O Universo em três andamentos


Bandeira,


Diz-me o bate-chapas da oficina de automóveis que arrendou parte do meu crânio (a que não está ocupada pelo cérebro) que apenas uma vez, em toda a música para piano de Mozart, se encontra a indicação de pianissimo ao lado de um fortissimo: é na Sonata Nº 8 em Lá menor. “Hawking”, acrescenta o factotum da oficina com os olhos perdidos no calendário Pirelli, “chamaria talvez a isso ‘uma singularidade’”. E o electricista jura acreditar que “Mozart teria sido capaz de compor o Big Bang”, o cujo, garante, “mais não é que um pianissimo seguido de um fortissimo”.

Eu ia contestar, um pianissimo não era de certeza, era género coisa nenhuma, quando muito um da Capo. Mas o mecânico meteu-se na conversa e lá do fundo, enquanto examinava o carburador do Ford Cortina, pôs-se lírico: 

“Já imaginou? O universo inteiro em música para piano?”

Calei a objecção. Durante uns minutos, uma eternidade, todos os outros sons se envergonharam e ouviu-se a Sonata número 8 em Lá menor, de Mozart, o homem que podia ter composto o Big Bang.

0 comentários em “O Universo em três andamentos”

  1. Só um Da Capo, de facto. O Big Bang teria de ser criado por um Deus eterno e infinito, sem princípio e fim. Mozart, ao contrário, estava aos ombros de gigantes, por isso, em pianíssimo, teria escrito da capo para terminar em fortíssimo, se quisesse fazer um Big Bang (ia escrever big band!). Em Lá menor parece-me bem, tendo em conta o dramatismo do acontecimento.

        1. Eu sei que é este corrector. Ele também me deixa os dedos cheios de pêlos quando escrevo pelos. Cá estava o bicho a colocar o chapelinho outra vez!

          Bom Ano!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *