Os comentários da semana


Pedro Correia,

«Faz agora vinte anos que emigrei para Portugal, já vivi antes um ano aqui, e um outro na Índia. Não vou negar que o pessimismo e o queixume é algo de que se gosta em Portugal, mas a frase “encontrei as mesmas pessoas nos mesmos bares, sentadas nas mesmas cadeiras, com as mesmas conversas, dizendo mal de tudo e de todos. Uma década depois” podia ter eu escrito sobre as minhas visitas à minha terra natal, não só na Alemanha, mas numa das partes mais ricas e beneficiadas da Alemanha! Há sempre muitos que preferem queixar-se do que fazer qualquer coisa, nem que seja só ir para um outro lugar…
Pois, também não tenho pena de ter ido embora. Acho que a diferença entre os que ficaram e os que foram para outros mundos tem menos a ver com os lugares ou países do que com as pessoas, que têm curiosidade e coragem (vá lá, não me acho nada herói, mas talvez sou, em comparação) para se aventurar num mundo maior, ou não a têm.
Mas sim: paga-se um preço. No meu caso, da emigração no sentido inverso, não posso queixar-me da comida, nem de falta de sol, nem de caos, mas percebo a questão da falta de pertença. Senti-me um alien, um “legal alien” mas um alien, e a falta de conforto que vem com a pertença. Mas caramba, disse-me: isso não faz parte de crescer? Mas na segunda década da minha vida de imigrante as coisas melhoraram. Hoje sinto-me bastante em casa aqui.»

Lutz Brückelmann

 

 

«Já fui (três vezes, uma por um período mais longo) e já voltei e digo-lhe com toda a sinceridade – se hoje fosse há dois anos atrás, quando decidimos voltar, não voltava. Sou Português com muito orgulho, adoro o meu País, mas ser Português passou a ser (apenas) o ponto de partida e não forçosamente o de passagem ou chegada. Sinto-me parte de muito lado e tanto me diz o Porto (onde vivo), a Maia (onde nasci), como Dortmund (onde fiz parte da minha formação) ou Epsom (onde vivi e trabalhei).
Mas há maneiras e maneiras de se ir: há quem saia daqui só em corpo e não em alma e se procure integrar na comunidade lusa local logo que possível (e passada uma dezena de anos ainda fala mal a língua local), há quem vá e corte com tudo (Portugal é o país das férias) e há aqueles – como eu – que vão e mantêm algumas coisas (alguns ingredientes para comida, algumas viagens sem serem de férias “puras e duras”) mas recusam outras (a tal integração na comunidade “expatriada”). Os primeiros sofrem sempre, os segundos serão cada vez menos Portugueses conforme passa o tempo mas aqueles como eu – e admito que sejamos a maioria nesta nova vaga de emigração – somos apenas um reflexo da nossa história de há meio milénio. Verdadeiros cidadãos do mundo, com Portugal no coração, mas com o coração aberto para partilha com outros.

Carlos Duarte

 

 

«Tendo nascido num país que já não existe nunca me senti integralmente portuguesa, apesar da nacionalidade que trago no passaporte. O sentido de pertença, ou a sua sua ausência, foi o que me levou há 17 anos a trocar Lisboa por Bona. No entanto, mesmo sem esta “portugalidade” intrínseca não foi nada fácil deixar Portugal. Faltou-me o colo de mãe, as tertúlias com os amigos e a luz que só Lisboa tem. E nunca deixei (deixarei) de ser uma convidada, bem acolhida e respeitada é certo.
Apesar de todas as dificuldades emocionais, a minha pátria afectiva, a Alemanha, ofereceu-me perspectivas profissionais/pessoais as quais dificilmente poderia sonhar em Portugal. Sem cunhas e fruto de muito trabalho.
Regressar a Portugal é uma perspectiva que não me coloco nas próximas décadas e há muito que deixei de fazer férias na “pátria” em Agosto (perdi a paciência para as piadolas sobre emigrantes, que a crise tem amenizado mesmo assim).
A vida é feita de escolhas, de alguns acasos e poucas certezas. Para além da chuva (da neve, granizo e um ou outro, raro, corpo celeste) nada cai do céu.»

