Obras


José Meireles Graça,

Há quase dois anos que no entorno da minha casa, à margem do que já foi uma estrada e é hoje um arruamento com um aldeamento fino de macacos de um dos lados, e vivendas de projecto canhestro do outro, decorrem obras. Consistem elas na construção de passeios onde os não havia (uma necessidade), e repavimentação com o tradicional cuidado de as tampas de saneamento raramente ficarem à face, além de triângulozinhos limitados por pedra trabalhada, e jardinzinhos minúsculos, tudo segundo critérios que o projectista haverá de conhecer e algum labrego aprovou.

Ou talvez não, porque a razão pela qual o piso, em determinado troço, era de alcatrão (e já fora, há uns quarenta anos, em paralelepípedos) passou agora a cubos, que de repente desaparecem para passar novamente a alcatrão; e porque os passeios têm uma tipologia aqui, cómoda, e outra, incómoda, ali – a tal razão é decerto do tipo daquela que figura nos catálogos das exposições de artes plásticas: paleio de chacha pedante em mau português, significando nada.

Não procurei saber o custo da obra – com certeza, por envolver uma grande quantidade de trabalhadores e maquinaria pesada há tanto tempo, de larguíssimos milhões.

Ou seja, em nome do reconhecimento de que a antiga estrada já não o é, e da construção de uns passeios, está-se a torrar uma imensidão de fundos em arrebiques cuja utilidade é medíocre.

Os locais acham que está a ficar tudo muito bonito. E a nenhum ocorre que é enquanto contribuintes que ajudam a pagar a festa, mesmo que o grosso da despesa seja suportada pelo contribuinte líquido europeu, que tem às costas o fardo dos homens do sul.

A despesa da obra. Porque a manutenção ficará a cargo do município e, aparentemente, a perspectiva de um imenso esquadrão de gente, de joelhos, a tirar e pôr florzinhas, deve ser vista como uma coisa positiva – sempre são postos de trabalho no sítio certo, isto é, no Estado, que como é geralmente sabido tem recursos próprios que não vêm dos impostos.

Este exemplo comezinho de gestão municipal é o que há por todo o país: Equipamentos de utilidade pública sem nenhuma espécie de análise de custo/benefício, obras faraónicas, um discurso de penúria por parte dos autarcas, mas recursos como nunca se viu.

Há por aí uns estudos sábios feitos por economistas (uma classe de pessoas que se dedica a provar matematicamente que os seus preconceitos estão certos) que demonstram que a gestão municipal é mais eficiente do que a do Estado central. Não duvido nada, mas apenas no sentido de que o Estado central ainda é pior, pelo que a prudência aconselharia que não se juntasse a fome com a vontade de comer.

E de corrupção é bom nem falar porque, com a divulgação de casos, vão-se apurando os processos: alguém alguma vez foi ver se a velocidade de aprovação de licenciamentos é a mesma para todos os gabinetes de arquitectura, sejam ou não da terra – por exemplo? Ou como são preenchidos os quadros dirigentes das empresas municipais? Ou, ou, ou?

De modo que a transferência de competências, que foi a forma encontrada para ultrapassar o referendo da regionalização, é bom de ver que não será acompanhada de uma diminuição dos quadros de pessoal central. E, em que pese aos meus amigos liberais, a ideia de uma maior eficiência como consequência da proximidade é apenas isso: uma ideia razoabilíssima no papel, mas que, iluminada pelos nossos hábitos culturais e tradições, se limitará a multiplicar a corrupção, a despesa pública e os lugares de gestão para políticos hábeis tanto mais a gerir carreiras quanto ineptos para administrar até mesmo um minimercado. Há dessa variedade em Lisboa? Há e são demais. Mas os municípios são 308 e freguesias mais de 3000.

E então eu, que tal, estou satisfeito com as obras que alindaram a entrada para o meu caminho? Estou. O diabo é o IMI.

20 comentários em “Obras”

  1. Meu caro, não lhe servirá de consolo saber que é assim por todo o País.
    Hoje, escrever a toponímia de uma freguesia rural de Braga é mais complicado do o mesmo para uma cidade qualquer.
    Cumprimentos

    1. É. Chamam-se tipicamente “União das Freguesias de A, B, C e D”.
      Era muito mais simples deixarem-se de nomes e simplesmente numerar as freguesias. Charmar-se-iam “freguesia 1 de Braga”, “freguesia 2 de Braga”, etc.

  2. Sem passar do primeiro parágrafo, só me apraz confirmar: labregos há muitos, por isso, cada labrego no seu galho.

  3. Pode-se chamar a este “Obras” escrita populuchique.
    Uma estrada, é sempre chique morar numa estrada sempre dá a ideia da ‘nossa Quinta’, que a macacada começou a sedentarizar. Que chatice e agora as obras nos passeios.
    “Os locais acham que está a ficar tudo muito bonito.”, de macacos o que é que se esperava.
    Ah! É assim por todo o país. Ao que isto chegou, já não se pode viver como deve ser sem macaca à volta.

    1. Ao contrário do que parece ter percebido, o bairro em questão é considerado dos melhores da cidade, com preços a condizer. Como porém os arruamentos são demasiado estreitos para a altura dos prédios, e não há suficientes espaços de aparcamento, é apenas uma questão de tempo até ser ultrapassado por urbanizações menos sobrecarregadas. A expressão “macacos finos” é a isso que se refere, não a um suposto elitismo de que eu padeceria. Ponha lá uma surdina nas suas expectorações igualitaristas e nos seus ressentimentos pedestres.

