
Todos, e mesmo se militantes de um partido, somos livres de apoiar as candidaturas políticas que entendemos. E se essa liberdade deve ser defendida em geral, mais ainda é pertinente – no caso dos militantes – aquando das eleições autárquicas, onde mais abrangentes e até sistémicas concepções da sociedade não estão (tanto) em jogo. Ainda assim espera-se (não se obriga, espera-se…) alguma contenção nessas deambulações naqueles que optaram por ter uma carreira política activa e que usufruem desse estatuto.
É disso muito elucidativa esta imagem do encontro de anteontem entre José Pacheco Pereira e Fernando Medina, numa acção de campanha deste último. Alguém dirá que foi “fortuito” mas é óbvio que não se trata de um acaso que tenha surpreendido o comentador político. O homem está no seu direito de ter estas demonstrações públicas. E o seu apreço por esta “esquerda” é consabido – alguns esquecem o encontro na Aula Magna em 2013, uma espécie de réplica dos “Estados Gerais” de Guterres, no qual se congregaram o centro-esquerda, a esquerda e as esquerdas comunistas. Durante o qual Pacheco Pereira surgiu saudando “amigos, companheiros e camaradas”, aventando o que veio a ser conhecido como “geringonça”, da qual assim se poderá reclamar se não ideólogo pelo menos profeta. Algo que se lhe impunha – como ficou patente ao invocar, em registo de analogia, o Manuel Alegre da Rádio “Voz da Liberdade” na Argélia – como uma luta contra um verdadeiro fascismo que assombra(ria) o país, mesmo se dito mera “direita radical”.
E é relevante que Pacheco Pereira continue opinando contra a “direita radical” que quer usurpar o seu PSD. E nisso defendendo – “por dentro”, enquanto militante – a sua presidência partidária actual. A qual acolheu e lançou a actual candidatura municipal de Carlos Moedas. Ainda assim Pacheco Pereira entende necessário o “fortuito” apoio público à candidatura rival. Por puro silogismo depreendo que para o consagrado comentador Moedas pertencerá à tal “direita radical”, contra a qual urge levantar a “Voz da Liberdade”. É uma posição legítima, ainda que possa parecer algo contraditória, pois a cada cabeça sua sentença.
Mas este “fortuito” apoio público lembra-me outras intervenções de Pacheco Pereira. Por vezes tem aludido a que os locutores da tal “direita” se acoitam em órgãos de comunicação social – presumo que se trate, fundamentalmente, do “Observador” -, os quais invectiva por serem alheios à procura de viabilidade financeira e por pertencerem a grupos económicos. Alusões que são uma evidente desvalorização moral (e intelectual) desses opinadores, produtores de opinião pública. Que assim quer fazer parecer quais mercenários, ao serviço de interesses (económicos) esconsos. E ainda que eu pense essa análise algo redutora, mecanicista por assim dizer, ela é legítima pois é a opinião do analista.
E é nessa linha de raciocínio que olho para esta atitude “fortuita” – e também da continuada – do “social-democrata” Pacheco Pereira. Nisso, e de certa forma, eu sou-lhe um “co-idealista“, acredito (matizadamente) nas potencialidades de uma tutela estatal indutora da redistribuição o mais equitativa possível, e assim reprodutiva, dos recursos societais. Aquilo a que a gente da minha geração e da minha profissão chamou – porventura com alguma candura – “desenvolvimentismo”. Acontece que 75 anos depois da explosão da crença desenvolvimentista sabemos bem, por evidência mundo afora, que o nepotismo desbragado, o clientelismo sedimentado, isso do (neo)patrimonialismo, são inibidores do desenvolvimento. E da (social-)democracia. E face a isto não há qualquer erudição bibliófila nem “escavação” arquivística local que possa servir de contraditório. Ou seja, o apoio a esta situação actual do país nada é “social-democrata”, é apenas situacionista. E anti-desenvolvimentista.
Porque segue Pacheco Pereira nesta via? Eu posso elaborar sobre o percurso do meu antigo (e excepcional) professor, de quem muitos livros e artigos li. Posso especular sobre um enquistamento intelectual proveniente no mergulho arquivístico na épica anti-fascista e pós-Abril. Que o fará pensar a actualidade através de pobres analogias com esse passado. Mas, de facto, o que devo seguir é o seu método de análise dos actos locutores. E perceber que estes seus apoios a forças inibidoras do desenvolvimentismo social-democrata e, até mesmo, anti-democráticas, são devidos ao financimento estatal que recebe e ao apoio estatal ao seu trabalho em órgãos de comunicação social sem intuitos lucrativos, pertencentes a grupos económicos.
