James Franco foi acusado de quê? Violet Paley (actriz de Pink Zone e Sex, Drogs, Rock & Roll) acusa-o de ter sido obrigada a fazer-lhe sexo oral e a mensagem no twitter reza assim: «Remember the time you pushed my head down in a car towards your exposed penis…» Violet Paley não está sozinha nas suas acusações. A ela juntou-se Sarah Tither-Kaplan (The Pink House) que acusa James Franco de só lhe ter pago cem dólares diários para cenas de nu integral. Bom, Sarah Tither-Kaplan assinou um contrato, aceitou as condições e agora, à luz do movimento acusa James Franco de a ter discriminado do ponto de vista salarial e de lhe ter dito que tendo assinado o contrato, pois está tudo bem.
Não sei muito bem como reagir a isto, ou melhor, sei: este tipo de acusações serve para minar uma acção colectiva de mérito que é necessária, crucial e só peca pelo atraso em fazer-se ouvir.
Violet Paley não foi à polícia, não abriu boca quando o escândalo Harvey Weinstein deu origem a uma série de acusações frontais de várias actrizes contra actores, produtores, realizadores. Ficou calada. James Franco recebe o prémio e Violet Paley aparece com o seu tweet. Não se compreende as circunstâncias em que estava, porque carga de água é que o pénis de James Franco estava fora das cuecas e das calças e como é que foi obrigada.
Algumas denúncias e acusações, mesmo que justas, perdem força e legitimidade por não serem pensadas convenientemente e este rol de acusações enfraquece o movimento e toda uma causa que, como se sabe, é justa e universal. As mulheres são alvo de assédio, são discriminadas e abusadas. É um facto. Apontar o dedo é, por isso, importante, mas como fazê-lo? Desta forma, ajuda quem? O moralismo que sagra em Hollywood é perturbador por não sabermos exactamente qual é a fronteira que define os actos. O que para A é assédio, para B é sedução? Pois, acontece.
Num momento em que já existem aplicações para smartphones para gravar consentimentos prévios para a continuidade de relações sexuais, evitando posteriores acusações, a sexualidade está em perigo. A sua vivência é cada vez mais complexa. Como gerir tudo isto?
Vejo um filme, que recomendo, e que estará aí a estrear Call Me By Your Name de Luca Guadgnino com Armie Hammer e Timothée Chalamet. Dentro dos parâmetros norte-americanos, a história será definida deste modo: uma história de pedofilia e de consentimento dos pais no processo. Um dos personagens tem 17 anos, o outro terá mais de trinta. É uma história de amor. Belíssima história de amor. Não tendo o jovem a maioridade prevista na lei, em que ficamos? Continuo na minha: cada caso é um caso, a sexualidade não prevista na lei não deixa de ser sexualidade e essa, felizmente, é uma das características maravilhosas do ser humano. Ou já não será?
Gera-se à volta de todas estas questões muito burburinho e há quem afirme convictamente que o que importa é a denúncia. Os tweets fazem-me lembrar os posters nas comunidades chinesas durante a revolução cultural, tudo é possível, tudo é público e um colectivo acusador tem mais força do que uma acusado. Um movimento deste calibre, de protecção às mulheres, de dignidade e com dignidade não merece ser minado por fundamentalismos e outras acções menos pensadas.
Posto isto, talvez Violet Paley e Sarah Tither-Kaplan estejam cheias de razão e James Franco seja um abusador, discriminador e capaz do pior. Se for o caso, pois que sofra as consequência, mas Hollywood precisa de se organizar na forma como dará continuidade a este movimento, porque a verdade é que é demasiado importante para ser destruído com gestos desnecessários. É demasiado importante para o mundo inteiro, porque todas as mulheres, jovens e crianças têm os olhos postos em Hollywood por uma razão ou outra.
Não nos podemos dar ao luxo de estragar o que foi conquistado com tanta dificuldade, tanto ao nível da denúncia como ao nível da vivência da sexualidade. É preciso ter e assumir as causas de forma responsável.

“Um dos personagens tem 17 anos, o outro terá mais de trinta.”
A idade do consentimento em Itália (onde decorre o filme) é 14 anos, pelo que não há qualquer crime. Até na maioria dos estados americanos a idade do consentimento é de 16 ou 17 anos, pelo que nem por lá o homem mais velho na relação estaria a cometer alguma ilegalidade, até porque é óbvio que há consentimento.
Os casos de denúncia de assédio sexual nos EUA tratam-se disso mesmo: assédio. Não há consentimento. Não se trata de uma relação consentida entre uma pessoa quase adulta e uma pessoa adulta. Trata-se de assédio, independentemente das idades dos envolvidos.
Pessoas que sofreram assédio sexual merecem a nossa solidariedade, não que lhes chamemos de mentirosas ou que façamos os julgamentos do costume.
Pessoas que sofreram assédio sexual
Sabe-se lá se sofreram. Elas dizem que sofreram, mas será verdade? Alguém viu e pode confirmar? Não será que elas inventaram?
É verdade que há homens maus que assediam mulheres. Mas também há mulheres más que difamam homens.
Sarah Tither-Kaplan acusa James Franco de só lhe ter pago cem dólares diários para cenas de nu integral
Por detrás destas acusações, tipicamente norte-americanas, está em geral a vontade de to sue</i> – colocar um processo em tribunal, que mais tarde se retirará em troca de uma choruda indemnização monetária.
Ou seja, trata-se sempre, em última análise, de uma questão financeira. Não se trata de uma questão sexual comportamental, trata-se apenas de uma forma de extrair uma compensação financeira.
Em última análise, trata-se de prostitutas, que estão dispostas a fazer o que se queira desde que lhes paguem o suficiente. Pode ser nu integral ou sexo oral, o que é preciso é que o homem pague. Bem.
Parecem-me dois casos distintos Patrícia. O mais simples: das cenas de nu integral. A actriz pode perfeitamente queixar-se de ter sido mal paga, mas se não apresentar no mínimo dos mínimos uma acusação de coacção para assinar esse contrato, este assunto não merece sequer discussão no tema “assédio” (embora pertença possivelmente à categoria de “fosso salarial”).
O caso da actriz que refere o sexo oral, aqui a história é outra. Assumamos por um momento que sim, que ela foi forçada a fazer sexo oral. Eu não faço qualquer juízo de valor sobre o tempo que passou entre o acto e a denúncia. Basta ler informação sobre vítimas de agressões sexuais para saber que o trauma pode demorar muito tempo a ser ultrapassado e que as vítimas (homens ou mulheres) podem passar imenso tempo a tentar aceitar o que aconteceu e que a culpa não é delas.
Podemos conjecturar muitos cenários para o atraso: medo, culpa, vergonha, incerteza, etc. Pode ser que ela tenha passado por aconselhamento psicológico e só agora consiga falar sobre o assunto. Pode ser que só o consiga fazer porque viu esta onda e se sente apoiada, protegida. Pode haver múltiplas razões para o atraso na denúncia. A denúncia também pode ter surgido apenas porque ela sentiu fúria ao ver alguém que a agrediu sexualmente a receber um prémio e a ser festejado pelos seus pares.
Agora dois outros cenários:
– ela não foi obrigada a nada. Fez tudo isso de vontade própria e agora só está a tentar procurar ganhar uns cobres ou conseguir fama.
– ela não queria ter qualquer relação sexual com Franco mas devido a falta de comunicação clara (leiam a história Cat People que anda a correr o mundo) ele não se apercebeu e ela acabou por aquiescer. Neste caso ele fez algo que ela não queria mas não tinha legitimamente como o saber.
O primeiro caso é um abuso e Franco tem como responder (negação, processos, exigência de provas, etc). O segundo é um mal-entendido e pode ser resolvido com uma conversa e pedidos de desculpa – privados.
Mas lembro uma outra história. Um realizador que há muito tempo teve sexo com uma rapariga de 14 anos numa festa. Foi condenado por violação e não pode entrar nos EUA. Aqui há uns anos recebeu um oscar. Que eu saiba ainda não pediu desculpa. E que aconteceu à rapariga?