Um dia o avô morreu – foi talvez o único dia triste da minha infância. Deixei de ver aquele senhor alto e magro, de bigode fino e sorriso benevolente, que me levava cuidadosamente pela mão nos seus passeios. Era o pai do meu pai.
Foi a primeira vez que travei conhecimento com a palavra morte. E com outras palavras que lhe vêm associadas – como a palavra luto, ao ver as mulheres da família vestidas de preto.
Onze anos depois, já eu era adolescente, morreu a avó. Partiu tão de repente como partira o avô, a três dias do aniversário da morte do homem com quem vivera quase meio século. Se existem casamentos perfeitos, aquele era um deles. Uma das últimas frases de que me lembro dela tinha precisamente a ver com a data que se aproximava. Como se pressentisse que não chegaria lá.
Quando a avó morreu, durante um par de anos, ainda conservámos a casa. Mas um dia impôs-se a evidência: fazia pouco sentido continuar a arrendar aquele rés-do-chão com quintal, agora desabitado.
Desmanchou-se a casa, divisão a divisão. E vieram então à tona objectos há muito esquecidos. O mais inesperado, que jazia no fundo de um guarda-vestidos, era uma antiquíssima máquina fotográfica fabricada antes da guerra e envolta num estojo de couro, em forma de um pequeno caixote, pertencente ao avô. Aparelhos como aquele, já então, só tinham guarida em museus da especialidade.
Peguei na máquina como se fosse uma relíquia. E reparei, estupefacto, que continha no interior película fotográfica que nunca havia sido revelada.
Levei-a a um estúdio fotográfico, na esperança de que ainda estivesse em condições de reprodução tantos anos depois. Estava, de facto. Quando lá regressei, dias mais tarde, encontrei dentro de um envelope as últimas fotografias tiradas pelo avô. Na manhã seguinte a um fortíssimo nevão na vila – aquele que foi, seguramente, o derradeiro nevão no último Inverno da sua vida.
Fotos a preto e branco, de uma nitidez perfeita. Fotos sem pessoas. Apenas fixando fragmentos de neve, límpida e pura, cobrindo árvores e muros e bermas e vielas, no início de uma manhã já tingida pelo sol. O espectáculo assombroso da natureza, como uma espécie de hino ao milagre do mundo, fixado para a posteridade por quem estava prestes a despedir-se dele.
Há quem receba dinheiro. Ou palavras. Ou diários íntimos. Há quem não receba nada. Eu recebi como testamento do meu avô esta poesia muda das últimas fotografias que tirou, recolhidas durante mais de uma década no interior da sua antiquíssima Rolleiflex. Quase em jeito de epitáfio, como se pretendesse transmitir por imagens ao neto que nunca mais veria: não procures mais, o essencial da vida é isto.


História linda, comovente mesmo.
E a fotografia é tão bonita!
🙂
Antonieta
Agradeço-lhe o comentário, Antonieta.
Alguma sorte ter encontrado registo fotográfico de seu avô, após anos dentro da máquina sem revelar. Lembro uma história de pessoa amiga que, por desconhecimento, na lua de mel fizeram as fotos, guardaram o rolo com o objectivo de, ao fazerem 25 anos de casados, então as revelarem. Escusado será dizer que não existia lá nada….
MT
Também acho que foi sorte. Uma espécie de dádiva do destino. Nem sempre sucede. Mas quando acontece devemos aproveitar ao máximo.
bela história
E bem contada.
Obrigado a ambos. Andava há muito tempo para contar esta história, e até talvez fizesse mais sentido contá-la no Inverno, atendendo à neve, mas saiu-me só agora, quase por impulso, precisamente por me encontrar no local onde tudo aconteceu. A escrita tem destes caprichos: só nos resta dar-lhes sequência.
Vou fazer mais textos destes. Um blogue serve também para (re)conhecermos melhor as nossas raízes.
Tocante.
Um abraço.
Um abraço agradecido, Carlos.
http://livrodaavo.wordpress.com
Conhece este livro, Pedro? É um livro belíssimo, tanto para miúdos como para graúdos.
Não conheço, mas conhecerei sem falta. E agradeço-lhe desde já a sugestão, Carlos. Os blogues também têm este condão: através deles, seguimos sugestões que nos vão chegando e nos ampliam horizontes. É também, a seu modo, uma dádiva que devemos fazer tudo por merecer.
Estou como a Antonieta. Este post comoveu-me, de tão sentido e tão bem escrito…
Obrigada Pedro, por partilhar connosco esta história tão tocante.
Isabel Mouzinho
Bem haja, Isabel. Como por cá se diz.
Roland Barthes na “Câmara Clara” dizia que uma fotografia é sempre invisível. Queria com isso dizer que, independentemente do que ela mostra, não é ela que nós vemos mas todo um mundo constituído pelas nossas referências.
Este texto, Pedro, é uma belíssima ilustração dessa ideia.
Nunca achei uma frase do Barthes tão certeira, Ana. Bem podia servir de epígrafe ao meu texto. Porque é isso mesmo que sinto.
Bonita essa poesia muda (como muito bem lhe chama )legado do seu avô…e pouco interessa que não seja Inverno (e não será ? ) a escrita tal como a pintura não se coadunam com essas vontades extremadas, ” libertam-se ” sempre quando disso têm vontade e desejo.
Avô e neto em bonita sintonia artistica.
Tem razão, CR: a escrita não depende só da nossa vontade. Depende – e de que maneira – das circunstâncias.
Que bela e ternurenta evocação, Pedro. O meu avô também era um fotógrafo apaixinado, tinha uma Leika em que não deixava ninguém tocar. Agora é peça de museu, herdou-a uma das minhas irmãs.
Aproveita bem esse tempo sem pressas fora da correria de Lisboa, que bem mereces.
Estou a aproveitar ao máximo, Ana. Tenho necessidade absoluta de pausas periódicas de desintoxicação citadina para regressar a vários locais onde já fui feliz. Contrariando a célebre frase, de que não sou adepto.
Belíssima evocação, amigo Pedro.
Esteja onde estiver, o teu avô orgulhar-se-á de ti!
Obrigado pela partilha!
Eu é que te agradeço, uma vez mais, as palavras amigas. Abraço.
Muito lindo, me senti tocada.
Muito obrigado.
Belíssimo!
De uma doce poesia…
parabéns
Agradeço o comentário, Estela. Gostei que tivesse gostado.
Sorri sempre enquanto li este texto doce e sentido. Não me ocorrem grandes comentários perante o belo. É senti-lo, e é tão bom. Apenas quero deixar expresso que os avós não morrem, apenas deixamos de os ver.
Bela frase final, essa. Já a guardei, com os devidos direitos autorais, no meu caderno de frases de antologia.
Viva,
Não fica nada mal recordar o passado.
Acredito que viva numa fase de regresso ao passado.
Acho, que de vez a quando, todos nós devemos viver um tempo assim.
Os nossos políticos também deviam viver esse tempo, nem que seja recordarem que foram os seus avoengos e os seus progenitores que permitiram que eles vivessem num tempo assim.
Honrem-lhes a memória!
Sejam dignos.
Um hino ao milagre do mundo é uma boa expressão Pedro. E a relação com os nossos avós, para quem teve a sorte de os conhecer, é a ponte por onde esse milagre avança, vindo do passado e em direção ao futuro.
Um abraço
Assim é, Paulo. Forte abraço.
Penso que foi o meu primeiro comentário aqui no Delito.
Obrigada por me dar a oportunidade de voltar a lê-lo.
🎄
Maria