Ontem os eurodeputados Marinho e Pinto (PDR), Miguel Viegas, João Pimenta Lopes, João Ferreira (PCP) e Marisa Matias (BE) deram respaldo ao regime de Maduro no Parlamento Europeu. A sensação de vergonha alheia é inevitável. Vergonha e assombro foram também as reacções normais e decentes à inauguração da praça Hugo Chávez, na Amadora, em 2016.
Mas hoje a decência foi atirada violentamente pela janela fora. O voto de pesar e condenação pela morte de manifestantes na Venezuela recebeu o voto favorável de todos os partidos com assento parlamentar, com a excepção do Bloco, PCP e PEV. Perante isto, a sensação que se impõe é de asco profundo. Tratava-se tão somente de expressar tristeza e de condenar a morte de pessoas que exerciam o seu direito de manifestação e de liberdade de expressão.
Em Portugal há quem diga – sem se rir – que não há extrema-esquerda no nosso país.
[ADENDA]: parece que o facto de o voto de pesar reconhecer a legitimidade de Juan Guaidó constituiu um agravo inaceitável para PCP, PEV e BE. Portanto, a condenação da morte de manifestantes subordina-se a apreciações sobre o apoio a este ou aquele político. Contudo, não é preciso especular sobre o que faria a extrema-esquerda se o reconhecimento de Guaidó não constasse do voto: o PS apresentou um voto onde tal reconhecimento não existia e, ainda assim, PCP e PEV votaram contra e o BE absteve-se.

Canalhas – e canalhas venais…
JSP
Não gosto desse termo no debate político. Mas, tendo em conta o caso em apreço, não sou capaz de propor um que seja mais adequado.
Muito bem. Canalhas são sempre os outros. Nunca nós.
Urgh!
E não merecem mais do que isso.
Um nojo, sim.
Para ti, para mim e para mais uns poucos, pelo que vejo.
ainda assim poucos …
Discordo da comparação das manifestações aquando da nomeação de uma praça e de um voto de pesar no PE.
Sobre a primeira, é com os munícipes – também me causa asco o nome de algumas outras praças e ruas por este país fora, mas não sendo estruturas nacionais, cabe aos locais nomearem como entenderem. Faz parte da Democracia que temos.
Quanto ao voto de pesar, não se tratava “tão somente de expressar tristeza e de condenar a morte de pessoas”, como tenta dar a entender Diogo Noivo.
Era, é, muito mais do que isso:
“Assim, a Assembleia da República, reunida em Plenário, exprime o seu Pesar pela Morte de Manifestantes na Venezuela e apela a uma resolução pacífica que salvaguarde a segurança da grande comunidade portuguesa e lusodescendente na Venezuela, que respeite e reconheça o mandato democrático da Assembleia Nacional e do seu Presidente Juan Guaidó e que reponha a normalidade democrática através da realização de eleições livres na Venezuela”
http://app.parlamento.pt/webutils/d ocs/doc.pdf?path=6148523063446f764c32467 9626d56304c334e706447567a4c31684a53556c4 d5a5763765247396a6457316c626e52766330466 a64476c32615752685a47565159584a735957316 c626e5268636938345a4468684d4749795979303 14d5467774c545133595467744f544a6a4f53307 74d3249304f475131596d5a6c4e4751755a47396 a65413d3d&fich=8d8a0b2c-5180-47a8-92c9-03b48d5bfe4 d.docx&Inline=true
Na verdade, assemelha-se mesmo a demagogia barata, usar os mortos para sub-repticiamente legitimar quem entendem dever legitimar. Parece não haver ninguém no Parlamento que não saiba lamentar mortos sem fazer jogo político.
E depois há quem venha para a rua apupar “porque era somente”. Lamentável, tudo.
Duas notas.
1. Diz que se usaram os mortos para tentar o reconhecimento de um mandato. Eu digo que se usou a oposição ao reconhecimento desse mandato para ocultar as flagrantes e grotescas violações dos direitos humanos na Venezuela.
2. Interpretações à parte, o voto do PS não reconhecia Guaidó. Ainda assim, PCP e PEV votaram contra e o BE absteve-se.
Merecem ser apupados. E muito.
