O vulto enojado


Pedro Correia,

Nestas férias consegui ler onze livros – alguns deles muito bons. Nenhum, por sinal, do grande vulto da literatura portuguesa que, profundamente enojado com o País, admite rumar de vez ao Brasil e ficar lá para sempre, longe deste rectângulo que lhe garantiu (diz ele) um milhão de leitores. Mal empregada popularidade, recebida com tanto desdém e tanta sobranceria. Por uma vez, estou com José Saramago: que vá para o Brasil ou para Marte, tanto faz.

17 comentários em “O vulto enojado”

  1. A (a)balada de…

    O vulto enojado
    diz pretender abalar,
    como é tão viajado
    que faça por contemplar!

    O povo brasileiro
    não é dado a insolências,
    que não continue foleiro
    para evitar mais violências.

  2. Pois por mim também pode ir à vontade, ele, a Maria João Pires e outros que venham com essa história de serem mal tratados em Portugal.

    E que livros leste tu, Pedro? Fiquei curiosa.

    1. Li o ‘Leite Derramado’, por exemplo. E gostei muito. De tal maneira que escrevi logo um texto sobre este romance (para mim o melhor do Chico Buarque) mal acabei de o ler.

      1. Também já li esse, também já escrevi e também gostei 🙂 mas tenho um fraquinho por Budapeste
        Acabei ontem o Barroco Tropical e, embora tenha gostado, o fim fez-me lembrar um outro do Nelson Motta. Já leste?

  3. Outro sítio para onde o vulto enojado poderia ir, não vá dar-se o caso de já não haver vagas no Brasil, era para o raio que o partisse. Há, porém, um senão: o raio que o parta é um sítio tão frequentado que não deve quadrar aos requintados gostos desérticos do grande vulto.

    Ivone Mendes

  4. É inacreditável como a TVI continua a pagar a esse sujeito para lá ir todas as semanas debitar patacoadas sobre patacoadas, sem o mínimo estudo prévio dos assuntos acerca dos quais lhe pedem para botar sentença.
    Só neste país de fancaria!

    1. ALA.

      É impressionante como os jornais e as plataformas apagam o seu espólio digital ao fim de poucos anos, impossibilitando os historiadores futuros de aceder ao acervo publicado e à celeuma que suscitou.
      Há jornais, como ‘A Bola’, que o apagam em poucos meses,automaticamente. Sem deixar rasto. Tanto ao nível da opinião como da notícia ou da reportagem: é como se nunca tivesse existido. O que me levou há muito, por exemplo, a deixar de citar este jornal específico: da minha parte não levam cliques.

      Este pormenor do rasto arquivístico, que nunca tenho visto referido pelos basbaques rendidos ao “monopólio do digital”, é um poderoso argumento a favor do velho jornalismo em papel, a qualquer momento consultável nas hemerotecas.
      Quando houver um apagão cibernético à escala planetária, toda a memória destes anos frenéticos da teclagem digital se eclipsará. E um mundo sem memória é um mundo condenado à extinção. Porque só ela permite activar o nosso instinto de sobrevivência, sem o qual somos tão frágeis e desamparados como o primeiro homem no primeiro dia.

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