Helena Ferro de Gouveia

 

Desta vez foram três, a propósito deste texto do João André. As fotos são do filme A Gaiola Dourada, de que gostei muito.

14 comentários em “Os comentários da semana”

  1. Três comentários que ilustram bem várias “estórias” de imigração/emigração que conheço. Gostava de ler o que Lutz, Carlos e Helena poderão escrever quando estiverem próximo do fim da sua vida!

  2. Três excelentes comentários que acrescentaram muito mais do que aquilo que eu tinha escrito. Especialmente vendo as diferentes perspectivas (gosto especialmente da escolha do Lutz, por ser o imigrante em Portugal) e experiências de cada um. Só para ler o que escreveram (eles e outros comentadores) já vale a pena ter o post.

    1. O teu texto potenciou estes excelentes comentários (e vários outros) por abordar uma questão de um ângulo que não costuma ser frequente. Geralmente as questões da emigração são referidas em Portugal sempre em função dos vínculos que se mantêm ao país de origem, não aos vínculos que se vão quebrando ou dissolvendo por algum motivo, por excelente que seja. Talvez por estar sempre subjacente que estes últimos se tornam uma espécie de portugueses de segunda. É pelo menos uma noção que me parece implícita. E totalmente injusta. Porque alguns dos melhores portugueses foram – e são – aqueles que se tornaram verdadeiros cidadãos do mundo. Aqueles que – parafraseando o padre António Vieira – têm, “para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra”.

    2. Agradeço ao Pedro o destaque que deu ao meu comentário, a apresento ao João André as minhas desculpas atrasadas de tê-lo chamado JAA por desleixo no comentário inicial (algo que o Pedro gentilmente corrigiu aqui). Mas antes de mais os meus parabéns por ter escrito um post que gerou uma resposta tão rica e interessante. E reconfortante: deu-me uma sensação de pertença: a uma “comunidade virtual dos emigrados”. Obrigado!

  3. Cheguei tarde a esta discussão que muito me diz: nascida numa ex-colónia, mandada ao ano e meio para Lisboa onde fiz a escola primária, depois para outra ex-colónia onde fiz o liceu e o primeiro ano da faculdade, voltando outra vez para Lisboa para acabar o curso e começar a vida profissional que continuei por uns anos em Paris e depois em Lisboa e depois em Bruxelas por uns 20 e tal anos para me reformar numa aldeia perto de Tomar onde nunca tinha vivido antes… Sempre achei que quando se levanta ferro suficientemente cedo se está bem em qualquer lado. E em qualquer lado se sente a falta de pertença, o que não tem mal nenhum.
    Esta série de posts e competentes comentários são um refrescante contraponto aos artigos idiotas e ignorantes com que a nossa imprensa trata esta questão.

      1. Se calhar estamos a dizer a mesma coisa 🙂 Se a imprensa se limita a repetir ideias feitas, sem aprofundar um bocadinho as coisas, para que serve?

      2. Hm… isso e mais ou menos como responder que enfiar os dedos na tomada nao e um acto estupido, ate porque o choque electrico que o executor apanhou prova que foi feito de forma muito competente fechando adequadamente o circuito electrico.
        A ideia de meter os dedos e que e estupida.

  4. Muito obrigada Pedro e João André pela oportunidade de debate que o post suscitou. Gostei quase tanto dos comentários, em particular o do Lutz ( que fazer gosto de alemães 😉 ), como da reflexão do JA.

    Acrescento só que a Gaiola Dourada foi um dos retratos mais desempoeirados (e divertidos) da emigração que tive o prazer de ver.

    Calorosas saudações, não do fundo da minha mala de cartão, mas da floresta amazónica.

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