O triunfo do ódio e da iliteracia


Pedro Correia,

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Na ânsia quase desesperada de amealhar cliques, que permitam a certos títulos continuar a subsistir no limiar da sobrevivência, a imprensa em linha continua a reproduzir injúrias e calúnias de todo o tipo. Ainda agora verifiquei isso, a propósito da morte súbita de Jorge Coelho.

Vocabulário obsceno, em diversos sentidos da expressão, foi não apenas admitido mas tolerado (se não mesmo incentivado) nas caixas de comentários dessas publicações. 

Insultos carregados de ódio pessoal ou ideológico que no DELITO DE OPINIÃO, por exemplo, vão de imediato parar ao ecoponto, ali são divulgados e ficam perpetuados na nuvem digital.

Interrogo-me se é esse o género de leitores que tais periódicos querem captar. Interrogo-me se para os responsáveis desses jornais valerá mesmo tudo para atrair e reproduzir tal lixo. Questiono-me ainda se as injúrias os visassem a eles teriam idêntica compreensão e tolerância.

E já nem me refiro apenas à linguagem caluniosa. Refiro-me também aos mais inconcebíveis erros de ortografia, que transformam a língua portuguesa numa abjecta caricatura de si própria: também ficam perpetuados, talvez para a eternidade, nessas caixas de comentários de jornais que volta e meia publicam sisudos editoriais em defesa da cultura – e desse “bem cultural” maior que é o nosso idioma, património comum de quase 300 milhões de pessoas. 

 

Não reproduzo aqui as injúrias, como é óbvio. Mas reproduzirei alguns dos mais primários e boçais erros ortográficos que li só numa dessas caixas de comentários de um desses jornais, supostamente de grande circulação. Para que se perceba melhor como estes títulos se demitem da sua função essencial – até reconhecida por lei – de preservação e valorização da língua portuguesa:

«Pás a sua alma…»

«… muito cordeal…»

«… acto de degnidade…»

«… falar nele nos mídea…»

«… intelectualemente honesta…»

«… desça em pás…»

«… estado portugues…»

«… sofreu 3 banca rotas económicas…»

«…quando se não vêm qualidades…»

«porque è cuando morre um pobre ninguem fala…»

 

O outro falava no triunfo dos porcos. Nós assistimos, impávidos, ao triunfo do ódio e ao triunfo da iliteracia. Todos os dias, a toda a hora, nos locais mais insuspeitos. Supostamente geridos por gente letrada que supostamente recebe ordens para acolher todo o lumpen e todo o lixo.

96 comentários em “O triunfo do ódio e da iliteracia”

  1. «porque è cuando morre um pobre ninguem fala…»

    Porque é que quando morre um pobre ninguém fala? – decifrei bem?

    1. acho que era para ter sido:

      “porque… é… quando morre um pobre ninguém fala”

      O “é” aqui é uma interjeição, como o “pois”, “pá” ou “eh, pá” e etc

      1. Ok, ok.
        “Porque… Eh! Quando morre um pobre ninguém fala.”

        De facto, eu é que acrescentei o ponto de interrogação. A língua portuguesa é como o bacalhau, há mil e uma maneiras de. Incluindo terminar uma frase com uma perpozissão.

        1. Acho que é mais o “pois é” (o “é” ou “é mesmo” à brasileira) do que uma interjeição tão exclamativa..

  2. Quem não lê não pode escrever bem, deixar de ler é dar cobertura ao erro, a visão fixa a grafia das palavras inadvertidamente; mas, sem leitura, que pode fixar. E quem só lê as legendas que aparecem em rodapé nos telejornais, também desaprende, que muito erram os cais televisivos. E Portugal é um país que lê pouco, ouve pouca música clássica, vê pouco teatro, visita poucos museus e afins. Falo do país inteiro e não de Lisboa e Porto. Com estes exemplos, sem patrocínios grátis (ou quase), sem concertos de rua, sem teatro de qualidade e despido de pretensos intelectualismos para os quais o povo não está preparado, sem divulgação dos nossos autores à população, que se pode esperar senão a prosperidade da má língua e a falta de carácter. O pudor que reservávamos a um morto, perdeu-se. Ou, pode acontecer que os portugueses de carácter não estejam para comentar, há lugares que não os merecem. E ficam só os outros a chafurdar, esses a quem a liberdade de expressão permite dizer tudo.

    1. Tudo isso é verdade, mas por vezes parece ainda pior. Parece que só os analfabetos funcionais é que escrevem.
      Dominando tudo, poluindo tudo.

      E como não criticar a pose hipócrita dos jornais que acolhem este lixo, caucionando-o e validando-o com a sua marca editorial, enquanto escrevem sisudos textos em defesa da “educação” da “cultura”?

