Onde é que já vimos isto?


Luís Menezes Leitão,
 

Só quem, por juventude ou esquecimento, não tem memória da história recente do país é que pode pensar que desta negociação entre Passos Coelho e Paulo Portas vai resultar alguma coisa de útil. Essencial a um Governo de coligação não é apenas um compromisso político, é igualmente que exista confiança e bom relacionamento entre os líderes dos dois partidos. E já se percebeu que essa falta completamente. Assim, ou se muda de protagonistas ou não haverá coligação que se aguente.

 

O país assistiu a esta experiência com os governos de Pinto Balsemão. Aquando da morte de Sá Carneiro, Freitas do Amaral aspirou a ascender a líder da AD, mas o PSD não lhe fez a vontade, elegendo Pinto Balsemão para o lugar. Freitas do Amaral decidiu por isso manter-se fora do governo, assistindo da plateia às sucessivas dificuldades da liderança de Balsemão. Por esse motivo, passado um ano Balsemão apresentaria a demissão, exigindo para regressar como Primeiro-Ministro que Freitas do Amaral ingressasse no Governo. Contrariado, este fez-lhe a vontade, mas logo que a AD perdeu à tangente as autárquicas, exigiu que Balsemão reformulasse o Governo. Como este não o atendeu, Freitas quis desfazer a coligação, mas o CDS não o acompanhou nessa decisão, o que o levou a abandonar todos os seus cargos políticos. Entretanto Balsemão também se demitiu de Primeiro-Ministro, alegando que se queria dedicar exclusivamente a liderar o partido. A AD apresentou então à pressa Vítor Crespo como Primeiro-Ministro, o qual se entreteve alguns dias a formar um Governo, onde só empurrados os ministros aceitavam entrar. Felizmente o país não assistiu mais a esse disparate porque o Presidente Eanes pôs termo a esse delírio dissolvendo a Assembleia.

 

Um Governo em que o líder de um dos partidos da coligação não participa é um governo condenado a prazo. Se o PSD alinhar em manter um Governo sem Portas, irá assistir a um novo Governo Balsemão, destinado a vegetar até que lhe dêem o golpe de misericórdia, provavelmente já nas autárquicas, como aconteceu da outra vez. Eu acho que seria péssimo irmos para eleições, mas não estou a ver como estes dois líderes partidários podem construir presentemente qualquer solução de Governo.

Um comentário em “Onde é que já vimos isto?”

  1. Pois a convocação de eleições é a saída mais prudente desta situação. E ainda todos diremos que Deus escreve direito por linhas tortas. Esta dita “crise política” é a porta de saída da mais longa noite a que alguns alemães são especialistas em construir.
    Esta kristallnacht pseudo-financeira que foi produzida em Portugal nada mais é que a escolha dos cobardes para fugirem aos seus próprios receios e responsabilidades. A senhora Merkel até chegou a imputar-nos o epíteto de preguiçosos, já para não falar na crise da coli que ela atribuiu a produtos oriundos do sul, mas ela, a coli (merda), estava lá e não por cá. Não obstante, eles, os actuais governantes alemães, andam ansiosos por receber aqueles que se qualificam nas nossas universidades com o dinheiro pago por todos os contribuintes nacionais.
    Pedro Pasos Coelho, a quem parece ter-lhe pesado o derrube de Sócrates, para ser aceite por seus pares, lá teve de mostrar, juntamente com o excepcionalmente inteligente, visionário e não sei mais o quê Gaspar, que era capaz de fazer bem pior.
    A convocação de eleições em Portugal determinará um outro sentido para a Europa.
    Cá estaremos para verificar a veracidade desta afirmação.
    Ninguém espere que saíremos da austeridade. Não, encontraremos antes uma nova medida e um diferente peso para a austeridade.

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