
(Fotografia de Nuno Botelho, publicada no Expresso)
Não será difícil, a não ser por mero clubismo, discordar que a actual ministra da Cultura – a terceira da legislatura, o que demonstra algum desatino governamental no sector – não deixará grande memória. Pois o que veio dizendo não impressiona: desde fazer-se ministra da civilização, a propósito das touradas, a sarcasmar sobre a imprensa portuguesa (aqui), talvez um mero deslize mas a mostrar-se altaneira, até lapsos geográficos pouco casáveis com o cargo que ocupa, a imagem criada é frágil. É certo que essas declarações, descalibradas, não obrigam a que seja desprovida de virtudes executivas. Mas … leio agora que o São Carlos está desafinado. Ou melhor, desorquestrado. Ou seja, desnorteado.
Nisto da cultura, e de forma grosseira, costumam-se dividir os locutores: os da “direita” (o ex-“centro”) reclamam que cumpre ao Estado preservar o “património” existente e não o financiamento da actual produção artística, coisa a ser entregue ao mundo privado/empresarial. E fazem-no com tanto arreganho, fiéis ao fetiche do mercado, que não vale a pena dizer-lhe que as pirâmides egípcias, o tecto da Capela Sistina, o Partenon, e imortalidades dessas foram obras contemporâneas pagas pelos Estados. Os quais, já agora, durante estes últimos três milénios foram também pagando imensíssimas obras (à época contemporâneas) das quais pouco ou nada reza a História. Repito, não vale a pena dizer-lhes isso, falar com os idólatras é tão inconsequente como resmungar com os peixes.
Os locutores da “esquerda” (parte substancial da qual em tempos se chamou “corporativismo”) são menos atreitos à preservação do “património” – em especial se de origem religiosa – e cultuam a “contemporaneidade”, o seu financiamento, uma idolatria como outra qualquer: por exemplo o Estado deve lautamente financiar exposições itinerantes lusófonas mostrando bidés ou urinóis 90 anos depois de Duchamp, mas será quase-crime fazer rodar plácidos paisagistas ou retratistas 100 anos depois de Silva Porto ou Columbano.
O interessante é que a ópera – e, em sentido mais amplo, aquilo a que à falta de melhor termo é comum chamar “música clássica” – poderia ser o ponto de confluência desses dois eixos de (des)entendimento: é “património” edificado e é “contemporânea”, até pelas dimensões de recriação, mais ou menos controladas pelo cânone. Algo que poderia ser reforçado por aquela costela iluminista da “esquerda”, transmitir ao “povo” as grandes obras da cultura desalienante. Enfim, aquilo da “civilização” a que a ministra se dedica, pelo menos no combate às touradas.
Ainda assim acaba a legislatura com o Teatro Nacional de São Carlos neste estado, uma direcção inoperante, um conflito generalizado, planificação inexistente. A culpa deve ser da “troika”.

Graças aos deuses, a tradição cultural em Portugal mantém-se de uma coerência inviolável.
Vejamos, então, povo de Deus e povo dos deuses, o que significa a anterior afirmação:
Costa, o homem do poucochinho, saído de uma grande derrota nas europeias, e traumatizado que ficou com as reivindicações dos professores, entendeu que alterar a cultura em Portugal traria adicionais revezes às estruturas civilizacionais feministas-lgbtistas-animalistas-arvorez istas do PS e do BE, com o PAN, mais dia menos dia, a transformar-se numa PANificadora. Não faltará pão a dar com um pau para os animaizinhos.
Vai daí, mantendo a tradição cultural, resolve – numa subtil mensagem dirigida aos professores – aumentar a função pública, (https://rr.sapo.pt/noticia/154838/costa-p romete-aumentos-e-mais-contratacoes-na-f uncao-publica-se-o-ps-ganhar-as-eleicoes) ; e a ministra da cultura civilizacional, colocando-se por detrás da secretária de estado, vem dizer aos bailarinos, violinistas, cantores… que não sacrificará a tradição cultural nacional em prol de umas teatralidades.
Dito isto, perceber-se-á que a cultura rosé, avessa aos tintos e aos verdes, continuará a ser aposta nacional. Todavia, com base no orçamento das freguesias, espero que deixem os arco-iristas, sacrificando-se, obviamente, a produção dos vinhos palhetes, pintar as passadeiras em tons alegretes. E a cultura prosseguirá.
Mas há mais, e não são verdes. As touradas, que têm encaixe orçamental privado, podem ser abolidas, pois, ainda culturalmente, a pobreza de uns é a riqueza de outros. Neste cenário, será que vai existir algum subsídio de Bruxelas para abate da produção, como aconteceu nas pescas e na agricultura?
Finalmente: para quê subsidiar S. Carlos com S. Bento tão sedento?
É o que faz pôr-se um gajo com um buraco no meio das pernas a culturar. Seja da esquerda ou da direita, aquilo é um gajo.
agradou-me a frase que fala no resmungar com os peixes.
A discussao é interessante, mas dura á decadas: o que é cultura e o papel do estado.
A ministra, esta ou outra, pode ate ser infeliz no que diz, mas a discussao é outra.
E se percebermos que a cultura sao pessoas, seus empregos, so o estado para os garantir.
Ninguem defende acabar de vez com esta cultura, e portanto resta…para pior ja basta assim.
Resumindo : os agentes culturais sobrevivem ate sem ministra, mas nao sem o OGE.
E tenho que os agentes culturais sao gente boa.