Os críticos também se enganam


Pedro Correia,

 

A crítica influencia o público. Mas o público também pode influenciar a crítica – e de que maneira. Há um exemplo já considerado clássico no cinema – o de Psico, de Alfred Hitchcock. Quando se estreou, em 1960, os críticos de serviço nos Estados Unidos zurziram sem piedade esta longa-metragem atípica do mestre do suspense. “Uma mancha numa carreira honrosa”, houve quem escrevesse, enquanto não faltou mesmo quem comparasse esta obra-prima do cinema de terror a “um daqueles espectáculos de televisão feitos para preencher duas horas”. O New York Herald Tribune publicou uma das críticas mais ambíguas: “É bastante difícil divertirmo-nos com a forma que a insanidade mental pode assumir.” Podia estar a referir-se a Norman Bates, a personagem desempenhada pelo actor principal, Anthony Perkins. Mas também podia estar a referir-se ao próprio realizador.

O mais prestigiado crítico norte-americano dessa época, Bosley Crowther, não fugiu ao tom geral. “Horrível” – foi o termo severo que usou na sua análise à película, publicada em 17 de Julho de 1960 no New York Times.

Algum desses textos influenciou o público? Aparentemente, não. Psico foi um sucesso de bilheteira desde o primeiro instante. Não só nos Estados Unidos, mas também no Canadá, na América do Sul, na França, no Reino Unido e até no Japão. Tornou-se um dos filmes a preto e branco com mais lucro de sempre e fez de Hitchcock um multimilionário. 

 

O retorno das bilheteiras pareceu ter influenciado os críticos, que passaram a ver o filme com outros olhos. A revista Time, que na estreia acolhera Psico com palavras duras – “Hitchcock tem a mão demasiado pesada” – passou a chamar-lhe “superlativo”. E até o exigente Crowther deu o braço a torcer, mencionando-o, no fim do ano, na sua lista dos dez melhores filmes de 1960. A obra era a mesma: só os olhos que a viam tinham mudado.

Era o início de uma consagração que chegou até hoje. Psico, a tal peliculazinha equiparável a uma série televisiva, figura em 18º lugar na lista das cem melhores longas-metragens de sempre do Instituto do Filme Americano. Só outras duas se integram no género terror e figuram em lugares bem mais recuados: O Silêncio dos Inocentes (65º) e Frankenstein (87º).

«Os filmes de Hitchcock lidam com o mal sob a forma de ganância, violência, ocorrências naturais destruidoras e guerra. (…) Em Psico não nos deparamos com um ou dois apontamentos de terror – o filme inteiro é construído em torno do terror’», sublinha Philip Tallon no ensaio ‘Terror, Hitchcock e o Problema do Mal’, inserido no livro A Filosofia Segundo Hitchcock (Estrela Polar, 2008). Hoje pode-se escrever isto sem receio de contraditório. Por alturas da estreia, estas linhas arriscar-se-iam a ser ridicularizadas pelos mais exigentes críticos de cinema. Nenhum deles tinha razão. O público é que estava certo. 

11 comentários em “Os críticos também se enganam”

  1. Detesto filmes de terror, mas há três que me obriguei a ver porque são, de facto, superlativos: Psico (adoro os filmes do Hitchcock), O silêncio dos inocentes e Seven. Não me arrependi em nenhum deles, mas não foi fácil.

    1. Estou contigo. Também detesto o género, por isso sou muito selectiva e os poucos que decido ver é sempre em esforço. Também gostei muito desses três. Acrescento-lhes o Shinning (talvez o mais perturbador) que o Pedro ali em baixo rejeita, mas eu considero uma obra-prima. Também incluo nesta selecção Os Pássaros, embora seja um filme menor de Hitchcock.

      1. Esqueci-me de Os Pássaros, que não considero um filme menor de Hitchcock e faz parte da minha apertadíssima selecção. O Shinning nunca consegui ver, confesso. Mas sei que é uma obra prima do terror.

  2. Há um filme de terror, aliás tocado pelo ‘espírito’ hitchcockiano, de que gosto muito: ‘A Vítima do Medo’ (‘Peeping Tom’), de Michael Powell. Outros, quase todos do género, passam-me ao lado – incluindo o célebre ‘Shining’, de Stanley Kubrick.

    1. O Truffaut, acompanhado do Godard, contribuiu sobretudo para mudar a opinião dos críticos franceses sobre o cinema americano. Críticos que, na linha do Georges Sadoul, desvalorizavam o cinema americano como uma componente da ‘ideologia burguesa’.

  3. Grande Pedro!

    Não partilho da sua opinião em relação a Os Pássaros (embora prefira outros de Hitchcock), mas o The Shining é lixo. Como filme de terror é patético. Aliás, é incrível a reverência que alguns filmes do Kubrick inspiram só por serem do Kubrick (o Eyes Wide Shut é risível). Pronto, já bati no Kubrick. Bom ano.

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