O mundo insondável do futebol é isso mesmo, insondável. Para quem como eu continua a ver vinte e dois vestidos de cor diferente, é certo, mas ainda assim vinte e dois homens a correr atrás de uma bola, sem grande noção de passes, trivelas e outros truques de magia, o futebol é um mundo hermético. Um universo cheio de subtilezas mau grado a virilidade dos rapazes, prenhe de códigos a serem decifrados e dotado de uma linguagem muito própria. Acresce a tudo isto um código de conduta estranho onde dar uma opinião pode ser punido sem grandes pruridos, atitude que se transferida para uma outra esfera social seria assunto para uma infinidade de posts, acusações, refilanços, vozes que se ergueriam gritando Delito de opinião! No futebol não. É proibido criticar o mister, ou lá como chamam os senhores da bola, os guardiães da rapaziada, os feiticeiros das técnicas e tácticas. Assim sendo quem ousa proferir aquilo que para mim seria um reparo no mundo do futebol é um crime de lesa-mister. Os rapazes calam-se tementes. E depois há as entrelinhas. As ‘bocas’ que são mandadas para o balneário, esse mundo oculto onde, ao que parece, muito se passa e onde para mim se reúne a rapaziada em trajos menores.
Mas o que me traz aqui foi fruto da observação directa, pura observação dos misters que se me entram pela casa fora de vez em quando. De norte a sul, os misters são rapazes carrancudos a quem raramente se vislumbra um sorriso. Quer ganhem quer percam têm quase sempre o sobrolho franzido, uma carranca de poucos amigos, um ar de enfado e respondem às perguntas com esgares condoídos. É preciso mostrarem sempre aquelas caras? Estão zangados com o mundo? O futebol dói?

Ah pois dói, e muito. Agora é muito bem observado que há quem queira fazer dele uma ciência cabalística, quando, ao fim do dia, é tudo uma questão de saber dar chutos numa bola.
A sério? Pois a mim parece-me uma coisa muito complicada 🙂
Passo a citar citando: «Gosto também nestas ocasiões de citar esta passagem do Umberto Eco:
“…pedi várias vezes ao meu pai, equilibrado mas constante adepto, que me levasse consigo a ver o desafio. E um dia, quando observava com distanciação os insensatos movimentos lá em baixo no campo, senti como se o sol alto do meio-dia envolvesse com uma luz enregeladora homens e coisas, e como se diante dos meus olhos se desenrolasse uma representação cósmica sem sentido. Era aquilo que mais tarde, lendo Ottiero Ottieri descobriria como o sentimento da “irrealidade quotidiana”, mas, então, tinha treze anos e traduzi a meu modo: pela primeira vez duvidei da existência de Deus e considerei que o mundo era uma ficção sem objectivo. …”
em O MUNDIAL E AS SUAS POMPAS, escrito por Umberto Eco em 1978, inserido no livro “Viagem na Irrealidade Quotidiana”.»
daqui: “http://imagenscomtexto.blogspot.com/201 0/06/o-sentido-da-vida.html”
Muito bem.
Não estou só, portanto. Tenho uma citação para a troca mas no sentido contrário:
“‘I fell in love with football as I was later to fall in love with women: suddenly, inexplicably, uncritically, giving no thought to the pain or disruption it would bring with it’.
Nick Hornby
O Amor é difícil (para não usar outra palavra).
O Miguel Esteves Cardoso também acha 🙂
Até para um católico é demais ouvir a palavra de Jesus a toda a hora.
Falei em Jesus?
Ele está em todo o lado.
No meio de nós, salvo seja?
Belo texto. O mais fascinante, para mim, é aquele léxico delirante e encriptado que eles usam para transformar uma coisa básica numa ciência transcendente.
Mas há uma coisa que tenho de reconhecer: o futebol consegue o milagre de anular diferenças sociais, políticas e religiosas, e fazer de pessoas que nada têm em comum verdadeiros gémeos siameses. É obra.
Encriptado, dizes bem. É isso que ao mesmo tempo acho piada.
Anula as diferenças, Ana, porque a diferença dos clubes e da clubite se sobrepõe a todas as outras, tornando-se a mais importante.
O mais encriptado não é míster. É jornalista. Um dia destes vou dedicar-lhe um textinho por aqui. Dedicado à Leonor, por antecipação.
Obrigada antecipadamente 🙂