Opositor sim, dissidente não


Pedro Correia,

 

E lá surge novamente, a propósito da merecida atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiabo, a famigerada palavra dissidente. Que se emprega apenas como referência aos opositores nas ditaduras comunistas. Quem se opõe à dinastia dos irmãos Castro em Havana é dissidente. Quem se opõe à dinastia Kim em Pyongyang é dissidente. Quem ousa enfrentar a bota cardada de Pequim, que esmaga impiedosamente os defensores de direitos humanos, é dissidente. Mas a que propósito vem o palavrão? Dissidente, esclarece-me o Cândido de Figueiredo que tenho à mão, “é aquele que diverge da opinião geral”. Parte-se portanto do princípio que a “opinião geral” se conforma com os ditames da ditadura, havendo uns quantos excêntricos que pensam de outra maneira, em evidente fuga à normalidade.

Lamento, mas não uso a palavra. E rejeito o conceito. Lula da Silva e Dilma Rousseff foram opositores à ditadura militar brasileira – ninguém jamais ousou chamar-lhes dissidentes. Nelson Mandela foi um combatente contra o apartheid – não era um dissidente do regime racista sul-africano. Álvaro Cunhal e Mário Soares, entre tantos outros, militaram na oposição ao salazarismo – não eram “dissidentes” do salazarismo.

Liu Xiabo é um opositor incómodo e tenaz da ditadura chinesa. Chamar dissidente a este preso de consciência é já uma forma de ceder aos seus verdugos, diminuindo-lhe a estatura cívica e moral. Nenhuma palavra é neutra na batalha das ideias.

22 comentários em “Opositor sim, dissidente não”

  1. Boa noite Pedro,
    O meu apoio.
    Nunca percebi estas subtilezas de linguagem.
    Talvez um curso de reciclagem à maioria dos jornalistas ( e não só portugueses ) n~~ao fosse má ideia.
    Um abraço

  2. Eu também caí no mesmo erro, Pedro.
    A expressão tornou-se tão comum, que nos esquecemos da parvoíce que representa.
    Nunca é tarde para reconhecer e corrigir um erro.

  3. Excelente. Talvez por a maioria dos intelectuais (e dos jornalistas) ser de esquerda, tradicionalmente esta usa muito bem as palavras (no sentido de escolher e impor as que melhor servem os seus interesses). Mas é importante desmascarar estes joguinhos hipócritas, venham da esquerda ou da direita.

  4. Compreendo o seu ponto de vista, e partilho-o. Também eu usei a palavra dissidente (sem saber se alguma vez ele pertenceu ao PC). De qualquer modo, para mim, a palavra dissidente nobilita sempre: é alguém que pensa pela sua cabeça e paga por isso. Como sucedeu com tantos, de Sakharov a Djilas. Por isso, gosto de pensar no Liu Xiabo ( na sua mulher) como um dissidente, alguém que se afastou da corrente dominante, seja ela imposta ou não.
    Um abraço.

    1. Nisto estamos em desacordo, meu caro. ‘Dissidente’, como verá, só se aplica a um opositor de uma ditadura de esquerda. Uma espécie de opositor de segunda. Isto é totalmente inaceitável.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *