Os lisboetas não conhecem a sua cidade. Os lisboetas falam do que não sabem quando se referem a Lisboa. Muitos lisboetas nunca foram à grande maioria dos bairros de Lisboa. Muitos lisboetas nunca subiram ao castelo de São Jorge, ao miradouro da Senhora do Monte, ao Alto de Santo Amaro, a São Pedro de Alcântara, Santa Catarina, ao Largo das Necessidades ou à Tapada da Ajuda. Muitos lisboetas nunca entraram no antigo convento da Madre de Deus, na Igreja de São Roque. Muitos lisboetas não puseram sequer um pé na Torre de Belém ou contemplaram a beleza incomparável dos claustros dos Jerónimos. Dizem mal de Lisboa. Sem a conhecerem. Vão sempre aos mesmos sítios, ver as mesmas fachadas. Jamais lhes passou pela cabeça fazerem de turistas na sua própria cidade, deambulando por ruas e pátios de máquina fotográfica na mão, espreitando o Tejo ao virar de cada esquina. Os lisboetas detestam andar a pé. Acham que isso é próprio de classes inferiores e que é até capaz de fazer mal à saúde. Padecem da ‘síndrome de viúva de militar’, como já alguém lhe chamou. Metem-se em casa. Refugiam-se atrás de persianas, cortinas, reposteiros, marquises. Tudo quanto lhes vede o acesso à rua, à cidade, ao mundo. E só conhecem Lisboa de a ver na televisão.
Texto reeditado


Já vem de longe,muito longe …
…” Para reconhecer palpavelmente esta verdade basta atentar um momento no aspecto físico dos habitantes de Lisboa. Nas ruas, nos passeios, nos teatros, nos bailes, os marujos e os oficiais das esquadras estrangeiras, não importa de que procedência, ingleses, franceses, suecos, alemães os comis-vooyageurs, os diplomatas, os” touristes”, os viajantes de todas as nacionalidades, homens e mulheres, sobressaem dentre a multidão pálida, mesquinha, débil e triste, como violentas manchas postas na massa triste e geral pela força, pela saúde, pela actividade e pela alegria…”
Ramalho Ortigão / As Farpas — 1874
Bem oportuna, essa citação do grande Ramalho, meu caro.
Ramalho será tudo menos grande.
Ah, pois claro. Apenas o co-autor dessa ninharia literária que são as ‘Farpas’. Dele disse Eça que “estudou e pintou o seu país na alma e no corpo”. Mas Eça, coitado, não tinha categoria para emitir juízos literários.
Eça era generoso no juízo que fazia dos seus amigos. De resto, Ramalho foi um muito digno representante do brilhante cosmopolitismo e eruditismo com que ele e amigos tentaram (e falharam) corrigir o atraso português. Mas grande? Se lhe chamamos grande a ele que adjectivos e graus dos ditos usamos para Eça ou Camilo?
As opiniões divergem – nada mais natural. Como não ignora, não falta ainda hoje quem considere Camilo um autor ‘menor’ e Eça pouco menos que um cretino. Quanto a Ramalho, quanto a mim, bastariam ‘As Praias de Portugal’ para justificarem uma visita à sua obra, sem necessidade, naturalmente, de voltar a mencionar as ‘Farpas’, esse monumento à literatura polémica, infelizmente sem seguidores à altura na hora actual. Há uma obra de Ramalho de que gosto particularmente – as suas ‘Últimas Farpas’, testemunho parcial mas genuíno de um dos período mais atribulados da nossa História dos últimos cem anos.
Concordo plenamente. Eu não sou muito patriota mas costumo dizer que sou lisboeta com orgulho. Ainda ontem apanhei o eléctrico (o 25) no terreiro do Paço e pensei que era um privilégio estar a fazer aquela viagem. E quem se senta e vê os edíficios, as lojas, e “sente” de facto a cidade, percebe que Lisboa é das melhores coisas que Portugal tem para oferecer.
Sem qualquer dúvida, Daniela. Acontece-me isso sempre que entro na ponte, vindo da Margem Sul, e contemplo o incomparável panorama de Lisboa, emoldurada pelo Tejo, sempre como se fosse a primeira vez: é um privilégio desfrutarmos de um panorama destes. Lisboa é uma cidade que apetece percorrer demoradamente a pé. Tento fazê-lo sempre que possível.
