Como bem sabem os aficionados, nem todos os touros são mortos nas arenas onde é permitido matar. Os animais que revelam excepcional bravura são poupados. Não se trata de um acto de misericórdia, mas apenas de um processo de selecção dos exemplares mais bravios para futura reprodução.
O El Mundo publicou há dias um artigo sobre Ingrato, um touro de 530 quilos que foi indultado na arena de Nimes, no sul de França. Quem aprendeu a assimilar esta cultura feita de elipses, desde logo a que elimina a consciência do sofrimento dos animais que fazem a festa, dificilmente terá passado dos primeiros parágrafos.
Neste artigo conta-se que durante a corrida Ingrato perdeu 25 quilos e que dias depois, quando regressou a “casa”, em Sevilha, já teria abatido mais 50. Nova viagem na camioneta que o transportara anteriormente para a arena ter-lhe-á despertado tal pavor que deixou de comer. Mas bebia. Bebia compulsivamente devido à desidratação sofrida durante o toureio, provocada pela intensa sudação que o stress e o sofrimento lhe induziram e também porque lhe subiu a febre aos 43 graus.
Dos ferimentos que resultaram da lide, dois apresentavam-se particularmente fundos, com 35 cm e 22 cm. Os que foram provocados pelas seis bandarilhas que lhe espetaram tinham “apenas” 10 cm cada. Ingrato foi sujeito a tratamentos com antibióticos e desinfectantes. Tantos cuidados têm um único objectivo, o de lhe enfiarem no recto um tubo até à próstata assim que estiver em condições. Esse tubo, ligado a uma bateria eléctrica, disparará pequenas descargas por forma a induzir-lhe uma ejaculação. O sémen recolhido será depois enviado para análise. Se o trauma da “festa” não lhe tiver afectado a fertilidade, então sim, poderá gozar mais uns anos de vida na companhia de meia dúzia de fêmeas simpáticas e bem parecidas.
Ingrato será, assim esperam os criadores, replicado em toda a sua pujança, assegurando uma estirpe que mais tarde lutará desesperadamente pela vida no meio dos gritos e das palmas de gente que sabe apreciar a beleza de uma chicuelina. Gente que sabe preservar as tradições porque partilha com os nossos ancestrais a paixão pelas lutas de morte e rituais de sangue. Gente que ferve quando assiste ao jogo sensual do predador a brincar com a presa e partilha com deleite o silêncio religioso que precede o momento do sacrifício da vítima.
A bravura do toureiro que encarna, no seu traje de luces, a superioridade da raça humana é o espectáculo. Que adrenalina vê-lo aos poucos a vergar a besta, a estocá-la com elegância e requinte. Quanta testosterona em cada farpa. Algumas penetram fundo no lombo. Há golpes que chegam aos 35 cm de profundidade, se calhar até mais. É sublime esta catarse colectiva, não é? Olé!


Horrível tudo o que é descrito neste post.
Só uma pergunta: se as bandarilhas produziram feridas de 10 cm, então o que produziu as feridas de 22 e 35 cm?
Nas lides em Espanha os toiros são picados, a chamada sorte de varas.
Algo não confere na história. A corrida onde José Tomás indultou o toiro de nome ingrato foi realizada a 16-09-2012. nem um mês ainda passou… fui ao elmundo e não consegui descobrir esse artigo. Pode indicar o link?
Obrigado Teresa.
Tiago, eu vi este artigo em papel e creio que não há link para ele, pois saiu num suplemento de domingo. Mas deixo-lhe aqui os dados: saiu no dia 30 de Setembro e o título é: “Así se cura a un toro salvado de la muerte”.
Quanto às datas, foi lapso meu, resultado de uma leitura apressada. Os 120 dias são o tempo que vai passar até à data em que se pretende fazer a electroejaculação, a 13 de Janeiro. Vou já corrigir. A lide foi feita, efectivamente, a 16 de Setembro.
Imagino como é que no contexto actual, você vai buscar a estória do touro valente…
Tourada, essa catarse que ao mesmo tempo é sátira social.
Grande besta!
Por mim as touradas acabavam já hoje.