2. O Voto do PS não reconhecia Guaidó?
“Neste contexto de instabilidade, ao qual se acrescenta a grave crise social e económica do país que se arrasta há anos, é fundamental que a resolução do conflito político se faça pela via democrática, num processo pacífico e sem ingerências. Esta é a via à qual a União Europeia e Portugal têm apelado. Os países da UE reiteraram o não reconhecimento das eleições presidenciais de maio como livres e justas, confirmaram a sua confiança na legitimidade da Assembleia Nacional e apelaram à rápida convocação de eleições que reponham legitimidade democrática e estabilidade política ao país.”
http://app.parlamento.pt/webutils/d ocs/doc.pdf?path=6148523063446f764c32467 9626d56304c334e706447567a4c31684a53556c4 d5a5763765247396a6457316c626e52766330466 a64476c32615752685a47565159584a735957316 c626e52686369396b4f4463315a47526b4f53307 8597a6b354c545131596a41744f446b344d69316 c5a6a45785a446731597a56684d7a63755a47396 a65413d3d&fich=d875ddd9-1c99-45b0-8982-ef11d85c5a3 7.docx&Inline=true
Reconhecia as eleições presidenciais como injustas e não livres, e proclamava a legitimidade da Assembleia Nacional, portanto, do seu presidente… Juan Guaidó.
Mais uma vez, a demagogia, o repúdio das eleições escondido no meio dos mortos
E há quem venha para a rua apupar e validar as omissões.
Por mim, apupo o “Voto nº 723/XIII De condenação da nova operação golpista e da campanha de desestabilização e de agressão contra a Venezuela que atinge o seu povo e a comunidade portuguesa neste país”, apupo os votos de pesar que na verdade o não são, apupo a UE por ter entrado em ultimatos em vez de se posicionar como mediador.
Todos os acima merecem ser apupados. E muito.
1. Concordo que haverá muita simpatia partidária em qualquer das manifestações pró ou contra os votos. Mas analiso cada um dos votos. Não são pesar pelos mortos. E é isso que está em causa, querer passá-los como tal.
Sarin, quando um voto é apresentado em plenário submetem-se a aprovação ou a chumbo os pontos operativos, no caso “condena”, “manifesta” e “acompanha”. O resto são considerandos. Por outro lado, a legitimidade democrática da Assembleia Nacional é inquestionável (julgo que nem o PCP, PEV e BE a põem em causa – o que recusam é que Guaidó assuma a Presidência Interina). Logo, nada impedia os partidos à esquerda do PS de o aprovar.
Quanto ao resto, caso sejamos moderadamente democratas e defendamos um módico de lisura na condução de actos eleitorais, há um conjunto de aspectos que são inegáveis. Primeiro, existe um conflito e a solução para o mesmo deverá ser democrática. Segundo, há pessoas a serem detidas, agredidas e assassinadas pelo simples exercício da sua liberdade de expressão. Terceiro, Nicolás Maduro não tem um mandato legitimado por eleições livres, transparentes e em concordância com o estipulado pela Constituição da Venezuela. Quarto, nos termos dessa mesma Constituição, em caso de sede vacante na Chefia do Estado esta é exercida pelo Presidente da Assembleia Nacional. Também por isto PCP, PEV e BE devem ser apupados com vigor.
Diogo, se apenas se votassem os pontos operativos não seria necessário, sequer, fazer o seu enquadramento. Portanto, votam-se os pontos operativos e vota-se todo o texto – recordo-me de alguns regulamentos europeus que exigiram mais cuidado nos preâmbulos do que no regulado, os quais foram chumbados porque os preâmbulos, que nada regulam, não agradariam a alguns países.
Concordo com um Pesar pelos mortos que não teça considerandos políticos mas sim humanitários, que é isso que um pesar por mortos deve conter.
Repudio qualquer apoio a Maduro, mas também repudio toda a ingerência que os EUA e a Rússia têm tentado. Acho que a UE deveria ter-se imposto como mediadora entre ambas as facções, que neste momento não se limitam já, se é que algumas vez se limitaram, a Maduro e Guaidó, PR vs AN, mas a dois antigos blocos políticos mundiais que neste momento se reforçam.
Pontos primeiro e segundo, plenamente de acordo. Ponto terceiro, sendo este o busílis que opõe Rússia e China aos EUA em pleno CS da ONU dado haver petróleo envolvido, não será com afirmação absoluta da legitimidade ou ilegitimidade que se ultrapassará a situação – por este motivo, o ponto quarto não será aqui invocável.
Relembro ainda que tanto a UE como a ONU rejeitaram acompanhar as eleições de Maio. Portanto, Diogo, não alinho com nenhuma das posições, e reitero que a UE teve aqui uma porta para conduzir o conflito a uma solução transparente e democrática. Rejeitou-a em maio, rejeitou-a agora.
Concordo que o BE e o PCP e o PEV devem ser apupados por apoiarem Maduro, como diz agora – não por terem votado contra o texto dos votos de pesar. E acrescento que o PS, o PSD e o CDS devem ser apupados por quererem fazer política à custa dos mortos, usando os Direitos Humanos como moeda de troca.
