O PADRINHO:
O CRIME ELEVADO A OBRA DE ARTE
Pauline Kael chamou-lhe “uma visão épica da corrupção da América”: O Padrinho estreou-se há 40 anos, com aplauso simultâneo do público e da crítica, mantendo hoje o estatuto de obra-prima que adquiriu logo de início. Vincent Canby, no New York Times, foi certeiro na crítica de estreia ao definir este filme como “uma das mais brutais e tocantes crónicas do crime na vida americana desde sempre concebidas na esfera da cultura popular”.
A interpretação de Marlon Brando, com os seus tiques adequados à figura de Vito Corleone, integrou-se na iconografia contemporânea, tal como a frase “vou fazer-lhe uma proposta que ele não pode recusar” – uma das mais célebres de toda a história do cinema – ou cenas como a da cabeça de cavalo, que valeu indignadas críticas ao realizador da parte de activistas dos direitos dos animais aparentemente indiferentes, por outro lado, à morte de mais de 30 personagens durante esta longa-metragem, que dura 178 minutos.
Aquela que deveria ser uma rotineira e banal fita de gangsters eleva-se ao estatuto reservado às óperas de Verdi graças a um jovem cineasta contratado em 1971 pelo patrão da Paramount, Robert Evans, que pretendia alguém que “pusesse cheiro a esparguete” no filme. Esse cineasta, Francis Ford Coppola, acabou por ser escolhido fundamentalmente pela sua condição de italo-americano depois das recusas de realizadores consagrados, como Arthur Penn e Peter Yates.
Não podia ter havido escolha mais acertada: Coppola filmou O Padrinho com o requinte de um virtuoso do espectáculo visual, contando com as colaborações modelares de profissionais como Gordon Willis, responsável pela extraordinária fotografia em que predominam deliberadamente tons escuros e frios, e Nino Rota, autor da inesquecível banda sonora que logo passou a ser trauteada no mundo inteiro. A sua determinação ficou bem evidente no vitorioso braço de ferro que manteve com Evans para a escolha de Marlon Brando no papel de Corleone numa altura em que nenhum magnata do cinema queria ouvir falar no intérprete de Há Lodo no Cais, famoso por ganhar muito e trabalhar pouco.
Mas Brando, que precisava de dinheiro, esforçou-se ao ponto de aceitar submeter-se pela primeira vez a um teste cinematográfico. A história desse teste – que levou o relutante Evans a confiar-lhe o papel principal do filme – entrou também na lenda de Hollywood: o actor (que viria a ganhar o Óscar) apareceu quase irreconhecível, com o cabelo escurecido com graxa para sapatos e as bochechas insufladas com lenços de papel.
Vários outros nomes sonantes do cinema americano chegaram a ser considerados para o papel de Corleone – de Edward G. Robinson a Ernest Borgnine, de Laurence Olivier a Orson Welles. Mas a interpretação de Brando é sem dúvida indissociável do êxito d’ O Padrinho, que contou com vários outros desempenhos de grande nível – desde logo James Caan, Robert Duvall e o quase desconhecido Al Pacino, todos nomeados para o Óscar de melhor actor secundário.
Coppola filmou propositadamente à moda antiga, recorrendo à técnica em vigor nos anos 40 e 50, em que a acção decorre – um tempo em que o cinema americano praticamente não utilizava o zoom nem recorria por sistema a planos de corte sincopados nas mesas de montagem. Este virtuosismo técnico faz parte da magia intemporal d’ O Padrinho, um filme sobre mafiosos onde a palavra Mafia nunca é proferida. Um filme que pertence ao imaginário de todos nós.
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O Padrinho (The Godfather, 1972). Realizador: Francis Ford Coppola. Principais intérpretes: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Richard Castellano, Robert Duvall, Sterling Hayden, Diane Keaton, John Cazale, Talia Shire.


Faz mesmo parte do imaginário de todos nós. Insuperável, como o devem ser as obras-primas. Gostei muito de o rever através deste teu magnífico texto.
Nunca vi os três ‘Padrinhos’ em sequência cronológica imediata, Teresa. É uma das minhas maiores lacunas cinematográficas. I keep it for a rainy day…
(obrigado pelas tuas generosas palavras)
Exatamente, no subtítulo diz tudo…
De raros filmes podemos dizer que logo na estreia adquirem estatuto de clássicos, Carlos. Foi o caso deste. Devo dizer que me sucedeu com poucos. Lembro-me d’ O Paciente Inglês, do E.T., da Rosa Púrpura do Cairo, do Cinema Paraíso – não muitos mais.
Espero falar destes e de outros aqui.
Brutal e tocante, dois adjectivos que definem bem O Padrinho. E o teu texto faz-lhe plena justiça.
Marlon Brando está magnífico, e tão convincente como mafioso que ficamos com a sensação de que nenhum outro actor poderia ter feito o papel. Mas tudo no filme é igualmente convincente. Uma obra-prima.
Ironia cinéfila: assim regresso ao regular convívio ‘delituoso’ após quase dez dias de ausência. Sob a duvidosa bênção de D. Vito Corleone.
Belo texto, Pedro. Tens tanta razão no que respeita à fotografia: aquele escuro/frio também conta a história. E de que maneira.
Isso mesmo, Ivone. Nas obras de arte dignas desse crédito, forma também é conteúdo.
“O Padrinho” é de facto um dos poucos “clássicos clássicos” do cinema. Um dos melhores filmes já feitos. Excelente escolha.
O pretexto foi os 40 anos do filme, assinalados recentemente. Mas qualquer outro pretexto serviria, João. Ou até pretexto nenhum.
Pertence mesmo. Sou absoluta fã da trilogia. Está tudo dito.
Também eu, Fátima. A ver e rever, sempre.