO”, antes das alegações da Defesa e de um Juiz se pronunciar, como que a arranjar um “bode expiatório” para acalmar a população.

    Eu não isento de culpas os elementos do SEF presentes nos dias dos factos. Era sua obrigação ter assumido que aquele nível de contenção não se devia prolongar e ter tido o discernimento de contactar uma chefia mais esclarecida ou referenciá-lo a um hospital.

    Recuso a teoria do “mataram-no à pancada!” Era mau demais!”

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