Sou de Lisboa, adoro Lisboa e tenho muita pena que estes semi desabitada e semi em ruínas. 🙁
Também eu. Todos os dias lamento isso. E de que maneira.
Digo:
«Ljsboa»
Quando atravesso — vinda do sul — o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas —
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
— Digo para ver
Sophia de Mello Breyner
Tão a propósito, esse belo poema… Obrigado, Isabel (é um gosto voltar a vê-la por cá).
Obrigada;-)
Só lamento ter feito copy paste e não ter corrigido os erros: Lisboa e não Ljsboa, claro, e, sobretudo “abre-se como se do SEU nome nascesse” e não “meu”.
Cá o ilhéu enquanto foi estudante de Lisboa conheceu todos os locais mencionados e quando vai à capital tenta sempre para aproveitar para sucessivamente revisitar os mesmos e descobrir alguns nichos novos… por acaso deixou os museus, teatros e salas de concerto de fora…
Não admira, Carlos. Lisboa é apreciada sobretudo pelos não-lisboetas. Ninguém é profeta na sua terra…
No resto do país há muito quem diga mal de lisboa, sem nunca lá ter estado. Em suma, Portugal é um lugar de muito mal-dizer e de muita inveja. É uma pena, como você constata.
Cump.,
A.F.
Pior do que dizer mal de Lisboa sem nunca cá ter estado é dizer mal de Lisboa depois de cá ter vindo.
Cumprimentos, meu caro.
Prezado Pedro Correia
O texto refere uma determinada Lisboa. Mas nao a Lisboa das pessoas. Tenho receio que o autor do texto nao conheca Lisboa, porque minimiza os seus habitantes. Confesso desde ja que tambem nao (re)conheco a Lisboa de hoje.
Perdoe-me a imodéstia, meu caro, mas conheço muito bem Lisboa. As diversas faces de Lisboa.
Prezado Pedro Correia,
Comentei apenas um texto. Apenas referencei um “receio”. Nao e imodestia dizer que conhece bem Lisboa. E, alias, motivo de orgulho.
A “minha” Lisboa parou no tempo. Foi a Lisboa dos ardinas a descer a Rua da Rosa, dos Mercados do Saldanha, do Campo Grande e da Ribeira, das esplanadas do Parque Eduardo VII, do Campo Grande. dos bairros construidos para as pessoas (con)viverem como a Encarnacao, os Olivais, ou Alcantara. Velhice, saudosismo? Tudo isso. Mas esta era a Lisboa de que gostava!
Nem imagina o fascínio que sinto por essa Lisboa que não cheguei a conhecer. E procuro recolher o máximo de informação sobre essa Lisboa ‘de outras eras’, que devíamos ver muito mais em filmes e séries televisivas.
Prezado Pedro Correia,
Falo-lhe de uma Lisboa nao muito longinqua no tempo. Falo-lhe de uma Lisboa mais humana. De um projecto que e preciso reactivar. Nao e necessario ir a museus ou ver filmes de reprise para encontrar esta Lisboa. Outars cidades tambem se modernizaram, mas mantiveram o seu caracter humano. E o caso de Bruxelas por exemplo, onde o pequeno comercio convive com os grandes centros comerciais em condicoes de igualdade. Outros exemplos tambem havera
Essa Lisboa mais humana, felizmente, ainda pode ser encontrada nos nossos dias. Na Madragoa, na Praça das Flores, na Graça e no bairro de Alvalade, por exemplo.
Concordo consigo, mas insisto que a “humanizacao” da cidade e um objectivo que tem de ser re-alinhado. Os exemplos que me da reflectem ja alguns sinais de degradacao. E certo que o Bairro de Alvalade esta a ser muito procurado pela juventude. Mas ja viu como esta o comercio local na Av. da Igreja, na Joao XXI, na Morais Soares? Que projecto tem a CML para dinamizar o comercio local
Já vi, de facto, como está o comércio em bairros que conheço bem como Alvalade e Campo de Ourique. Mas isso relaciona-se, ao que julgo, com algo mais vasto do que a política camarária.
