Os filmes da minha vida (37)


Pedro Correia,
 

 

A SOMBRA DO CAÇADOR:

A ÁRVORE E OS FRUTOS

 

Eis uma daquelas películas que nunca nos cansamos de ver. Único título de um cineasta singular que não voltou a sentar-se na cadeira de realizador – o actor britânico Charles Laughton, que em 1955 rodou esta obra-prima insólita e arrebatadora, longa toada nocturna, mais poesia que prosa, cruzamento do expressionismo alemão com cinema negro, de conto de fadas com romance gótico. É uma fita hipnótica, com um cortejo de actores em estado de graça. Incluindo Robert Mitchum na perfeita encarnação do Mal e Lillian Gish – que foi a primeira estrela do cinema – a servir-lhe de contraponto.

Há um sopro bíblico neste singular filme para adultos onde as crianças desempenham um papel central, numa espécie de celebração do triunfo da inocência. Com alusões ao Sermão da Montanha, talvez o mais belo texto de toda a Bíblia.

“Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Conhecê-los-eis pelos seus frutos. A árvore boa não pode dar maus frutos, nem árvore má dar bons frutos.” Este trecho do Evangelho de São Mateus serve de legenda implícita a um filme de óbvia matriz cristã que se indigna contra quem pratica crimes em nome de Deus. De uma perene actualidade num tempo cheio de implacáveis predadores travestidos de arautos da virtude.

A Sombra do Caçador perdura-nos na memória também por isto.

……………………………………………………………………….

A Sombra do Caçador (The Night of the Hunter, 1955). Realizador: Charles Laughton. Principais intérpretes: Robert Mitchum, Lillian Gish, Shelley Winters, Billy Chapin, Sally Ann Bruce, Peter Graves.

4 comentários em “Os filmes da minha vida (37)”

  1. Um filme extraordinário (também é um dos filmes da minha vida). A explicação da “right hand, left hand” do Rev. Powell às crianças é uma das melhores cenas que já vi em cinema.

    1. Excepcional, João. É um filme totalmente inclassificável. O que constitui um dos maiores elogios que lhe podemos fazer. Mitchum, que alguns apontavam como actor de segunda linha, mostra aqui todo o seu talento, desmentindo esses críticos.

      1. E convém não esquecer que The Night of the Hunter foi, à época, praticamente enxovalhado pela crítica. Poderá ter consagrado Mitchum – era difícil não o fazer -, mas marcou o início e o fim da carreira de Charles Laughton na realização. Como em muitos outros filmes anteriores e posteriores (recordo-me sempre de Blade Runner), o tempo deu razão ao filme, e não aos críticos.

        1. Exactamente, João. A crítica engana-se muitas vezes. Ou antes: engana-se vezes de mais. Particularmente a crítica de cinema. Como dizes, Laughton foi vítima disso. E nunca mais realizou um filme.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *