Onde é que estavas no 11 de Setembro?


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(Reproduzo um postal que coloquei em Março de 2004.)

Nesse 11 de Setembro tínhamos imensa gente em casa para jantar. O motivo do repasto era a visualização de um documentário sobre Nacala, feito pela Joana Pereira Leite. Lá se jantou, os convivas nervosos, estupefactos. No fim mais ou menos votou-se o vídeo em detrimento da CNN e lá se seguimos para as memórias da Joana. Claro que num dia desses tudo terminou em grande discussão, sobre méritos e deméritos do vídeo, seu sub-texto e etc. Serviu de catarse.

Já noite longa e terminados os contra-argumentos levei alguns dos convidados, os portugueses, ao hotel. Fiquei-me só, bastante acelerado, de tudo o que se tinha visto quase em directo, do jantar meio louco, da discussão que se seguiu, e do cocktail de cervejas, gin, vodka, tinto e whisky que tinha acompanhado o dia.

Não me imaginei na cama e segui à Bagamoyo, meio vazia estava, dia de semana e tão especial. Porta a porta entrei no Luso, onde o balcão pode ser recatado em troca de uma ou outra Reds, ofertada à menina que servirá de biombo. Também a matar a noite por lá estava o André, um italiano meu conhecido e há muito aqui residente. Lá nos juntámos, o assunto era óbvio. O horror, o espectáculo, o futuro. Tudo dito e redito. Até que começou ele com a arenga que os americanos estavam mesmo a pedi-las, tinham que levar com situações destas, tanta a sua arrogância, o imperialismo. E tudo quanto fazem pelo mundo afora.

Tentei interrompê-lo, a puxar-lhe pela manga, até numa concordância que muita violência fazem e patrocinam os EUA. Mas caramba, aquilo tinha sido horrível – “viste aqueles tipos a saltar lá de cima?” – e ele nada, nada mesmo, que era tempo dos americanos sentirem em casa a violência, não tinha pena nenhuma. Bem, que me restava fazer? Concordei com ele. Que tinha razão. Realmente o poder americano é violentíssimo, usa a agressão constantemente e capeia-a. E fui adiantando que ao olhar para trás também saudava todos os italianos mortos durante a II Guerra Mundial. Não é que os sacanas tinham apoiado o Mussolini?

Não percebi bem porquê mas ficou irado, insultou-me. A conversa morreu ali mesmo, e desde então cada vez que me vê – e já lá vão quase três anos – limita-se a um aceno, tão breve quanto possível. Nos dias seguintes fartei-me de ouvir gente a dizer o mesmo que ele. Que tinha sido horrível, é certo. Mas que estava na altura de eles apanharem em casa. E nem todos os que falavam eram italianos. E eu sem saber o que lhes dizer.

49 comentários em “Onde é que estavas no 11 de Setembro?”

      1. Estava em Beja. Estava um dia radioso. Comia bacalhau cozido. Primeiro parecia um acidente, mas após o segundo embate não restavam dúvidas. Era um atentado. Só desejava vingança sobre os responsáveis. Concordo com o Pedro. Tal como a data da tomada de Constantinopla foi tida como o começo da Idade Moderna, o 11 de Setembro marcou o fim do século XX, e o ressurgimento de ideias que pareciam mortas.

          1. Não deixa de ter razão. Quanto a mim, e insisto, não me lembro dos cardápios do dia. Mas que se bebeu muito, ai isso bebeu-se …

  1. Nessa manhã , vinha a chorar de horror e desespero depois de deixar o meu
    cão na clínica veterinária. Foi atacado selvaticamente por outro
    que se passeava alegremente sem trela e com os sentidos em
    alerta para os quais foi treinado.

        1. Foi o que realmente me ( nos) aconteceu nessa manhã.
          Ao ler o comentário também pensei exactamente o mesmo.
          ( confesso que recorri a um vocabulário menos elaborado)

  2. Hoje 11 de Setembro de 2019:

    A preocupação maior da Europa são os muçulmanos que em França e outros países já constituem bairros onde o estado já não entra.

    Esse sim é o problema europeu, o resto é folclore.

    A.Vieira

  3. Eu no 11 de Setembro só tinha dez anos de idade, já não me lembro de onde estava.
    Só mais tarde soube que nesse dia Salvador Allende morreu de pistola na mão.

    1. Lavourinha, como sempre “lavourada” ,fala-se de 2001, 11 de Setembro ?

      Onde estava, a sachar couves na horta?????

      A.Vieira

    1. O dia inteiro?, Sem turnos nem descanso? Que escravidão. E agora, exaurido, desempregado? Recebeu o alfinete de peito ou mesmo o relógio, aquando da dispensa?

  4. Estava em casa e um amigo telefonou-me, muito agitado, a dizer-me para ligar a televisão, que tinha acabado de haver um acidente terrível em Nova Iorque. Assisti em directo ao segundo impacto, estupefacto, como o pivô. A realidade de não ser acidente foi registada quase numa névoa. Chorei ao ver pessoas a chover na rua. Depois as torres caíram. E temi que os EUA despejassem, no mesmo dia, uma bomba atómica em qualquer lado.
    Não me passou pela cabeça que os americanos merecessem aquilo. Ninguém merece, nem em Nova Iorque, nem em Beirute, nem em Sarajevo, nem em lugar nenhum.

    1. Pois eu levei com aquilo, logo no dia, e foi um sentimento muito generalizado. O meu postal original, de 2004 – e tal está na versão que então coloquei – veio a propósito de um postal do Francisco José Viegas no seu “Aviz” no qual ele narrava ter ouvido na TSF um tipo a falar durante 40 minutos exactamente com o mesmo registo do que o meu conhecido italiano. Houve muita gente (onde estarão eles agora, entre o Livre e o PCP?) a gostar do que então aconteceu.

  5. Catorze horas seguidas a trabalhar. Estava de folga, espreitei de manhã a TV – e já não consegui desgrudar do ecrã.
    À hora do almoço rumei ao jornal, como voluntário – à semelhança de muitos colegas que estavam desmobilizados naquele dia.
    Saí de lá ia alta a madrugada, quatro edições depois. Iríamos vender largas dezenas de milhares de exemplares nas bancas, nessa horas que se seguiriam – breve e derradeiro apogeu da imprensa escrita.
    A caminho de casa, afundei-me no banco traseiro de um táxi, esgotado e transido: tinha a sensação nítida de ser aquela a dramática e definitiva despedida do século XX.
    Um novo mundo acabara de ser inaugurado. Demasiado parecido com o pior do mundo velho.

  6. A 11-09-2019 estava sentada à secretária, a fazer de conta que trabalhava. O rádio ligado passava o Deixa-me rir do Palma, enquanto configurava o screensaver (credo, o protector de écran) do velho HP, usando uma das opções: umas avionetas flutuantes que transportavam uma faixa em branco para preencher, onde escrevi Play it again, Sam. A música desapareceu para dar lugar ao sinal de informação, e a notícia de última hora: um avião embatera numa das Torres Gémeas. Vinte minutos depois estava em casa a ligar a televisão para ver aterrada o que toda a gente viu.

    Como se pode imaginar, nunca mais pus aviões a flutuar no computador.

    Também me chocou o regozijo de alguns com a tragédia. Mas, felizmente, só tive que conviver com o ódio aos americanos – nessa altura e nos anos subsequentes – no mundo virtual, e não no real (se é que esta distinção faz sentido).

    Isabel

      1. A distinção cada vez faz menos sentido. Mas existe. Pois – e nota-se muito, principalmente no registo de blogs – a diferença entre o que se diz (e realmente se pensa) de cara descoberta, no tal mundo real, e as atoardas, quantas vezes apenas para deitar fora o fel excedentário, que se atiram no mundo virtual. Em muitos casos a diferença não existirá mas em muitos mais outros isso será uma realidade – pelo menos é a minha utopia.

        Mas, e como acabo de comentar acima, na época houve mesmo algum regozijo com a inventividade anti-americana. Algum explícito. E muito encapuçado pelos tons retóricos do que se foi dizendo, registos do “um horror, mas …”

        1. Pena as palavras serem levadas pelo vento e etc.
          Tinha interesse – político, jornalístico, cultural, ideológico – garimpar numa hemeroteca televisiva e radiofónica para recuperar todos os dislates debitados pelos guerrilheiros verbais de turno nesse dia de tão negra memória.

          1. Seria muito interessante. Na altura nem havia blogs (em Portugal – se não estou em erro haveria apenas um, e falo de cor, seria um blog de António Granado, mas não estou certo) e como tal seria mais fácil apanhar os arquivos audiovisuais e de imprensa escrita – os blogs apagam-se, desaparece imensa coisa, e a questão do arquivo blogal e face/tuiristico terá muito para dizer, mas não aqui.

            Acima de tudo seria muito interessante perceber as entrelinhas. Pois as pessoas com algum estatuto social, e particularmente político, não afixavam o regozijo devido à mortandade. Mas que ele em tantos casos transpirou, caramba, isso é verdade.

          2. Em 2001 ainda não havia blogs (creio que o primeiro boom em Portugal aconteceu em 2003), mas havia o MSN Messenger, fóruns e outros canais de comunicação, onde se passavam verdadeiras batalhas campais de prós e contras do papel dos americanos no mundo.

            Isabel

          3. Pois, Isabel, esse mundo passou-me completamente ao lado, nunca o conheci. Mas tem toda a razão em lembrá-lo. E perdeu-se, ao que julgo, totalmente apagado. Para quem tenha apreço pelos arquivos é muito de lamentar. E julgo que este mundo blog/redes sociais passará pelo mesmo, ao sabor das derivas empresariais. Fazer história será, paradoxalmente nesta era tecnológica, mais difícil

  7. No 11 de Setembro estava a almoçar com um colega professor que até admirava — e ele chama-me a atenção para o que estava a dar na TV. Deve ser o Bin Laden disse. Depois riu-se (porque os americanos mereciam)

    A partir desse dia deixei de me imaginar como uma pessoa vagamente de esquerda e um gajo porreiro e comecei a detestar toda essa gente que se diz humanista e defensora da liberdade mas que são uns cínicos de merda e preferiam viver subjugados pelo estado e pela moral colectiva (porque eles merecem).

    1. Nem mais. A quantidade de “bem-pensantes” que na altura apareceram a matizar a crueldade insana do acontecido foi enorme. Mal comparado lembro-me de quando voltei a Portugal ter acontecido o atentado à Charlie Hebdo e ter visto uma série de gente, alguma da qual eu conhecia pessoalmente, intelectuais renomados na praça, a aplaudirem um texto execrável de Leonardo Boff, exigindo o fim do direito à blasfémia e assim “contextualizando” de modo compreensivo o vil assassinato. Um ou outro ficaram ofendidos com a minha reacção – “ressentido” chamaram-me os energúmenos. Todos eles ex-comunistas, daqueles que com Gorbatchov tinham passado ao BE ou ao PS. Onde habitam entretanto, nas benesses.

  8. Não me apercebi da extensão,da novidade e imprevisibilidade do que acontecera.
    Eu chegava do almoço-em-pé diário, pergunta-me a chefe–Já ouviste que há aviões a chocar com os arranha-céus,nos EUA?—Algum erro de navegação disse eu.–Não,não, são vários e parece que ao mesmo tempo.—Pensei alto:–Não me diga que os EUA estão a implodir. Nesse momento o transistor ligado noticiava que o notório Stockausen se regozijara com o desmoronar ianque.– Não há dúvida chefe,estão a implodir.
    Só à noite,em casa,a profusão de notícias me baralhou o juízo.Fora algo impensável,imprevisível,vasto de destruição,a abalar a minha crença na estabilidade diária e ocidental,vindo do exterior. A partir daí nunca mais eu poderia atravessar as gares,os hipermercados,assistir a espectáculos,usar transportes colectivos sem um persistente temor de que algo acontecesse.

  9. Estava no escritório a trabalhar. Telefonou-me a minha mãe (que tinha televisão na sala de espera do seu local de trabalho) a dizer que um avião dos bombeiros de NY tinha embatido numa das torres e que havia um grande incêndio.
    Tentei aceder à página on-line da CNN e não consegui. A internet estava completamente bloqueada.
    A minha mãe volta a telefonar, com a informação corrigida, um segundo avião atingira a segunda torre e eram dois aviões comerciais.
    Subitamente, bate à porta do meu gabinete o meu vizinho de trabalho. Um contabilista muito reservado, que me veio dar conta das notícias que estava a ouvir na rádio.
    Com a internet “entupida” e sem conseguir mais notícias, fiz-me de convidada no gabinete vizinho e ficamos a ouvir as notícias na radio até cair o terceiro avião no pentágono. Resolvi ir para casa, seguir a CNN. Entretanto, lembro-me de evacuarem a torre de montparnasse em Paris e a city em Londres. Temia-se um ataque também na Europa.
    O resto do dia foi passado em frente à TV num misto de horror e incredibilidade. Um golpe de um génio maléfico que, em minutos mudou o mundo.

    1. Ficámos todos de cara à banda. Depois, umas horas depois, começaram os bem-pensantes a resmungar que se fosse … (algures) não teríamos tido tanta preocupação. Faz-me lembrar uns anos depois, o atentado de Atocha. Já havia blogs. Ainda as ambulâncias dos nossos vizinhos percorriam as ruas de Madrid já havia então-bloquistas, depois deputados socratistas e agora mui ciosos dos direitos dos afrodescendentes e homoqualquer coisa, a invectivar os ganhos que Aznar teria com aquilo, dada a proximidade das eleições. É esta gente – Jugular, prostituída – que tem espaço na sociedade portuguesa.

    2. Acho que essa ideia de que o mundo mudou é um bocado um chavão jornalístico (que moldou a percepção das pessoas). O que aconteceu foi que se verificou que a Internet (ou o internacionalismo personificado em tipos como Clinton e Obama) afinal não podem mudar o mundo e que a colonização do ocidente pela moral de esquerda se tornou efectiva (coisa aliás planeada pelo regime soviético nos anos 60 com a escolarização de milhares de jornalistas ocidentais na Roménia e noutros países satélite do mesmo género — onde se ensinava a propagação de notícias pelos gabinetes de imprensa a partir de uma base matricial)

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