Só me ocorre dizer – Filhos da Puta com todas as letras!!
o seu texto, primorosamente bem escrito, é um dos melhores que já li sobre a barbaridade que é este pretenso espectáculo. No dia do Animal, tantos dias se comemoram que já tudo se esvazia, é um texto que é uma farpa com mais de 35 cm … partilharei nas redes sociais e tenho por si o maior respeito
Obrigada, Marta.
AH, GRANDE TERESA!!!

Excelente post! Vou “roubar”, se permitir,,,
O post é todo seu 🙂
Muito bom!!!
“Viver para contá-la”, escreveu García Márquez. “Sentir para escrevê-lo”, poderia dizer-se relativamente a este texto.
Quem sou eu, ligeiramente adepto das touradas, apesar de leigo (ou diria aficionado…), para negar a componente bárbara deste espectáculo.
Parece que na Califórnia se protege o dorso do touro com uma almofada de velcro da cor da pele do animal, para evitar o sangramento.
Mas as touradas não são propriamente massacres, uma vez que os toureiros, por vezes, também sofrem acidentes gravíssimos e até mortais.
Os forcados, então, levam pancada até mais não…
Seja como for, os seres humanos são os animais mais cruéis, destrutivos e gananciosos que a Natureza criou. Nenhum outro animal, para além do Homem, passa fome nas condições naturais de vida. A fome é possível, sim, em caso de doença, ferimento grave ou catástrofe natural, mas nunca, como no caso dos humanos, acontece haver alguns (muitos!) a passarem fome e outros a morrerem com excesso de fartura, passe o pleonasmo.
Enquanto os homens matarem outros homens por causa do poder e do dinheiro, enquanto os homens criarem animais em espaços minúsculos para depois os comerem, enquanto os homens exibirem animais em jaulas para seu prazer pessoal, hei-de sempre considerar que a questão das touradas é secundária.
http://o-estado-a-que-chegamos.blogs.sa po.pt/30393.html
Mário, gostei muito de ler o seu comentário, mas permita-me chamar-lhe a atenção para um aspeto: sim, muitos toureiros sofrem ferimentos gravíssimos, até mortais, e admito que os forcados, ainda assim, são os mais “honestos”, pois enfrentam o touro de mãos vazias. Mas lembre-se sempre de que os toureiros e os forcados estão ali voluntariamente, seja o que for que os mova. Eles têm a escolha e escolhem tourear!
O touro não! É posto ali e obrigado a aguentar o que lhe fazem. Não está ali voluntariamente, não teve escolha! E é legítimo que se defenda, quando se sente ameaçado.
Teresa, eu não nego aos touros o direito de se defenderem. Aliás, a questão da legitimidade nem se põe relativamente ao comportamento dos animais, uma vez que estes agem como manda o seu instinto.
Quanto a não terem escolha, essa evidência também se pode aplicar a todos os outros animais que são domesticados ou que não vivem no seu ambiente natural.
A mim o que mais me custa é ver as condições em que as galinhas (sobre)vivem em aviários, ou os porcos em pecuárias, amontoados, cheios de antibióticos para não serem atacados pelas doenças, com as luzes acesas 24 horas por dia para comerem e engordarem mais depressa, para depois as pessoas os comerem. Também me custa ver a pesca feita pelos arrastões que destroem ecossistemas inteiros e deitam fora grande parte da sua carga, por “não prestar”. Ou a pesca ilegal de baleias feita pelos noruegueses e japoneses, supostamente para “fins científicos”. Ou os derrames de petróleo que matam milhares de peixes e aves, provocados pela ânsia de lucro das petrolíferas. Ou a chacina de elefantes, rinocerontes e tigres, porque há pessoas que acreditam que os respectivos dentes, chifres e testículos têm efeitos curativos ou afrodisíacos. Ou os incêndios florestais que ocorrem nos países mediterrânicos por incúria das autoridades e que dizimam os ecossistemas de milhões de plantas e animais.
O que são as touradas ao pé de tudo isto? Se houver 250 touradas por ano em Portugal, com seis touros cada uma, temos cerca de 1500 animais castigados e mortos como consequência.
Compare-se estes números com os cerca de 400 mil porcos que existem em pecuárias, só no distrito de Leiria. Ou com os milhões de frangos, patos, perus ou coelhos que existem por esse país fora…
Os touros passam por uns 10 ou 15 minutos de algum sofrimento na praça, a que se tem que somar as horas seguintes, até serem mortos. Mas os quatro ou cinco anos que estes animais vivem são gozados em total liberdade, em campos vastos e com alimentação garantida. Em condições, portanto, que a esmagadora maioria dos animais que as pessoas adoram comer nem sonham, se é que tal é possível a animais irracionais…
Como quem não quer a coisa (mas sempre a querê-la…), realço ainda a diferença entre as corridas portuguesas e as outras, em que se matam os animais na praça e se lhes cortam orelhas e rabos…
É ainda uma actividade que dá emprego a centenas de pessoas e movimenta milhões de euros, o que não é despiciendo nesta altura de crise.
Sendo a Teresa uma ilustre escritora, será certamente sensível também às questões culturais que estão por detrás deste fenómeno e que não nos possibilitam bani-lo, pura e simplesmente, de um dia para o outro. As touradas morrerão por si mesmas, pela simples razão de que cada vez há menos gente aficionada. Não me parece é que valha a pena alimentar mais esta polémica, num pobre país já tão martirizado por tantos e tantos erros e desumanidades que prejudicam sempre os mais fracos e humildes.
Digo eu…
Caro Mário, trata-me por “Teresa”, o que também não está mal, pois chamo-me Teresa Cristina. Mas não sou a autora do post (para o caso de nos ter confundido 😉
Os animais domésticos também não escolheram o seu destino, é verdade. Mas há uma certa diferença entre amar um animal e proporcionar-lhe uma vida confortável e incutir-lhe sofrimento. Sei que há quem pense que os animais devem viver na natureza e tudo o resto será sacrifício para eles. Mas olhe que não é verdade. Cães e gatos, principalmente, têm uma capacidade enorme de adaptação, criam laços emocionais com a sua “família” humana e são felizes. Sei por experiência própria, basta olhar-lhe para os olhos. Também nos animais os olhos são o espelho da alma 😉
Quanto ao resto, concordo consigo. Só não acho que se possa comparar: 1500 touros castigados ou mortos por ano, depois de alguns anos em liberdade, em relação aos milhões de animais a viverem em condições indignas, a fim de servirem para a nossa alimentação. Isto é semelhante aos seres humanos: cada caso é um caso e cada vida salva é uma vitória.
Mas concordo inteiramente: é uma vergonha o que se passa nas pecuárias e nos aviários. Uma solução seria comer menos carne (muito menos), talvez assim contribuíssemos para que mais animais tivessem direito a melhores condições de vida.
É tudo um negócio, sem dúvida, há muito dinheiro em jogo.
Peço desculpa por lhe ter chamado Teresa, ainda por cima duas vezes, mas não foi por a ter confundido com a autora do post, foi simplesmente uma falha da minha parte, nem sei porquê.
Vamos então esperar que um dia a vida de tantos animais (e pessoas…) por esse mundo fora possa ser bem melhor.
Como se costuma dizer, a esperança é a última a morrer.
Cristina e Mário,
Ontem não vim à net e só agora pude ler o vosso estimulante e civilizado diálogo, coisa que não abunda quando o tema em discussão é a tourada. Percebo o seu ponto de vista, Mário. Trocou a dada altura o nome da Cristina pelo meu – já gora, deixe-me esclarecê-lo que embora gostasse muito não sou escritora e muito menos ilustre – o que teve graça só porque ao ler as respostas da Cristina senti que aquelas palavras podiam ser minhas.
Não vou, pois, acrescentar muito à discussão, apenas chamar a atenção para uma diferença que não é dispicienda entre os maus tratos infligidos a animais para consumo alimentar e os que os touros sofrem na praça. É que no último caso o objectivo é puramente lúdico e isso é o que mais me choca.
Admito que nunca senti grande empatia pela tauromania, nem mesmo pelos que são contra… aliás, talvez o meu sentimento pelos fervorosos que são contra até seja mais que simples e pura apatia – ganhando alguns laivos de desdém. Faz-me sempre pensar em algo que andou com uma fama viral pelas redes sociais. (Se me permitirem o indirecto marketing: http://tinyurl.com/99cnacq)
De qualquer forma, ultrapassando o desabafo, e caso tenham curiosidade, aqui fica um link onde falam da condição mais recente do animal assim como dos tratamentos que têm sido feitos: http://veterinariostaurinos.blogspot.pt/2 012/10/asi-se-cura-un-toro-indultado-de-l a.html
Esse link não funciona…
Mário, experimentei os links e ambos funcionam.
