Falar de exames nesta altura de contestação e greve de professores é arriscado. A experiência, recente e não só, deixa perceber que há muita gente ligada ou interessada na escola que chegou à vida adulta (e até à docência) incapaz de interpretar um pequeno texto, até de blog. Ainda assim boto, sublinhando que não tem nada a ver com as greves.
A minha filha fez ontem o exame nacional de Português no 6º ano. Para a semana fará o de Matemática. São obrigatórios nestas duas disciplinas, às quais chamo nucleares (porventura terão outra denominação oficial). Co-bloguistas ou comentadores poder-me-ão corrigir se incorrer em erro. Julgo que para transitarem para o 7º ano os alunos não poderão reprovar a estas duas disciplinas em simultâneo. E também não poderão “chumbar” a mais do que três disciplinas (obviamente desde que apenas uma destas seja uma “nuclear”). Nestas “mais importantes” os resultados dos exames valem 30% da nota final na disciplina, demonstrando (e muito bem, digo eu) a maior importância da avaliação contínua.
Neste final do ano lectivo descubro algo surpreendente. Há mais exames. Ou seja, e repito, em português e matemática há provas nacionais com uma ponderação de 1/3 da nota final. E para todas as outras disciplinas há provas locais (feitos e corrigidos nas escolas respectivas). Apenas para alunos que terminaram a avaliação contínua com nota negativa. Nestes casos os resultados dos exames têm uma ponderação diferente: 50%. Assim desvalorizando o trabalho anual em favor daquele momento final. Estipulado, desenhado e avaliado em “casa própria”.
Qual o problema? Bem, junto duas coisas: a) o que vários professores me dizem, da pressão exercida por colegas e direcções para elevarem as notas dos alunos; b) a desvalorização do ensino continuado, somado à tendencial “protecção” dos alunos próprios. Tudo isto sobre o verdadeiro húmus, a ideia de influenciar as hierarquias das escolas [os “rankings” na linguajar dos agentes do sistema educativo português (do mesmo modo que cursos de música numa escola oficial portuguesa se chamam, pomposamente, “masterclass”)].
É uma inversão do tradicional discurso pedagógico, que desvaloriza os exames em prol do estudo anual – algo com o qual concordo. Mas quando é para favorecer os “espoliados”, perdão, os alunos com nota negativa, inverte-se o tom e sobrevaloriza-se o antes tétrico e anti-pedagógico exame. Irrita-me esta versão corporativa do ensino. Pois se o objectivo final é incrementar de modo artificial o “sucesso escolar” do universo global de alunos (os fedelhos não aprenderam? dá-se-lhes um exame de caca) há também a dimensão particular, a da santa paz em cada escola (“tivemos bons resultados”, pois não se “chumbou” muito), com as correlativas recompensas do respectivo corpo directivo e docente.
Anda meio mundo a enganar outro meio mundo. E vice-versa. Na escola tal e qual como no resto. Ao menos isso os putos aprenderão. A desenrascarem-se …
Adenda: os interessados poderão ver na caixa de comentários um amável esclarecimento sobre a metodologia da avaliação no 6º ano, corrigindo o que aqui referi. Eu retiro a conclusão de que o processo ainda é pior do que eu pensei.


Acha mesmo que um aluno que não se aplicou ao longo do ano , apesar dos esforços do corpo docente, vai mesmo conseguir o milagre de obter nível positivo? Gostava de ver a estatística!
E, para o ano , com um terceiro período curtíssimo , os exames de 4º e 6º ano vão ser em Maio. Imagine-se toda a logística necessária e as alterações que vai provocar em todo o corpo escolar. Quantos beneficiarão, efectivamente, de todo este mundo induquês “?!
1. Antes de tudo: reli o texto escrito numa madrugada sonolenta e mudei um pouco a atabalhoada forma.
2. Acho. Aliás, se não fosse possível para quê fazer exames? Mais, e como acima tento explicitar, é uma metodologia de avaliação que contradiz o discurso continuado sobre a necessária sobrevalorização do ensino continuado sobre o momento final de avaliação. E apenas porque é dedicado aos alunos em dificuldades.
Objectivamente é uma forma artificial de tentar reduzir o insucesso escolar (ainda para mais feito no ambiente “paterno-maternal” da escola própria). Com isso enganando os alunos, prejudicando-lhes o futuro de aprendizagem, pois catapultados para níveis superiores para os quais não estão ainda preparados (como muito bem diz, “apesar dos esforços do corpo docente”). E, nisso, também enganando as famílias, aparentemente “favorecidas”.
Como docente do 6.º ano, fiquei com algumas dúvidas quanto ao seu post.
Relativamente às Provas Finais de Ciclo, estamos de acordo em relação aos 30%. Já quanto àquilo de designa como “exames” nas outras disciplinas, não será bem assim. As provas de equivalência à frequência, este é o termo correto, destinam-se a alunos autopropostos que não reúnam condições para serem aprovados no 6.º ano. Estes alunos realizam as provas de final de ciclo de Português e Matemática, além de uma prova oral a Português e as provas de equivalência à frequência das disciplinas em que obtiveram nível inferior a 3. A classificação que obtiverem nas provas finais é aquela com que ficam, ou seja, as provas não valem só 50%.
Será que era isto que queria dizer?
Ana
Agradeço o esclarecimento (e acima apelei a que me corrigissem se estivesse a errar) e a clarificação quanto à metodologia em curso – não tinha percebido exactamente o conteúdo da modalidade.
Quanto ao que me diz sobre “provas de equivalência à frequência” (peço desculpa mas entendo a alteração como meramente terminológica) vou tentar perceber (e fazer-me perceber) melhor:
– a expressão “alunos autopropostos” é um pouco enganadora (em si mesmo, não na utilização que V. lhe está a dar, claro), pois pode, pelo menos para quem está fora do sistema, fazer lembrar aquela velha figura, que nem se ainda existe, do aluno externo que se propunha a exame final.
Ou seja, o “aluno autoproposto” é aquele que frequentou o ensino ao longo do ano e no final teve avaliação negativa [nota 1 ou nota 2] (chumbou, no jargão).
Depois faz, como todos os outros, os exames nacionais obrigatórios (tão obrigatórios que até aqueles que já passaram de ano os têm que fazer). E faz também as tais “provas de equivalência à frequência” (que não o são, pois os alunos frequentaram o ensino contínuo, como tal o nome é uma retórica falsária). Como estão numa posição deficitária (nota negativa) têm ainda que fazer uma prova oral a Português (caso tenham tido positiva a esta disciplina também o terão que fazer?), um sobreesforço compensatório, dir-se-á.
E podem passar se tiverem positiva, limpando toda a avaliação anterior. Ou seja, a nota vale 100% e não apenas 50% (eu recebera a informação de que um aluno com 2 precisava de 3 para passar, daí o meu erro, por mera dedução).
Estarei a puxar a brasa à minha sardinha ao concluir que o cenário ainda é pior do que eu apontei acima? Seja em termos de desvalorização do ensino contínuo, seja em termos de indução de hipotéticos (e reais) facilitismos?
Não é bem assim. Um aluno que reprove durante o ano terá de fazer exame de equivalência à frequência às disciplinas a que teve negativa.
Sendo que ninguém repova com 3 negativas, e mesmo com 4 é muito difícil, temos que o aluno, que durante o ano não conseguiu ter positivas a essas disciplinas, irá ser obrigado a fazer exames da matéria toda do ciclo em causa a 5 ou mais disciplinas. Se estiver no 9.º ano, o exame será sobre a matéria do 7.º, 8.º e 9.º anos.
É praticamente impossível ter sucesso. Não conheço as estatísticas, mas a percentagem de sucesso nestes exames deve estar muito próxima do zero.
A denominada “Avaliação Contínua” é falaciosa e impulsionadora do facilitismo.
Imaginem que uma auditoria sobre “higiene e segurança no trabalho” era realizada pelos engenheiros da própria empresa. Teria algum valor externo?
Entendo a “avaliação contínua” como um método do docente controlar a sua própria acção, mas sem qualquer valor externo.
Pessoalmente sou totalmente a favor dos “exames nacionais”.
Entendo que:
-devem “cobrir” o programa ou melhor, como pretende Nuno Crato, avalie sobre os objectivos propostos para esse ciclo;
-Devem ser acessíveis (não há que ter medo de aparecerem muitos “vintes”);
-não devem apelar demasiadamente à lógica antes do secundário, pois só aí, em média, é que aparece o chamado “desenvolvimento lógico formal”;
-não podem ter “rasteiras” (um absurdo numa prova de exame).
Há, é verdade, sou professor.
Obrigado pelo comentário. Em relação ao que afirma não vou replicar, pois não sendo oficial do ofício falta-me a empiria e a formação pedagógica para argumentar (ou seja, passar além do mero “achismo”). Mas não posso deixar de saudar o seu último item, isso do veto às “rasteiras”, algo inqualificável. Cumprimentos
no 6 ano ninguém passa com três negativas , apenas com duas, não podendo ser a matemática e a português em simultaneo