      1. Não perca tempo com o anónimo do costume que sempre busca encontrar expressão da estrutura de classe em que encontra o conforto de se sentir o bom-da-fita, paladino dos tadinhos, como recomenda a bíblia do Marx, essa espécie de Cerejeira ateu, que prometia o paraíso na Terra povoada do Homem Novo.

  4. Nem de propósito. Hoje mesmo vi que estão a escavacar tudo no meu bairro para inventarem mais passeios e entre-passeios a fingir não sei para quê.
    Ainda vão ter de acabar a fazer passeios para cada género sexual inventado

  5. Ah e pior. Nem se pode passar porque ocupam a rua toda. Essa é outra macacada. Sabem multar qualquer condomínio que faça obras e os tipos não tenham o tamanho de lei para deixar 80 cms para se passar ou merdoquices ainda maiores .E é logo brutas multas de várias dezenas.
    Quando são eles é a palhaçada de ocuparem tudo com tractores e nem há espaço para os peões passarem.
    Esburacam tudo para nada.
    Não imagino o que vão fazer porque está o bairro todo cheio de avisos e separadores e vai ser tudo escavacado. E não é para ciclovia porque essa já existe.
    Na prática nem vai haver espaço para passarem autocarros, já não digo 2 carros em paralelo.

  6. Não sei qual é o problema de chamar macacos aos macacos dos vizinhos.
    Enfim… é macaquice a mais para agradar à macacada.
    Assim já não vem aí a brigada inquisitorial do politicamente correcto.

  7. Realmente deve ser frustrante uma pessoa morar ao pé da aldeia dos macacos e ter de pagar IMI. Porque é que não reclama junto do Jardim Zoológico?

    1. Vivemos numa democracia e você pode estar no blog em que bem entender — mas ó Carlos você era mais feliz no blog do Galamba.

  8. No meu concelho, o jardim fronteiro à Câmara e áreas anexas já vão na terceira renovação e no concelho vizinho foi igual. Desconfio que haviam verbas comunitárias a caducar e toca de gastar, parece que meio milhão. Neste caso, em pleno Natal, a Igreja ficou quase sem estacionamento possível e, para lá chegar, era necessário evitar os montes de terra enlameada da renovação dos passeios. Foi oportuno.
    Será o panorama geral do país, com idiossincrasias locais e, até agora, três pandemias: os urinóis logo a seguir ao 25 de Abril, as rotundas e as lombas redutoras de velocidade mais recentemente. Talvez também os jardins periféricos com equipamento lúdico-infantil, frequentados principal, quando não exclusivamente, pelos funcionários da manutenção e tendencialmente construídos em locais privilegiados, como leitos de cheias.
    A idiossincrasia local, nasceu de um calceteiro, devotamente comunista e com geração continuadora. O PC já não elege presidentes mas o PS precisa sempre de apoio comunista. Assim temos calçada à portuguesa em profusão, desde as lombas redutoras de velocidade. a passeios em que ninguém passeia, na periferia da vila e ladeando uma estrada nacional.
    Note-se que eu aprecio calçada à portuguesa em locais nobres, mas em tudo o que é sítio, é mesmo idiossincrasia. E idiossincrasia cara.

    1. Mas que raio de concelho e o vizinho que elege comunistas?
      Como é que essa gente eleitora foi morar para aí e estragar o bem estar de quem morava na estrada?
      Idiossincrasia passeios com pedrinhas, vulgo calçada à portuguesa está o país cheio, principalmente em zonas de industriais de pedreiras. p.ex. Cascais que nunca teve comunistas na vereação camarária.

      1. Errado. Nos mandatos de 2005-2009, de 2009-2013, de 2013-2017 e de 2017-2021, Cascais teve sempre um vereador da CDU. Basta procurar. Nos anteriores mandatos não sei (nem é relevante). No actual mandato 2021-2025 já não há vereador comunista. Não sei se alguém sente a falta… mas continua a fazer-se por lá muita calçada portuguesa. E lombas. Nos vícios, os edis são todos iguais, pouco depende da cor.

        Como diz o José Meireles Graça, o diabo é o IMI. Mal empregue.

        1. Presidente da Câmara de Cascais comunista?
          As lombas e pedrinhas nas ruas que chatice, em qualquer localidade dos Países Baixos as ruas e passeios são em tijolos (não têm pedreiras) e as lombas ocupam toda a área do cruzamento.

  9. A alternativa para as tampas no passeio para as velhinhas tropeçarem é as tampas no meio da estrada para os carros se partirem todos. Por acaso as câmaras ou seja lá que faz estas obras até têm variado bastante: umas vezes é nos passeios para o pessoal tropeçar, outras é a 75% para um lado numa das faixas mesmo na trajectória onde passam as rodas dos automóveis, mas nunca no sítio certo.

    1. Realmente as tampas dos colectores é uma chatice.
      A lógica do colector ser no centro da via é para apanhar o vazamento dos dois lados e as tampas ficarem mais baixas ou mais altas tem tudo a ver como vai ser posteriormente o pavimento da via. Mas nunca acertam à primeira.

  10. Junta-se a fome e a vontade de comer. Garantem-se votos, re-eleição. Atravéz de “empregos” e fundos para propaganda eleitoral.

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