Os inocentes


escafandro,

Ricardo Salgado usou a táctica do costume: nada aconteceu em resultado das suas acções e tudo se teria resolvido se outras entidades (Banco de Portugal e governo) não lhe tivessem tirado o tapete (o primeiro exigindo a constituição de provisões para as «imparidades» e a saída da família das posições de controlo; o segundo recusando emprestar-lhe uns milhares de milhões de euros). Lembrou-me outros casos. O BPN. O BPP. O BCP. A PT. O PEC IV (ou o processo que a ele conduziu). E, na verdade, também o comportamento de muita gente anónima após acidentes de automóvel mas não vale a pena misturar universos; fiquemos pela «elite» do país. Caso após caso, nunca ninguém assume responsabilidades pela trampa produzida porque, obviamente, não aceita tê-la produzido. Caso após caso, tudo sucedeu em resultado de uma alteração abrupta de circunstâncias («o mundo mudou muito nos últimos quinze dias») e/ou de actos ilícitos de uma personagem menor (no caso do GES, o contabilista da parte não financeira). Mais importante: a solução existia, estava mesmo ali, preparadinha, reluzente, como um presente de Natal cuja abertura despoleta a exclamação sincera: «Uau, era mesmo isto!», e só não foi implementada porque alguém, por incompetência ou interesse, não deixou.

Enfim. Ricardo Salgado tem pelo menos uma vantagem sobre a maioria dos outros banqueiros envolvidos em casos de gestão ruinosa e em particular sobre Sócrates: parece menos arrogante e é incomensuravelmente menos histriónico. Para quem dispensa exibições alarves de testosterona (há um número significativo de criaturas a quem elas causam afogueamento e pernas bambas), sempre vale alguma coisa. De resto, a trampa é a mesma.

21 comentários em “Os inocentes”

  1. Para um leigo observador apenas um contraponto entre políticos e demais cidadãos. José Sócrates em queda, dispõe de uma alargada corte de defensores. Para Ricardo Salgado caído em desgraça, ninguém se levanta em sua defesa, e tantos foram os que o endeusaram quando lhe pediam esmola. Nunca tantos se acobardaram tanto por um e por outro, ao quartilho ou em meia canada.

  2. O dia de hoje calhou muito bem ao PSD (não por acaso o papel bastante vivaz dos seus deputados nos trabalhos de hoje e o papel discreto dos deputados da oposição) e com toda a justiça. O papel de isenção e distância do Governo e de Passos Coelho transpareceu ao longo de todo o dia nos dois interlocutores (até antagónicos) perante a Comissão. Creio até que se pode dizer que hoje Passos Coelho pode ter ganho as próximas eleições. Ninguém me paga para dizer isto e não sou do PSD: é uma opinião honesta minha.

    1. Concordo que o governo esteve bem neste caso mas acho que é pouco para que o PSD ganhe as eleições. Posso estar a ser pessimista mas não creio que na análise que a maioria das pessoas faz da actuação de um governo estas questões estejam no topo da lista – ainda que, a prazo, sejam das mais importantes.

      1. Sem dúvida. Não é nada que se veja imediatamente e cortar pensões e ordenados tem sempre uma aura (real) de maldade. Mas no fundo é exactamente o que Portugal precisa porque sempre foi essa a maior queixa da maior parte das pessoas — a falta de transparência, as intromissões, as negociatas, etc. Sempre foi esse o “mal nacional”. E essa distância efectiva é mais importante tanto quanto é diferente do estilo de “isenção” socialista que promove umas entidades reguladoras para as quais normalmente há depois uma guerra de cadeiras e jogos de bastidores para assegurar o controle das coisas das quais se pretende estar separado. É a essa torpeza — a essa maneira de estar — que é necessário pôr um fim.

    2. Para acreditar que o governo esteve bem neste caso do BES (e estar bem não é não fazer tudo mau) é preciso ser um daqueles tontos que acreditaram na mantra “o BES é bom o GES é mau”. Mantra essa que foi lançada por uma serie de mentirosos que estavam fartos de saber as dificuldades do banco.

  3. E acrescento também que o Parlamento sai hoje com nota positiva, ao contrário do que é costume. E a deputada do Bloco joga com bastante nível, ao contrário do que é costume nos seus comparsas. O Bloco não queria um líder?

