Obiang? No, gracias


Pedro Correia,

Teodoro Obiang Nguema é um dos homens mais ricos do continente africano, com uma fortuna pessoal avaliada em 600 milhões de dólares. É também aquele que se encontra há mais tempo no poder em África. Dirigente supremo da Guiné Equatorial desde Agosto de 1979, ascendeu ao cargo de Presidente da República num sangrento golpe de Estado que depôs o tio, Francisco Macías Nguema, sob cujo mandato o país — ex-colónia espanhola, independente desde 1968 — passou a ser conhecido por “Auschwitz africano”.

O primeiro acto de Obiang como senhor absoluto no palácio presidencial de Malabo foi mandar executar o tio após um julgamento fantoche.

 

Apesar das receitas petrolíferas, que têm enriquecido a família do ditador, o país continua mergulhado na miséria. A Guiné Equatorial, que ocupa o terceiro posto do continente na exportação de petróleo, tem o quarto maior índice mundial de mortalidade infantil: cerca de um quinto das crianças guineenses morre antes dos cinco anos (dados da Unicef, referentes a 2009) e 70% dos seus habitantes vive na mais extrema pobreza.

O chamado Partido Democrático da Guiné Equatorial mantém-se, na prática, como partido único desta nação de língua oficial espanhola que nunca conheceu eleições democráticas. O mais recente relatório da Amnistia Internacional sobre o país, em que Obiang acumula as funções de Chefe do Estado e chefe do Governo, não deixa lugar a dúvidas: praticam-se ali detenções arbitrárias e execuções extrajudiciais. Há pelo menos um activista dos direitos humanos desaparecido.

No índice anual de liberdade de imprensa elaborado pelos Repórteres Sem Fronteiras, entre 179 países avaliados, a Guiné Equatorial ocupa o 166º posto (a Finlândia está em primeiro e Portugal no 28º lugar).

 

O Governo português está a ser fortemente pressionado por alguns parceiros da CPLP para desbloquear o veto à entrada da Guiné Equatorial como membro de pleno direito da organização. Não quero crer que tais pressões possam surtir efeito. Se a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa fizer a vontade a Teodoro Obiang confere caução de respeitabilidade a um regime que merece a reprovação generalizada do mundo democrático. E começa, desde logo, por violar as suas bases programáticas. O artigo 5º, nº 1, e) dos seus estatutos estabelece com clareza que a CPLP é regida pelo “primado da Paz, da Democracia, do Estado de Direito, da Boa Governação, dos Direitos Humanos e da Justiça Social” (em iniciais maiúsculas no original). E o número 2 do mesmo artigo reitera este compromisso em termos ainda mais inequívocos: “A CPLP estimulará a cooperação entre os seus membros com o objetivo de promover as práticas democráticas, a boa governação e o respeito pelos Direito Humanos.”

Afinal tudo quanto não existe no regime despótico de Malabo. Com uma agravante: Obiang pode dominar a linguagem dos cifrões mas não sabe falar português. Tornar-se-ia o castelhano língua de trabalho da CPLP?

 

Leitura complementar: Este ditador vem a Lisboa (3)

24 comentários em “Obiang? No, gracias”

  1. Capítulo II, Artigo 6º:

    1. Para além dos membros fundadores, República de Angola, República Federativa do Brasil, República de Cabo Verde, República da Guiné-Bissau, República de Moçambique, República Portuguesa, República Democrática de São Tomé e Príncipe, e da República Democrática de Timor-Leste, qualquer Estado, DESDE QUE USE O PORTUGUÊS COMO LÍNGUA OFICIAL, poderá tornar-se membro da CPLP, mediante a adesão sem reservas aos presentes Estatutos.

  2. Angola aceita o acordo ortográfico dos brasileiros e Portugal retira o veto.
    As ordens brasileiras devem ser essas.

      1. Pouca ordem e pouco progresso. Mas, mesmo assim, os $$ e outros meios de pagamento aceites pelas vaidades daqui.

  3. Vem cá investir uns trocos sujos num qualquer desses bancos-rotos que temos. É só mais um Kadafi, mas com preferência pela cor azul… em vez da verde…

  4. Fortuna avaliada e 600 milhões de dólares!

    É uma vergonha para os verdadeiros ricos africano.

    Só por isso não devia entrar cá no clube… isso passa duma gorjeta!

  5. Discordo completamente.
    A CPLP é uma comunidade de países que têm língua OFICIAL portuguesa, não é (na prática) uma comunidade de democracias nem de regimes agradáveis. A CPLP não cauciona ninguém. E Portugal não é dono e senhor da CPLP: todos os países que têm língua OFICIAL portuguesa têm o mesmo direito de mandar nela.
    A função da CPLP é expandir a língua portuguesa (a nossa pátria) pelo mundo. É bom que mais países adiram à língua portuguesa e à CPLP.

    1. Vou repetir-me, mas talvez valha a pena:

      «Artigo 5º
      (princípios orientadores)
      1. A CPLP é regida pelos seguintes princípios:
      a) Igualdade soberana dos Estados membros;
      b) Não ingerência nos assuntos internos de cada Estado;
      c) Respeito pela identidade nacional;
      d) Reciprocidade de tratamento;
      e) Primado da Paz, da Democracia, do Estado de Direito, da Boa Governação,
      dos Direitos Humanos e da Justiça Social;
      f) Respeito pela integridade territorial;
      g) Promoção do Desenvolvimento Sustentável;
      h) Promoção da cooperação mutuamente vantajosa.
      2. A CPLP estimulará a cooperação entre os seus membros com o objetivo de
      promover as práticas democráticas, a boa governação e o respeito pelos Direitos
      Humanos.»

      1. Exatamente, não-ingerência nos assuntos internos de cada país-membro, e cooperação entre todos com o fim de estimular as práticas democráticas. Estou totalmente de acordo.

        Cooperemos pois com a Guiné Equatorial, tal como cooperamos com Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, com o fim de que esses países se tornem mais democráticos, da mesma forma que Angola coopera connosco no sentido de que respeitemos mais o segredo de justiça. Mas sempre sem ingerência descabida nos assuntos internos de países que connosco cooperam.

          1. A língua que o presidente fala no seu dia-a-dia, ou nas cerimónias oficiais, é irrelevante. O que importa é que o português seja língua oficial do país.
            Há muitos países que têm diversas línguas oficiais (a Índia, por exemplo, tem mais de meia-dúzia delas) e o presidente nem sempre as fala a todas.

          2. Não deixaria de ser interessante – e original – que um presidente de um país membro da Comunidade dos Países de LÍNGUA PORTUGUESA fornecesse o exemplo contrário. Nada sabendo da língua portuguesa, razão fundamental para a existência desta organização. O facto de, enquanto ditador, ter decretado a língua portuguesa como terceiro idioma oficial do país (após o castelhano e o francês) é totalmente irrelevante. Para ganhar caução internacional, Obiang pode decretar também o japonês, o alemão, o árabe e o swahili como línguas oficiais da Guiné Equatorial. A ver se pega. E se paga.

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