Pensava que a esquerda radical era claramente favorável ao tiranicídio. Pensava que a esquerda radical gostava de ver ditadores executados pelas “massas populares” em vez de os ver placidamente confiados à “justiça burguesa”. Afinal enganei-me: o Bruno Carvalho e a Helena Borges, que nunca choraram qualquer lágrima pelas vítimas de Kadhafi, andam a chorar a forma como o ditador foi executado. Tratou-se de um acto brutal e repugnante – de acordo. Mas será que no mesmo blogue onde escreve quem celebrou o regicídio de Fevereiro de 1908, elegendo até esse duplo crime que chocou a Europa como acto fundador da república portuguesa, sobrará um pingo de moral a alguém para se indignar agora contra os Buíças de Sirte?
Os Buíças de Sirte
Pedro Correia,

O 5pias não é a capital da blogosfera, mas é um dos seus mais importantes centros comerciais.
Centro comercial onde os produtos vendidos são todos Made in China…
O mal TEM gradações. Uma execução não é a mesma coisa que matar por tortura.
Celebrar um regicídio não é o mesmo que chorar um tiranicídio? Concordo plenamente.
Curto, incisivo e completamente no alvo. Adorei este post.
A nossa esquerda radical já não é o que era, Laura. Anda demasiado lacrimejante agora.
Crocodile rock?
«It’s better to burn out / Than to fade away.»
Eis a lógica da coisa. Se lógica há.
Eu também. Haja alguém que venha desmascarar a demagogia dos algozes do pensamento.
É como o queijo numa ratoeira, já cantava alguém.
Como podem ainda admirar-se! Então não estão fartos de saber que, tanto para a esquerda como para a direita, de resto, os dos outros são terroristas e os nossos são revolucionários (o que quer que seja que actualmente isto queira dizer)?
Talvez. Mas um ditador é um ditador. Chorar pelo Kadhafi e pelo Ceausescu e não chorar pelo Mussolini e pelo Savimbi, ou vice-versa, é menosprezar a inteligência alheia. Para não dizer pior.
muito bem colocada a questão.
Há que reflectir sempre um pouco, Daniel. Para não andarmos a tropeçar no próprio pé.
Pedro: mesmo sem ver com atenção os posts referidos aqui concordo com a ideia geral de que os dois actos são condenáveis. Mas hão-de convir que, de um momento ao outro, passaram mais de 100 anos e muitas convenções foram assinadas incluindo a dos direitos do homem. Não posso deixar de me indignar com qualquer assassínio. Mas quando isso acontece hoje, quando se proporciona uma romaria para tantos anónimos líbios verem o corpo, ao mesmo tempo que se discute em que moldes se vai construir o novo estado é algo que me parece profundamente errado.
Entre um e outro crime passaram mais de cem anos, Ana. Mas entre um ‘post’ e os outros dois passou apenas um ano. O blogue é o mesmo. E a indignação selectiva até grita de ser tão evidente. Confesso: ando já cansado de tanta indignação selectiva. Passo muito bem sem ela.
Bom, e entre Kadhafi e D.Carlos vai uma distância moral inversamente proporcional aos 100 anos que os separaram… Se é para entrarmos nesse campo, também convém ter isto em consideração.
Isso estava tão implícito que nem o tornei explícito, José Maria. Mas nunca é de mais lembrar.
http://5dias.net/index.php?s=morreu+e m+sirte
Este então é inenarrável…como é possível?
Esta esquerda parece seguir de olhos fechados uma receita simplista: os inimigos dos meus inimigos são meus amigos. Que basiquismo…
Não sei qual a surpresa. Financiou uma data de grupos de esquerda.
O Luís M. Jorge já tinha apontado baterias nessa direcção, acertando em cheio. É mesmo esse o raciocínio: os inimigos dos meus inimigos (EUA e aliados europeus) meus amigos são. Por mais execráveis que sejam.
Eu até compreendo o raciocínio, mas como auxiliar. Agora, como raciocínio principal, sem mais considerações…é inacreditável. O melhor é quando esta mesma esquerda apoia Ahmadinejad, aí as consequências desta fórmula atingem um paroxismo absolutamente inacreditável!
Até apoia o Jaquim de Pionguiangue, se for preciso.
E tiraram a foto para que a legenda não fosse o cúmulo do ridículo.
Um bom estalinista é exímio em fazer desaparecer fotos, João.