Fomos outrora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: fizemos muitas revoluções para sair dela. Ficamos exactamente em condições idênticas. O caldo da portaria não acabou. Não é já como outrora uma multidão pitoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros, carrascos, que o vai buscar alegremente, ao meio-dia, cantando o Bendito; é uma classe média inteira, que vive dele, de chapéu alto e paletó. Este caldo é o Estado. A classe média vive do Estado. A velhice conta com ele como condição da sua vida.
José Maria Eça de Queiroz (1845-1900), Farpas, I, Maio de 1871.

Esperemos que não seja amanhã também….
… e amanhã.
Pedro, Alex,
E pensar que Eça ainda não tinha trinta anos quando escreveu isto; parece que estava particularmente zangado por esses dias, pois ficara em primeiro lugar no exame de entrada na carreira consular mas não conseguira colocação, já que um outro concorrente aristocrata tinha uma cunha poderosa junto da tutela.