Os dois amigos da família Kadhafi


Pedro Correia,

                           

 

Uma família entra em guerra contra um povo inteiro. Não hesita em virar os fuzis contra cidadãos desarmados. Perde o apoio da sua própria rede diplomática. Vê a bandeira que arriou voltar a ser hasteada nos mastros. Recebe a censura generalizada da comunidade internacional – incluindo o voto unânime do Conselho de Segurança das Nações Unidas, arriscando-se a responder perante o Tribunal de Haia por violação grosseira do direito internacional.

A acção criminosa desta família que acumulou milhões ao longo de quatro décadas no poder tem a reprovação do mundo inteiro? Nem por isso. Hugo Chávez e Daniel Ortega estão solidários com ela. O que diz tudo sobre um e outro.

14 comentários em “Os dois amigos da família Kadhafi”

  1. Diz tudo para quem tivesse dúvidas e, «nesta fase do campeonato», é possível alguém ter dúvidas? E as dúvidas têm alguma importância, quando «valores mais altos se levantam»?
    Por outro lado, que pensariam os cidadãos eleitores de um governo que orientasse a sua política externa por critérios morais, quando as consequências dessa forma de governar tivessem reflexos nas respectivas bolsas? Ou, por outras palavras, quantos de nós estamos dispostos a pagar para ter uma consciência limpa?
    A hipocrisia deste mundo em que vivemos é, para alguns de nós (é o meu caso) sobretudo cansativa…

    1. Pois, Nicolina, a política externa não deve ser guiada por critérios morais – já dizia o velho Nicolau (Maquiavel). Mas há limites. E esses limites, para mim óbvios, surgem quando o ditador vira as armas contra o próprio povo. Só Chávez e Ortega aplaudem. São cúmplices no crime.

      1. Chávez e Ortega são coerentes: só o poder lhes interessa, os meios sempre foram irrelevantes. Alguém tem dúvidas? E o velho Nicolau era lúcido, Pedro, sabia que não adianta impor regras quando não se está em condições de obrigar alguém a cumpri-las. Isto não quer dizer que, para ele, a moral fosse irrelevante, mesmo quando se trata de política externa.
        A questão, neste caso, parece-me ser esta: se a comunidade internacional pretende impor a Kadhafi o cumprimento do direito internacional vai ter de intervir militarmente, e se o caos se mantiver, não duvido que o faça, sob este pretexto. Ainda assim, sejamos realistas: um bom pretexto, lá porque é bom, não deixa de ser um pretexto. Não será assim?

        1. É, pois. A falta de padrões éticos em política externa mina a credibilidade colectiva na hora de impor sanções. Vê, por exemplo, a que ponto a ONU ficou manchada quando admitiu a Líbia (e outros países) na sua Comissão de Direitos Humanos, a partir de 2010, por um período de três anos. Raras vezes me lembro de algo tão vergonhoso na política internacional.

        1. Que suavidade, a sua: nem uma palavra concreta de condenação do Kadafi… O ditador vira as armas contra o povo, morrem civis inocentes, assistimos a um drama dia-a-dia na Libia onde uma família corrupta luta contra um povo após mais de 40 anos no poder (o coronel líbio já ultrapassou Salazar nesta matéria) e você está mais interessado em falar do antecessor de Barack Obama.
          Percebo bem de mais essa técnica argumentativa, destinada apenas desviar as atenções do que se passa agora.

          1. Percebo e bem a sua incomodidade, bem vistas as coisas ele há criminosos e criminosos, consoante a mesa a que nos sentemos….

            Em verdade lhe digo, gostaria de os ver enforcados, mas juntinhos com uma corda só, embora saiba que isso nunca será possível, o Tribunal de Haia só julga “figurões” e nunca “antecessores”, a palavra por si encontrada para se referir a George W. Bush, como eu o compreendo.

          2. No Irão – onde há um regime que talvez você aprecie, por ser tão visceralmente anti-americano – é que costumam enforcar pessoas. Já lá vão mais de 200 desde o início deste ano.
            Comparar Kadafi, que está no poder em Trípoli desde 1969, quando Richard Nixon era presidente dos EUA, com George W. Bush, que não é presidente desde Janeiro de 2009, é um disparate. O pior dos dirigentes em democracia é melhor do que qualquer um em ditadura. Porque os ditadores, por vezes, só abandonam o poder com guerras civis e o morticínio da população. Em democracia, os dirigentes abandonam o poder graças ao império da lei e ao desígnio do voto.

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