É verdade. Não que seja uma situação unicamente de Lisboa pois em todas as grandes cidades isso acontece com uma grande parte dos respectivos cidadãos.
De todos os locais referidos somente não conheço o convento da M.Deus.
Nada que não possa ser rectificado!
Cumprimentos!
Vamos sempre a tempo. E podia ter mencionado muitos outros locais – dos jardins da Gulbenkian ao Museu de Arte Antiga, do jardim do Tourel ao Largo de São Miguel, em Alcântara. Da basílica da Estrela ao magnífico claustro da Sé de Lisboa.
Caro Pedro Correia, com Portugal é o mesmo. Os
pais não levam as crianças para conhecerem. Lembro-me de visitar Alcobaça, Batalha, em viagens informais, mas em que aproveitavam para nos falar da história e chamavam a atenção para o grande vão da sala do capítulo da Batalha , para a beza dos túmulos de D. Pedro e D. Inês. A janela do convento de Cristo, cheias coisas por descobrir. Lembro de ser peqeno e, inesperadamente, me perguntarm se queria ir ao Convento do Carmo e falarem-me do terramoto, de D. Nuno, etc . Não eram coisas “estruturadas”, mas ia-se conhecendo e despertando para as coisas.
É verdade. Ainda recentemente estive na Batalha. À minha volta, muita gente. Mas praticamente só turistas (espanhóis, na larga maioria). Sucedeu-me o mesmo pouco antes, ao revisitar o fabuloso Convento de Cristo, em Tomar, uma das quatro ou cinco maiores jóias do nosso património arquitectónico. E o pior não é só o desprezo que votamos ao nosso património construído, cultural: o pior é que fazemos o mesmo ao nosso património natural. Serras, florestas, rios e praias.
No resto do país há muito quem diga mal de lisboa, sem nunca lá ter estado. Em suma, Portugal é um lugar de muito mal-dizer e de muita inveja. É uma pena, como você constata.
Cump.,
A.F.
Essa é uma realidade inquestionável. Não por acaso, Camões encerra ‘Os Lusíadas’ com a palavra “inveja”.
Infelizmente, é verdade.
“Refugiam-se atrás de persianas, cortinas, reposteiros, marquises. ” muita luz e herança árabe? Não precisamos de janelas rasgadas e abertas para termos a luz necessária. Por outro lado, não esqueça que no séc. XVIII as senhoras da alta aristocracia sentavam-se em esteiras, no chão. No tempo dos fauteils e das bergéres Louis XV…
Acho espantoso que só a lei de restrição do consumo do tabaco em espaços fechados (uma excelente medida do governo Sócrates) tenha empurrado os lisboetas para ruas, praças, pátios e travessas, fazendo multiplicar as esplanadas. A capital europeia com melhor clima preferia – e ainda prefere, em grande parte – arrastar a chinela em centros comerciais, faça chuva ou faça sol.
Eu, alentejano, me confesso amante de Lisboa. Seria, aliás, a primeira cidade pela qual trocaria o meu Alentejo.
E irrita-me solenemente esse hábito tão lusitano de maldizer a nossa capital. Apreciem-na com olhos de ver, sintam a sua pulsação, pois é uma das cidades mais bonitas do mundo!
Na minha opinião, Lisboa é uma das cidades mais bonitas da Europa (e, por extensão, do Mundo). Sou relativamente viajado. Conheço muitas pessoas viajadas; todas elas concordam com essa ideia. Contudo não é apenas Lisboa; Portugal é um lugar deveras especial, cheio de pequenos recantos e encantos, seja na Margem Sul, a caminho da Costa Vicentina, seja no Minho, entre Caminha e o Gerês. Como um escritor brasileiro famoso uma vez escreveu “é um Brasil em ponto pequeno”, onde não é preciso percorrer grandes distâncias, para a paisagem mudar significativamente. Quanto a Lisboa, embora não a conheça tão bem como os Lisboetas (ou alguns Lisboetas, pelo menos), sempre fiz um esforço para a visitar, e levar a família e amigos a percorrer as suas ruas a pé. Conheço a maior parte dos lugares citados por Pedro Correira, mas sinto que ainda não tive tempo para conhecer Lisboa verdadeiramente. Há coisas no entanto que não passam despercebidas, mesmo ao transeunte de passagem, o “paraíso claro e triste”, como Saint-Exupéry achava. Vejo também Lisboa como um género de portal para lugares mágicos, a Margem Sul que atrás mencionei, ou Sintra, por exemplo. Neste sentido, é sem dúvida a cidade mais bem aconchegada, mais até que o Porto.
