O veto da Valónia e o negócio de armas


odiplomata,

A mais recente crise espoletada pela região francófona da Valónia, que se recusa a aceitar o acordo económico e de comércio entre a União Europeia e o Canadá, e que está a deixar os responsáveis europeus em Bruxelas à beira de um ataque de nervos, é paradoxal e tem uma dose considerável de hipocrisia à mistura. E porquê? Primeiro, porque o CETA (Comprehensive Economic and Trade Agreement) — cuja sua assinatura está prevista para amanhã em Bruxelas, onde se espera a presença do primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, que ainda acredita numa solução de última hora — é um acordo que poucas implicações terá numa região que representa apenas 10 por cento das trocas comerciais da Bélgica com o Canadá. Ou seja, os restantes 90 por cento dessas trocas são feitas através da Flandres. Segundo, porque, embora o primeiro-ministro da Valónia, Paul Magnette, longe de ser um eurocéptico, se apresente como uma espécie de herói ao resistir à pressão da União Europeia, naquilo que ele considera ser a defesa dos standards europeus em matéria de direitos sociais, dos trabalhadores e do ambiente, a verdade é que muitos vêem nisto uma mera manobra interesseira de hipocrisia. E lembram, como aliás o próprio site Politico europeu sublinha, que a Valónia parece não ter qualquer problema de princípio ou de consciência em vender armas para o Médio Oriente, nomeadamente, para a Arábia Saudita, mas as campainhas de alarme já soam quando está em causa um acordo que, diga-se, poderá beneficiar a União Europeia e prejudicar muito pouco, ou quase nada, a Valónia.

De notar que o estado regional da Valónia é detentor a 100 por cento da FN Hersta, uma empresa de armamento que é acusada de pouca transparência na sua actividade. Por exemplo, em 2009, a FN Hersta causou muita polémica, ao vender armas para o falecido líder líbio, Muammar Khadafi.  Além disso, no ano passado, a FN Herstal e outras empresas da Valónia obtiveram licenças para venderam armas no valor de quase mil milhões de euros, o dobro do valor em relação a 2004. E de realçar que 60 por cento dessas vendas foram para a Arábia Saudita. Mas um dos casos mais exemplares da hipocrisia de Paul Magnette, um socialista moderado e especialista em assuntos europeus, tem a ver com aquilo que aconteceu em 2014, quando o parlamento valão aprovou um negócio de armas de 3,2 mil milhões de euros com o Canadá, para a montagem de viaturas militares cujo destino final era a Arábia Saudita.

Perante isto, não são de estranhar as críticas que o primeiro-ministro da Flandres fez a Magnette, ao acusá-lo de preferir vender armas aos sauditas do que fazer um acordo de comércio com o Canadá. E embora o Governo belga, liderado pelo francófono Charles Michel, apoie o CETA, a questão é que este é um acordo misto, o que implica que o mesmo, além de ser aprovado pelo Conselho e Parlamento europeu, terá também de ser ratificado pelos Estados-membros. O problema é que a Constituição da Bélgica obriga a que esta ratificação passe pelos parlamentos regionais.

Magnette tem explorado ao máximo o sentimento de descontentametno dos valões, que vêem na sua região uma grande crise industrial, o que tem contribuído para a subida do Partido do Trabalho da Bélgica (marxista), sendo que ainda recentemente a Caterpillar anunciou o encerramento da sua fábrica na Valónia, levando ao despedimento de 2200 trabalhadores. Tudo isto está a permitir a Magnette bloquear o CETA, o problema é que, ao que tudo indica, está a fazê-lo pelas razões erradas.

5 comentários em “O veto da Valónia e o negócio de armas”

  1. O que é o CETA e que consequências existirão para as Nações e povos europeus é que o ilustre blogger devia explicar se obviamente conhecer o CETA.

    Espero muito sinceramente que o governo da Valónia não ceda a chantagens e que o CETA não veja a luz do dia.

    1. Nem mais! Gostaria de saber entao quais seriam entao as razoes correctas para bloquear o CETA, essas é que me interressam

  2. 1) Não é somente a Hersta que faz negócios pouco transparentes. Toda a indústria de armamento os faz.
    2) Acusa-se a Hersta de fazer negócios pouco transparentes mas ao mesmo tempo parece saber-se com quem é que ela faz negócios (com a Líbia, com a Arábia Saudita). Pelos vistos os negócios afinal são deveras transparentes.
    3) Vender armas à Arábia Saudita e à Líbia, ou seja a quem fôr, não viola em nada “a defesa dos standards europeus em matéria de direitos sociais, dos trabalhadores e do ambiente”. Os trabalhadores belgas que produzem essas armas têm direitos.

  3. Este post é uma peça de uma campanha de relações públicas contra o governo valão. Procura utilizar o negócio de armamento para atirar lama sobre esse governo e desacreditar a sua posição anti-CETA. Na verdade, não há contradição absolutamente nenhuma entre vender armas a países árabes e ser-se contra um acordo comercial com o Canadá. Não há contradição absolutamente nenhuma entre o comércio com o Canadá e o comércio com países árabes. Não há contradição absolutamente nenhuma entre querer vender armas e querer defender os direitos sociais dos trabalhadores belgas (incluindo aqueles que produzem as armas).

  4. As razões do governo Valão para contestar o CETA eram erradas , a acreditar em relatos e informações sobre a indústria das armas na Bélgica , é uma dedução corajosa. Deixo aqui discurso do primeiro ministro no parlamento , para quem estiver interessado em ouvir razões e argumentos em primeira mão e para quem gostaria de ver e ouvir um verdadeiro discurso político , coisa que entre nós é rara:

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