Ou seja, nada há de “fortuito” no apoio de Pacheco Pereira ao PS e a Medina. É apenas reflexo das declarações (e pressões) do primeiro-ministro António Costa: “A democracia não pode prescindir da Quadratura do Círculo” (Janeiro de 2019). E nesse trabalho (remunerado) recuperado o comentador se prestar à pantomina de ombrear com uma secretária-geral adjunta em exercício do PS enquanto ela se finge “comentadora” – esta pérfida idiossincracia portuguesa, isto de mascarar políticos no activo de “comentadores” televisivos. Nem há algo de “fortuito” nesse apoio quando o presidente apoiado financia o projecto pessoal do comentador político: Acordo entre Câmara Municipal de Lisboa e Associação Ephemera. (2021, Abril). E do que dele li ao longo dos anos só posso concluir isto: a sua arrogância intelectual é tanta que nem perceberá até onde chegou. Até onde desceu.
Enfim, o que nos cumpre, cidadãos democratas, em particular os lisboetas, é votar amanhã consoante o nosso viés democrático. Mas contra esta hidra municipal, inculta, patrimonialista. Que anda para aí à chinchada… Sabendo que nada é “fortuito”. Muito menos as arengas dos “comentadores” remunerados.

Boa tarde, sr. JPT
Não vou comentar a sua publicação porque é a sua opinião e bem fundamentada.
Quero apenas sublinhar uma ideia que o sr. aborda e que para mim é cara. É o seguinte.
Todos têm o direito de mudar de opinião. Todos têm o direito de votar segundo a sua consciência. O que não engulo é que quem já “deu a cara por um partido – seja ele qual for – venha depois dar a cara por outro. Quanto a mim é pouco ético e mostra uma falta de seriedade, Se quer votar noutro partido que o faça, mas no silêncio da sua consciência. Creio que ganharíamos todos.
Desculpe se ocupei muito do seu espaço.
Zé Onofre
eu julgo que se pode simpatizar, propagandear ou mesmo militar num partido e em determinado momento apoiar outras candidaturas (como digo no primeiro parágrafo) [isto para além de mudar de partido – só não percebo isso de mudar de clube]. Agora a linha de jpp é vergonhosa
Então e quem foi prejudicado, em alguns casos muito prejudicado, com as politicas aplicadas pela troika no governo de pc, tem de aguentar com as simpatias partidárias.
Como aqueles que tiveram de encerrar empresas, fazer despedimentos e ficar em situação financeira complicada, não podem dizer como o outro que chamava filhos da puta aos polícias que lhes estavam a apertar os c….. e dizia depois ‘queriam que eu lhes dissesse não façam isso meus queridinhos’ ?
Uma coisa são os vira casacas outra coisa são os apoiantes de determinada politica.
O meu único comentário ao seu texto, de resto pouco discutível, é este: nunca entendi porque foi (é?) o jpp militante do PSD.
Como isto irá, provavelmente, assinado por anónimo, aceite um abraço do Joaquim Margarido.
Os “comentadores de direita” que passam a vida a dizer mal da direita são muito úteis às redacções de esquerda.
Mais do que a composição partidária desse universo de “comentadores políticos” – que é bastante enviesada (o peso de gente do LIVRE ou deste próxima contrastando com a inexistência de próximos do PAN, é um exemplo extremo, até porque fora dos grandes partidos tradicionais, entre os quais se pode ver a escassez de gente do PCP contrastando com o pulular de oriundos dos grupelhos que se coligaram no já não tão júnior BE) – é muito interessante ver como os “da direita” (de facto, tanto os daquilo que dantes se chamava “centro” como os da “direita”) se moldam a um discurso que seja aceitável à esquerda.
JPP, após afastar-se alguns anos da política, regressou para apoiar a candidatura presidencial de Soares e, depois, juntou-se ao PSD de Cavaco Silva. Se me pergunta o porquê de se juntar ao PSD, respondo que, muito provavelmente, era por ser o partido então no poder, com melhores contactos e que lhe dava mais perspectivas de retorno (daquele “retorno” com que se pagam as contas).