Agora sim. Obrigado.
Excelente, Teresa. Um Olé! para ti, pela qualidade do texto e pelas verdades sem papas na língua. Não há réplica a isto, por muita imaginação ou cegueira que tenha um aficionado. Se pudesse ler-te, o Ingrato havia de ficar-te grato por estas palavras.
Obrigada, Ana. Este elogio vindo de ti tem mais valor, porque lembro-me que já assumiste aqui que não és indiferente à estética e cultura da “fiesta”. Toquei portanto na tua má consciência. Ehehe! É um começo…
Não é um começo, Teresa. Como ribatejana, nasci e fui criada nesse ambiente. É natural que a “fiesta” não me seja indiferente, mas há muito tempo que me rendi à evidência da barbaridade que representa uma espécie animal criada exclusivamente para o sacrifício e para a morte. Não há argumento racional que sustente um gosto tão primário. Além disso, há muitos aspectos dessa “cultura” que eu simplesmente abomino, como o machismo e o conservadorismo extremo, por exemplo. Nada disso tem que ver comigo. Assumo o anacronismo de um prazer estético e emocional que não tenho forma de encaixar na minha maneira de ser. Ninguém é perfeito… 🙂
Mas a tua honestidade intelectual está próxima da perfeição, Ana.
Obrigada, amiga. Há que assumir as nossas imperfeições, que são mais do que muitas. Procuro fazer esse exercício e acho-o muito saudável. 🙂
Sou um adepto da tourada. Encanta-me a fiesta, como encantou a Lorca, Hemingway e Picasso. Mas não deixo de tirar o chapéu à autora deste texto, apesar de contrário ao meu gosto. É uma argumentação inteligente e muito bem colocada e cheia de ironia.
Olé.
Xico, repito o que acabei de responder à Ana Vidal agora mesmo. Olé também para si 🙂
“Mas há uma certa diferença entre amar um animal e proporcionar-lhe uma vida confortável e incutir-lhe sofrimento. “
Isto simplesmente é uma frase oca, vale o que vale.
As pessoas têm animais domésticos por qualquer razão, e a maioria das vezes não é para “amar um animal”. Porque as pessoas estão solitárias e o pobre bicho serve de substituição. Porque a filha de 5 anos fez birra e assim a cala de vez. Porque é um brinquedo novo, agora que o papá ofereceu um Porsche e já não havia mais nada para oferecer. Porque precisa de alguém com quem refilar, agora que o marido morreu. Porque precisa que ladrem aos vizinhos. Para impressionar uma rapariga (e vice-versa).
Como alguém costuma dizer, “até para ser animal doméstico é preciso ter sorte”, tantas são as vezes que se vêm animais a levar uma “palmadinha” por excesso de zelo instintivo…
Mais de 10 mil (!) animais domésticos são abandonados todos os anos em Portugal. É claro que a maioria deles têm marcas de maus-tratos. São sempre os primeiros a serem descartados das famílias. Isto é um problema gravíssimo. Muito mais grave do que as touradas.
Alguém se preocupa com o abandono e a falta de controlo dos animais domésticos? é claro que não… não é assunto visível, logo não conta.
Comparar o sofrimento dos touros nas corridas com o dos animais domésticos que são abandonados tem um objectivo, o de relativizar as coisas para aliviar a má consciência. Trata-se de uma táctica velha e gasta que, para usar uma expressão a que recorreu, “vale o que vale”.
Mas deixe-me dizer-lhe que concordo consigo quando afirma que o abandono de animais domésticos é “um problema gravíssimo, muito mais grave que o das touradas”.
Quanto à última observação que fez, não me atinge. Já trouxe esse problema aqui, mais do que uma vez. E quando quero adoptar um animal, não vou à loja, escolho um que tenha sido abandonado.
O seu texto está muito bom e muito mais incisivo do que este meu, que mesmo assim talvez lhe interesse: http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2010/1 0/o-touro-lagosta-e-o-templo-jain-de.htm l
Gostei muito de visitar por seu intermédio aquele maravilhoso templo, esculpido e construído como um monumento à paz entre todos os seres vivos. E partilho as suas reticências sobre as lagostas 🙂 Obrigada.