Li hoje no Expresso que alguns donos de hoteis irão provavelmente contestar uma lei que os desfavorece porque, dizem eles, o preâmbulo dessa lei mostra que o objeto dela não seria realmente afetar os hoteis.
Ou seja, os preâmbulos das leis têm valor real. Não é somente o articulado. Da mesma forma, os preâmbulos dos votos de pesar também têm valor e fazem parte integrante desses votos.
Acho que Marinho Pinto votou bem.
Não se tem nada que reconhecer como Presidente um indivíduo que, efetivamente, não detem o poder. Goste-se ou não se goste de Maduro (eu não gosto), é ele quem detem o poder efetivo, e como tal deve ser reconhecido.
parece que o facto de o voto de pesar reconhecer a legitimidade de Juan Guaidó constituiu um agravo inaceitável
Naturalmente que constitui. Para mim também constituiria.
Esta mania de misturar votos de pesar perfeitamente corretos com tomadas de posição políticas altamente dúbias é totalmente de rejeitar.
Se uma enormidade deste calibre não nos faz luz acendam-se velas, cigarros e candeeiros a gasóleo.
Cegueira ideológica é impermeável a qualquer luz.
Desculpem-me o enviesado “desabafo” mas, sempre que leio , com prazer e proveito, os doutos considerandos do ainda mais douto L.Lavoura “vem-me à ideia”, vá lá saber-se porquê, a inefável expressão “idiota (in) útil”, de tão saudosa memória…
Com os cpmts. que se impõem,
JSP
Servem para uma nova rubrica que o Pedro Correia inaugurará: a lavourada da semana. Cumprimentos retribuídos.
O comentador Lavoura, desde que sabe da existência da nova rubrica, desdobra-se em múltiplos comentários, acabando por tropeçar nele próprio.
Oxalá não fracture o nariz.
Acutilante texto e um excelente reparo…não há pachorra com esta malta do Avante
Tive muita pachorra e cheguei mesmo a defender alguns dos méritos dessa “malta” – faço o mea culpa. Mas nos últimos anos é cada vez mais difícil ver mérito ou benevolência na agremiação da foice e do martelo.
Talvez os que não votaram favoravelmente seja os correctos pois hoje temos muita hipocrisia, aparências e manobras de diversão para desviar a atenção de certas coisas.
Neste país há preocupação com os dos outros países mas não com os nossos. E este país “quase perfeito” tem por exemplo sem abrigo e violação de direitos humanos.
Se o que aconteceu na Venezuela acontecesse cá, o mais certo era não sabermos, muito grave!
O mundo está longe de ser perfeito!
Vamos deixar-nos de coisas: os camaradas comunistas bolivarianos que aqui vêm comentar (apesar de um se dizer amiúde liberal) e que muito se abespinham com tomadas de posição política na Assembleia da República – os ilustres comentadores julgam que a AR é o quê? uma agência funerária, com cartões de pêsames para vender e distribuir? – nada dizem quanto ao voto sufragado pelo partido ecologista os Verdes? Que reduz a situação naquele país a “condenação da nova operação golpista e da campanha de desestabilização e de agressão contra a Venezuela que atinge o seu povo e a comunidade portuguesa neste país””? O postal não é meu, não escreverei palavrões. Mas saibam os comentadores camaradas comunistas que lhes estou a enviar a pior série de palavrões que me lembro (em paridade de género, que sou moderno), vis cúmplices que são.
Tem toda a razão, jpt. Ver apenas para um lado é muito triste.
Sobre votos de pesar por mortos, discordo absolutamente de si: a AR não é agência funerária, mas os mortos não merecem serem usados como testas-de-ferro para posições políticas disfarçadas de pêsames.
merecem ser
Para o PCP o Guaido não é legítimo.
Mas as FARC são.
Cada um sabe de si.
Caro Anonimus:
Há quem veja exactamente ao contrário. Quem detém a verdade? Você ou os outros?
Eu, ao contrário do PCP, não digo “a verdade”.
Cada um interpreta as opções do outro, eu tenho prioridades e valores, o PCP tem outros.
O nojo é totalitário no parlamento.
De quem não lamenta as mortes e de quem as usa, sobre o manto do pesar, para forçar posições políticas.
“Em Portugal há quem diga – sem se rir – que não há extrema-esquerda no nosso país.”
Durante os últimos 10 anos, extrema-esquerda foi expressão censurada no jornalismo.
Só agora com a recente violência de Esquerda fomentada pelo Bloco parecem ter acordado os auto-denominados “democratas” …