«Antes do facebook houve o MySpace, e antes disso o Friendster. Antes do Google houve o Gofer e o AskJeeves. Edison tentou e falhou cerca de 5000 projectos de lâmpadas até acertar. O primeiro iPhone foi a 7ª versão.
Talvez explicar aos miúdos que os post-it resultaram dum erro na cola? Que o iogurte nasceu dum acidente? Que com os erros se aprende? Que ninguém nasce ensinado?
Os meus filhos tentam sempre baldar-se, “não sabem mudar uma lâmpada”. A minha resposta é “eu antes de saber também não sabia”. Eu sei que sabem, mas é mais fácil se for eu. Há meses um leitor de Blu-Ray pifou com um filme lá dentro e eu abri-o. “Pai, sabes arranjar isso?”. Não, mas sei tirar o filme, e quanto ao resto logo se vê – pode ser uma avaria simples, e se não conseguir, pois de estragado não passa.
São ideias, lições não tenho.»
Do nosso leitor António. A propósito deste texto da Ana Cláudia Vicente.
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«Traduzir não é um trabalho fácil, ao contrário do que muita gente parece pensar (e desvalorizar). Não temos varinhas de condão, nem é tão simples como estalar os dedos. É necessário ter bons conhecimentos das línguas em que estamos a trabalhar, pesquisar muito (por vezes perde-se imenso tempo para traduzir uma simples palavra ou expressão), saber escrever bem, gostar de escrever bem. E para escrever bem é preciso ler muito, e prestar muita atenção ao que se lê, para saber separar o trigo do joio. Tudo isto é incompatível com o “encher chouriços” em que a actividade de tradução parece ter sido transformada hoje em dia. A juntar ao facto de se achar que qualquer pessoa cujos conhecimentos de uma língua estrangeira são ligeiramente acima do nível básico (mesmo tendo uma licenciatura) pode ser tradutor, e à ideia completamente errada de que o Tradutor do Google é tecnologia de ponta no que se refere a traduzir… Receio que a tendência seja para termos traduções cada vez piores.
A solução? Como em quase toda a nossa formação universitária, privilegiar a prática em detrimento da teoria; incentivar a qualidade pagando bem o trabalho que é bem feito; apostar numa formação contínua; valorizar a profissão. Entre outras coisas, claro.
Mas não me parece que isso aconteça em breve, portanto vamos ter de continuar a aturar traduções “manhosas” todos os dias.»

Aterrador como normalmente se faz girar tudo em volta dos papões da tecnologia e dos lugares-comuns do zeitgeist — e não da inutilidade do próprio modelo de aprendizagem e da organização dos currículos escolares num lugar que não é a escola propriamente dita mas através de um instrumento político e ideológico onde o conhecimento é um recurso secundário, bem atrás de outros interesses.
o iogurte nasceu dum acidente
Como é que sabe? Você não estava lá para ver.
O iogurte foi inventado (ou descoberto) em tempos pré-históricos. Ninguém estava lá para registar a descoberta e o modo como foi feita.
Há milhares de anos, na Turquia. O Kefir.
incentivar a qualidade pagando bem o trabalho que é bem feito
Isso não é coisa para portugueses.
Os portugueses reagem acima de tudo ao preço. Querem é um trabalho barato. A qualidade é coisa que não os sensibiliza.
por vezes perde-se imenso tempo para traduzir uma simples palavra
O mais irritante é que há palavras que não têm, de todo, uma tradução adequada.
Por exemplo, a palavra inglesa data (= dados, informação) não tem tradução minimamente adequada em português. (As traduções que dei acima pretam-se facilmente a confusões e más interpetações.) E é uma palavra hoje em dia muito importante…
Pergunto-me:
Como diabos se traduz poesia? Seria o mesmo que traduzir, para palavras, uma pauta musical
com muita alma, Vlad, e igual respeito pelo original
” privilegiar a prática em detrimento da teoria;” ???????????!!!!!!!!!!
Sem qualquer dúvida. A teoria é bonita e faz falta, e é claro que para qualquer profissão precisamos das bases teóricas. Mas infelizmente os nossos cursos universitários (e não só os nossos, diga-se em abono da verdade) têm demasiada teoria e pouquíssima prática, e o resultado é que se sai de uma universidade não só com pouca preparação, mas muita vezes com má preparação.