Os fins não justificam os meios


Pedro Correia,

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Neste tempo em que as modas florescem e falecem a uma velocidade estonteante, poucos escritores assistem a uma glória póstuma semelhante à de Albert Camus. Na véspera de ser assinalado o 60.º aniversário da sua trágica morte, num brutal acidente rodoviário, continuam a multiplicar-se os estudos literários e biográficos em torno do vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 1957, de quem Jean-Paul Sartre – seu amigo antes do tão propalado corte de relações entre ambos, em 1952, por divergências políticas – dizia escrever «demasiado bem».

 

Militante comunista em 1934, na sua Argélia natal, de pai operário e mãe analfabeta, Camus rompeu com o marxismo ao tomar conhecimento dos crimes de Estaline. Ao contrário de Sartre, e remando contra os postulados de Marx, rejeitou o conceito de “violência progressista” insurgindo-se contra os totalitarismos de todos os matizes e o terrorismo como forma de acção política com o mesmo vigor com que, enquanto jovem jornalista, se indignara contra a exploração colonial nas páginas do Alger Républicain com uma série de reportagens sobre a Cabília que deixaram rasto.

Ficou célebre a sua declaração proferida em 1957 na Suécia, quando ali se deslocou para receber o Nobel: «Neste momento, lançam-se bombas sobre os eléctricos em Argel. A minha mãe poderá ir num desses eléctricos. Se isso é a justiça, prefiro a minha mãe.» As bombas da Frente de Libertação Nacional, que se opunha ao domínio colonial francês, eram a seu ver tão injustificadas como os tiros mortais contra os dispersos soldados alemães que restavam em Paris após a Libertação, em Agosto de 1944. «Uma vez mais, a Justiça tem de ser comprada com o sangue dos homens», protestou num célebre editorial do Combat. Eis um tema recorrente na sua obra literária e jornalística: os fins não justificam os meios.

 

Camus está na moda – o que não deixa de ser irónico, pois ele definia o intelectual como «um homem que sabe resistir à moda dos tempos». A explicação para o irresistível fascínio que a sua obra exerce sobre as gerações mais jovens pode ser encontrada no inesquecível obituário que Sartre lhe dedicou no France-Observateur, a 7 de Janeiro de 1960: «O seu humanismo teimoso, estreito e puro, austero e sensual, travava um combate incerto contra os acontecimentos maciços e disformes deste tempo. Mas, inversamente, pela espontaneidade das suas recusas, reafirmava, no coração da nossa época, contra os maquiavelismos, contra o bezerro de ouro do realismo, a existência do facto moral».

6 comentários em “Os fins não justificam os meios”

  1. Camus foi o meu primeiro escritor. Antes houve muitos livros, mas autor cuja obra me tenha realmente abalado as fundações, foi Camus o primeiro. Albert Camus, meu primeiro sismo literário. Recebi “O Mito de Sísifo” aos 15 anos, não sei já se no aniversário ou no Natal. O tio que mo ofereceu, o único familiar próximo com algumas leituras, garantiu-me a qualidade e, naquele tempo, eu tomava esses garantias do Tio Baptista como um selo de qualidade (agora que penso nisso, acho que nunca me defraudou). Fiquei convencido de que se tratava de um romance, mesmo com o sub-título “ensaio sobre o absurdo” na capa. E não nego que me causou dificuldades. Mas aqueles dois primeiros parágrafos, “Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. (…) Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida. Outros vejo que se fazem paradoxalmente matar pelas ideias ou pelas ilusões que lhes dão uma razão de viver”. Não exagero se lhe disser que foi mote para anos de leituras.
    Muitas vezes damos connosco a pensar como determinados eventos pessoais exerceram influência decisiva no rumo que depois seguimos, momentos-chave das nossas vidas. E não posso deixar de pensar como certos livros – e, está claro, autores – também exercem papéis semelhantes no modo como pensamos. Não nas grandes ideias, mas nos pequenos sulcos, quase imperceptíveis, que modelam o leito do rio do nosso pensamento.
    Bem-haja Pedro por assinalar a efeméride.
    Votos de um bom ano!

        1. Desde logo porque Camus não deveria ter seguido viagem naquele dia, por estrada, rumo a Paris. Deveria ter saído de véspera da aldeia da Provença onde tinha casa, com a mulher e os filhos, por via férrea. Aliás até já comprara bilhete e só no último minuto desistiu, por insistência de Michel Galllimard, que lhe deu a fatal boleia.
          Uma conspiração urdida da forma sugerida por Giovanni Catelli nesse livro sensacionalista, intitulado ‘Mort de Camus’, não poderia andar à mercê de tais imprevistos.

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