Os bolsonaros de cá


Pedro Correia,

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Ontem os órgãos de informação portugueses – incluindo todos os canais de televisão – tiveram o seu enésimo momento Bruno de Carvalho. Preenchendo, uma vez mais, manchetes e tempo de antena com uma não-notícia, logo desdobrada em infindáveis horas de comentários em estúdio, serão adiante, sempre a propósito de coisa nenhuma.

Foi assim: o antigo presidente do Sporting anunciou que iria comparecer voluntariamente no campus da Justiça, em Lisboa, para proferir declarações perante os órgãos de investigação criminal num processo para o qual não havia sido convocado, nem como arguido nem como testemunha. De imediato uma chusma de jovens jornalista, obedecendo certamente à pressão de editores em pânico por perderem o “exclusivo”, se precipitou para o local, de telemóveis e câmaras em riste, para registar o depoimento da desvairada personagem. Que nada tinha a dizer excepto que estava à disposição da justiça, como compete a qualquer cidadão, blablablá patati patatá. Falou na rua, claro, pois dentro das instalações do Ministério Público, para as quais não havia sido chamada, ninguém teve tempo nem pachorra para lhe prestar atenção.

Repito: esta não-notícia mereceu parangonas, ultrapassando tudo o resto na hierarquia informativa da tarde de ontem – e prolongou-se, na requentada forma de “debate em estúdio”, noite adiante.

«Bruno de Carvalho foi ao DCIAP, passou para o DIAP mas não vai ser (para já) ouvido no caso da Academia», apressou-se a titular o Observador. «Soube que seria emitido um mandato (sic) em seu nome, na sexta-feira – portanto, decidira antecipar-se e apresentar-se perante os procuradores», pormenorizou o Expresso. «Bruno de Carvalho não foi ouvido», esclareceu a TSF. Tudo isto debitado hora a hora, minuto a minuto, nas sofisticadas plataformas tecnológicas de que dispomos, moderníssimos meios de propagar vacuidades à moda antiga.

 

«Ex-presidente do Sporting foi bater à porta errada», rezava o jornal i, informando que esta foi a sua “notícia” mais lida do dia. Sem surpresa, o Correio da Manhã não descolava da figura em causa: «Actriz revela que Bruno de Carvalho lhe liga “quando precisa”», assim se intitula a mais lida deste matutino. Com previsivel sofisticação, fazendo a diferença, o Expresso em linha revela-nos que a sua notícia mais lida tem este título: «A meio da viagem o bebé começa a chorar. Alguém pede para calar o bebé. Não se calou. Atiraram-no borda fora.»

Estes e outros meios de comunicação estão cheios de sisudos comentadores que nos alertam o tempo todo contra os riscos da vaga populista em curso. Sem perceberem que, do Brasil às Filipinas, de Itália ao Reino Unido, eles próprios fazem parte do problema. Porque difundem boatos em vez de notícias, porque abusam do sensacionalismo mais rasteiro, porque andam a reboque do alarido das redes sociais.

Sim, cá também existem bolsonaros. Por enquanto, apenas no jornalismo – alguns, curiosamente, disfarçados de anti-Bolsonaro. Enquanto recitam a ladainha contra o “populismo”, fazem tudo para fabricar o líder ultrademagogo, desbragado e radical que está para desembarcar na política. Potenciais candidatos não faltam. Basta perceber quem são aqueles a quem os repórteres de turno mais estendem o microfone.

14 comentários em “Os bolsonaros de cá”

  1. Não são Bolsonaros, Pedro. são Bolsinhonaros. Bolsinhos pequeninos porque Bolso é grande. Um grande fascista. E não é justo banalizar a sua dimensão.

    A comunicação social vai a reboque há muito tempo, porque é isso que vende.
    O problema não reside apenas, ou talvez não resida principalmente, nos jornalistas; noto e aponto antes as linhas editoriais dos accionistas dos jornais, entre lucro e interesses outros. E não tentem sensibilizar-me para a independência editorial. Fake new, essa…

    1. São bolsonaros, substantivo comum. Preparam o terreno para toda a escumalha extremista que vai bolçando enormidades por aí. Com a garantia prévia de conseguir parangonas só por aparecer.
      Qualquer imbecil, graças a este expediente, se torna hoje “figura pública”.

  2. Com previsivel sofisticação, fazendo a diferença, o Expresso em linha revela-nos que a sua notícia mais lida tem este título: «A meio da viagem o bebé começa a chorar. Alguém pede para calar o bebé. Não se calou. Atiraram-no borda fora.»

    O que é que esta “notícia mais lida” tem a ver com Bruno de Carvalho, com Bolsonaro, e com o restante do post? Não entendo. Li a “notícia mais lida” por alto e parece-me que nada tem a ver.

    1. As notícias mais lidas apenas demonstram que os jornais alimentam o populismo, publicando geralmente notícias sem substância e sem verificação de factos – dão às massas o que as massas querem, e depois criticam-nas.

  3. Outro actor:

    Sir Josef M. Ricciardi — Não esperou muito para entrar em cena…

    Pudera! O “omem” que salvou o BES da derrocada , tem todo o direito de denegrir o actual presidente do ( SCP)…

    Na minha terrinha de Coimbra , chamar-se ” Dor de corno”!

    Amendes

    3ª Classe IP

    1. luck, já antes lhe apontei falhas na tradução – assim como se entre o switch on/switch off de cada língua se lhe perdessem frases inteiras que, eventualmente, alterassem o sentido…

      “Not be civil” não é um apelo às armas como “Do not remain a civil, US Army needs you, come join military forces”… é “não se pode ser civilizado” – basicamente, Hillary diz que com um bronco tem que se usar a mesma linguagem.
      Factos são factos, lucklucky; nada há a denunciar.

  4. Na Europa, o populismo tem duas cabeças que toda a gente evita nomear: os renascidos (alguma vez terão morrido?) Fascismo e Nazismo.
    É claro que as sumidades políticas e mediáticas das nossas queridas democracias liberais fogem como o Diabo foge da cruz de tal nomeação não vá alguém lembrar-se de que quem manteve ligados à máquina esses populismos de má memória foram elas: esses restos de Fascismo e de Nazismo deram um jeito imenso na luta contra as esquerdas mais reticentes do Ocidente. Vem-me à memória a Rede Ghelen, o Gládio italiano, a bem nossa conhecida Aginter Press ou o recurso a colaboracionistas nazis pelo democratíssimo Winston Churchill na Guerra Civil Grega.
    Mais recentemente, a Alemanha e o Vaticano competiram com afinco no politicamente apoiar, no financiar e no armar dos netinhos de Ante Pavelic, não esquecendo que, neste preciso momento em que isto escrevo, correm rios de tinta no apoio às Lituânias, às Letónias e às Estónias que levantam estátuas e dão pensões a veteranos das SS e a guardas de campos de concentração e fazem-se juras de amor aos “combatentes da liberdade” herdeiros de Stepan Bandera.

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