É a mãe-solteira e princesa da música de Sérgio Godinho, “Lisboa que amanhece”.
O que mais lamento, André, é ver vários lisboetas dizerem mal da sua própria cidade sem verdadeiramente a conhecerem. Como digo no texto, há pessoas que sempre viveram em Lisboa e nunca visitaram a Torre de Belém ou o Padrão dos Descobrimentos ou sequer o Castelo de Sao Jorge. Mas conhecem de cor todos os cantos do Colombo ou do Corte Inglés.
Não nasci em Lisboa. Não sou de lá. Mas quando me perguntam de onde sou, penso e respondo que venho de Lisboa, a minha terra adoptiva.
O amor por Lisboa só chega depois de descobrirmos a luz única daquela cidade. E isso só se consegue palmilhando os recantos, também de sombra. Os Lisboetas não conhecem a sua cidade, tal como a maior parte dos filhos não conhecem realmente os pais. Mas os adoptivos, como eu não têm outra escolha.
Eu nasci em Lisboa por acaso. Mas só vivi em Lisboa a partir dos 35 anos. Sinto-a também como minha terra adoptiva. Talvez por isso a tenha descoberto da forma como diz, Cristina: ‘os adoptivos não têm outra escolha’.
Adorei a análise!
Acho que já contei isto aqui mas conto outra vez: Um dia, em Florença, naquela hora em que a cidade fica toda dourada e nos faz quase perder o ar, perguntei a uma amiga de lá como era viver rodeada de toda aquela beleza numa das cidades mais bonitas do mundo. Ela olhou para mim com um ar espantado e respondeu isto: “Devias saber… vives em Lisboa!”. E tinha toda a razão. Lisboa é uma cidade lindíssima, onde nasci e que conheço muito bem, apesar de não ter vivido lá muitos anos. E tem ainda – apesar de todos os atropelos e vandalismos – imenso charme.
Essa frase dita em Florença diz tudo quanto precisamos de saber sobre Lisboa, Ana.
Olá.
Como Lisboeta começo logo a concordar e a discordar também! 🙂
Pessoalmente, adoro, AMO andar a pé. Coisa que faço cada vez que vou a algum lado. E pela quantidade de ciclistas que agora vejo, julgo que não podem dizer que o lisboeta é comodista e adeptos do transporte fácil. Também há muita gente que prefere autocarro e metro. Há de tudo, não se pode ser redutor nem parcial.
Mais do que viver nos lugares, há que vivenciá-los. E como quase sempre acontece nas cidades onde vivemos – nas grandes pelo menos – são as que menos se conhecem. Porque estamos presos às rotinas e também porque estas nos impõem um ritmo que nos suga energia. Por esta razão é que conhecemos melhor outras cidades que não a nossa. Porque estamos de visita como turistas.
Quanto a conhecer a cidade, sempre soube que não conheço Lisboa como ela merece: centímetro a centímetro, ambientes, museus, tudo o que tem. Já estive em todos os lugares que mencionas e outros tantos de que nem falas, como as galerias romanas subterrâneas onde entrei após 5h de espera numa fila cheia de lisboetas (mas não só) que abdicaram de uma tarde invernosa para irem passear e conhecer este lado «escondido» da cidade de Lisboa. Fiquei atrás de um grupo de adolescentes que vinham equipados com as ofertas da organização da prova de travessia por maratona à ponte Vasco da Gama, ocorrida nessa manhã.
Só por este exemplo, acho que quase tudo o que o texto diz cai por terra!!
Por tudo o que relatei, discordo totalmente com o parágrafo final deste texto. 🙂