    1. Pode não acreditar mas ainda comecei uma adenda referindo o estilo directo e conciso de Mariana Mortágua (uma bênção quando comparado com os circunlóquios que muitos políticos gozam de fazer, mesmo quando têm tempo limitado). Optei por não a incluir apenas porque não assisti a todas as intervenções (entre rádio e TV, terei acompanhado cerca de dois terços) e porque me pareceu enfraquecer o final do texto – uma referência a trampa é sempre uma boa forma de terminar em grande. 🙂

    2. Em quase todas as intervenções que tenho visto da Mariana Mortágua, ela exibe de facto um nível – não só de maneiras mas também intelectual – completamente à parte do restante da classe política portuguesa.
      Infelizmente, creio que o Bloco não está agora interessado num líder com nível.

  4. em pelo menos uma vantagem sobre a maioria dos outros banqueiros envolvidos em casos de gestão ruinosa e em particular sobre Sócrates: parece menos arrogante

    É curiosa esta comparação, que não vinha nada ao assunto, com Sócrates.

    Ainda estou para perceber o ódio irracional e injustificado que tanta gente devota a Sócrates. Ainda não percebi bem se a origem profunda e irracional desse ódio é a arrogância do homem se o despeito pela forma como ele se licenciou.

    1. No que me diz respeito, a licenciatura dele é apenas a cereja no topo do bolo. Não votei nele mas comecei por lhe dar o benefício da dúvida (lembrava-o como teimoso enquanto membro do governo de Guterres mas, num governo de gente tão indecisa, isso era quase qualidade). Muito antes do caso da licenciatura, já estava desiludido. Muitas das guerras que comprou eram fogo de vista – as férias judiciais, por exemplo – e outras revelavam (no mínimo) verdadeira e pouco saudável teimosia (a questão do aeroporto, por exemplo). Depois o caso da licenciatura mostrou que tinha uma vaidade que não se compadecia com as regras. E ainda depois começaram os ‘casos’ e a teimosia transformou-se em paranóia e manobras para afastar os críticos (o caso TVI, por exemplo) e depois houve 2009 e as políticas despesistas e sempre a recusa em enfrentar as críticas que, a dada altura, era óbvio que estavam certas, etc, etc. É tudo isto que me faz classificar Sócrates como arrogante – e autoritário e paranóico e histriónico e, provavelmente, corrupto.

      Já a arrogância de Ricardo Salgado é ligeiramente diferente – vindo de ‘berço de ouro’, não tem a componente de sentimento de inferioridade que Sócrates revela. É mais como se tivesse direitos adquiridos que não lhe deviam ser retirados.

      1. que me faz classificar Sócrates como arrogante – e autoritário e paranóico e histriónico e, provavelmente, corrupto

        “Arrogante”, “autoritário”, “paranoico” e “histriónico” são tudo defeitos de caráter. Dificilmente são razão para se odiar um político como político.

        “Corrupto” é diferente. É um defeito do político. Mas não há quaisquer provas de que Sócrates seja corrupto. Quem o corrompeu? E corrompeu-o para quê? Ninguém sabe.

        Como primeiro-ministro, Sócrates foi muito melhor do que, por exemplo, Durão Barroso – que esteve lá dois anos sem fazer absolutamente nada. Por que é que ninguém odeia Barroso?

    2. Eu odeio-o pelas casas que desenhou na Guarda e pelo Acordo Ortográfico — razões mais do que suficientes para odiar alguém. Aliás, só uma delas bastaria.

  5. Jaa
    Garanto-te que não foi por masoquismo que assisti a tudo o que a tv difundiu ontem sobre o assunto. Foi esperança de compreender mais e melhor.
    Por isso, não posso deixar de referir que, do meu ponto de vista, as intervenções mais apelativas foram femininas: Mariana Mortágua e Cecília Meireles.
    Alguma vez havia de ser e, pelos vistos, parece que nos deveremos ir habituando…

    1. Helena,

      Estou completamente de acordo. As mulheres ainda vão ser donas disto tudo. 🙂

      Quanto a Cecília Meireles, nunca compreendi bem por que razão o líder do partido de Cecília Meireles – cujo nome agora me escapa – não a levou para o governo. Suponho que precisava de alguém com as qualidades dela nas comissões de inquérito, capaz de ‘desfazer’ Ana Gomes (ver abaixo)…

      https://www.youtube.com/watch?v=mU-Hx1tG0K0

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