Como disse em comentário acima nem posso abordar as intenções de jpp quando aderiu ao PSD (seria um “processo de intenções” sempre desinteressante) nem me lembro do que então acontecia. Mas repito-me (em relação ao texto e ao anterior comentário): face à deriva de jpp para apoiar as forças que se opõem ao seu partido – desde a ascensão de Passos Coelho, logo no Abrupto batia forte e feio nas pessoas da nova direcção – e à sua verdadeira articulação funcional com o poder político vigente, é legítimo utilizar a mesma grelha analítica para o seu processo individual que ele utiliza para analisar os opinadores dele discordantes.
Joaquim Margarido, sobre isso não posso muito adiantar. Não que seja apenas matéria para o próprio abordar – pois estes processos de adesão (Colectiva ou individual) podem ser analisados “de fora”. Mas porque não me lembro dos contornos da entrada de jpp (e de Villaverde Cabral, que se lhe associava num “clube liberal” ou similar) no PSD. Nem é meu assunto a pertinência da militância de jpp no PSD (partido ao qual nada me liga para além de 4 ou 5 votos ao longo destas décadas). Insisto é nisto: se lhe aplicando a mesma grelha analítica que ele usa para os comentadores que diz de “direita radical” (e é perfeitamente legítimo fazê-lo, pois não há qualquer diferença antropológica que os aparte) então a sua constante aproximação aos núcleos alheios ao seu partido deve ser explicada em termos de condições materiais.
O Pacheco Pereira é de esquerda, e bem de esquerda. Mente no pous, corpo no ps. Está no psd por acaso.
Entretanto um parêntesis, adorável como se fala na covid no pretérito perfeito.
Não apanho bem a causa do parêntesis. Percebo que não se refere ao postal mas onde é que já se fala do passado sobre o COVID. Diga-se, eu anseio por esse pretérito.
Sobre Pacheco Pereira, tenho há muito uma opinião que repito amiúde: respeito imenso o trabalho que tem feito com a Ephemera mas, se esta prostituição intelectual é o preço a pagar pelo seu financiamento, para mim seria um preço demasiado elevado.
Eu acho o Ephemera um projecto óptimo. E que é perfeitamente legítimo que a CML (e outras) o apoiem. E que seja associado às comemorações dos 50 anos do 25 de Abril (já sobre a configuração destas enfim, há já muita coisa a dizer, mas isso é outra coisa).
Pacheco Pereira é um catavento completamente baralhado e desnorteado.
Discordo. Não o julgo catavento nem o encontro desnorteado. Se o pensasse apenas o lamentaria. Não é o caso.
Virar a casaca e lamber o rabiosque ao poder não é exclusivo do JPP. A mim pelo menos nunca me enganou — e tomei desde muito cedo a precaução de nunca respeitar quer as suas opiniões quer a sua vasta colecção de bilhetes de metro.
Sempre me pareceu o que verdadeiramente é: um oportunista, colado à opinião “publicável” e com uma soberba intelectual sem justificação nenhuma: escreve mal e as suas teorias têm 10 anos de atraso como se vivesse upriver nas margens do rio Dão e recebesse as coisas só pela rádio local. Depois andava a mostrar videos nos seus programas de TV como se só ele os conhecesse e como ser magnífico que era decidia, como alguns que voltaram do meio do capim empenhados a mostrar aos seus compatriotas o que era afinal o progresso, instruir a massa bruta e selvagem com que se surpreendeu nas caixas de comentários dos blogues com a sua luminosidade intelectual digna de um chimpanzé humanóide diante do monolito do 2001. É certo que só ele via aqueles videos no momento: tinham sido memes de internet em todo o mundo 15 anos antes e toda a gente já os tinha esquecido.
Só posso sorrir diante da sua verve.
Um comentador referiu que JPacheco Pereira seria um oportunista, do que eu discordo. Em meu entender, parece-me que tem o gene da sobrevivência (cujos “métodos” diferem do da subserviência, embora vivam paredes meias). Convém lembrar que os “brutos matadores” de Inês foram condenados e brutalmente mortos com requintes de crueldade (descritos nas crónicas de Fernão Lopes), à excepção de um deles, que conseguiu escapar.
Era antepassado de Pacheco Pereira.
Um comentador referiu que JPacheco Pereira seria um oportunista, do que eu discordo. Em meu entender, parece-me que tem o gene da sobrevivência
Discorda mas concorda: qual é a diferença entre ser oportunista e ter o gene da sobrevivência? Eu não vejo muitas diferenças.
JPP é um intelectual de extrema-esquerda infiltrado no PSD. Se escolheu o PSD por motivos venais – o PSD ocupava o poder quando ele regressou – é apenas provável.