    2. Tem toda a razão quanto à leitura mas parece-me que não a tem quando diz que se perdeu o pudor que reservávamos aos mortos. Acho que, além de mim, haverá mais portugueses que se restringiram a comentar Jorge Coelho e a sua morte, e a própria imprensa também o fez.

  3. As caixas de comentários sem moderação são infrequentáveis. Nem vale a pena abrir. Além dessas pérolas parece-me que atraem muita gente seriamente doente.
    Eu gosto muito de caixas de comentários. Aprende-se imenso com diferentes pontos de vista. Mas só as visito em páginas selecionadas.

    1. Certas caixas de comentários (quase todas as dos jornais “consagrados”) funcionam de escarrador e de vomitório.
      E esses jornais ficam contentinhos com tanto clique. Sem perceberem que assim só se afundam ainda mais.

      1. O escarrador faz parte da nossa cultura e na minha opinião retrata bem a masculinidade o vomitório é mais do tempo dos Romanos.

      1. Pensei que era um artigo de 1 de Abril mas é mesmo de 12 de Abril… Bem, fico contente por ter aprendido a tempo a escrever à homem, branco, porque escrever à preto ou à monhé não me interessa nada.

      2. Mas pensando melhor, então uma pessoa que não seja branca e homem machista e colonialista e que escreva no alfabeto e na sintaxe dos opressores e ande vestida à ocidental… isso não é apropriação cultural? Deviam era continuar de tanga com pauzinhos no nariz e fazer sinais de fumo.

  4. Ponto prévio: a (falta de) acentuação (o dito assento) pode ser causada pelo teclado. E há os erros causados pelo maldito corrector. Posto isto:

    Cada vez mais as pessoas ligam pouco à qualidade da escrita. A partir do momento em que se substituem palavras por bonecos, fica tudo dito. Às vezes a velocidade da escrita impede o uso do correcto português e gera gralhas, mas cabe a cada um fazer o mínimo de revisão quando essa velocidade não é um requisito. O problema é que neste mundo das redes, as pessoas preferem a quantidade (de comentários escritos) à qualidade (dos ditos), e exigem não só serem os primeiros opinarem, como também terem a última palavra.

    Ontem li um artigo num desses “jornais” digitais, em que um indivíduo estava em cheque. Não era o Socas, esse era só dinheiro vivo.

    Pás para todos
    (dá jeito para cavar terra)

  5. Na cualidade de pessoa que dá erros ortograficos á anos e que agora por via de uma tentativa falhada de grassa tenta disfarssar, venho por este meio declarar que este postal e, sobre tudo, a imagem utilisada é um ultrage às pessoas com defeculdades de aprendisajem.
    Mais. Manifesto tumbém dezagrado por raramente a ver almas a açumir que dão erros, apesar de os darem. Deiam erros, mas açumam, caramba.

    Além do mais, este blogue num presta. Não deixa os utilisadores chamar boi a ninguem. Dantes é que haviam blogues como deve de ser.

  6. Ninguém há-de calar avós do povo.
    Viva a liberdade de espressão.
    Era só o que faltava virem agora corrigirme os erros que eu dou. Eu dou os erros que eu quizer, tamos num país livre. Ora agora, ele á com cada uma. Com tanta coisa pa se preocuparem tão-se a preocupar com esta preocupação.
    Tão eles preocupados com a inclusão? Isto é que é inclusivo, a malta assim escreve como quer, quem estiver a ler lê o que lhe parece e prontos, pra que é qué as gramáticas? Só pra baralhar só pode.

  7. Liberdade de escrita é escrevermos a nossa maneira ou seja a escrita é como o homem quiser quem não gosta de liberdade que vá para Russia.

  8. No blog Corta-Fitas, há dias, encontrei estas duas frases:

    “No direito Anglo-saxonico, compete ao juiz ou a um júri, apreciar as evidencias e decidir. Aqui, compete a um juiz, verificar se os pontos e virgulas batem certo. “

    https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/em-equipa-que-ganha-nao-se-mexe-7325431

    Acho-as absolutamente magníficas.

  9. Não ce priocupem ke a quilo é a impelementassão do encino.a çuperior.a a duas velossidadesh. Kriam perivatisare ash univerecidadesh i agora queicham-che, é? Nu.a privado.a, se o.a qeliente.a paga as prupynas tem todu u direitu a escriveri como lhe aprásh. Tenhu.a ditu.a.

  10. Qualquer anónimo anseia conhecer como se virão as qualidades e aproveitando a inquietação
    de Boliqueime:—Que faremos para se virem as qualidades ?

  11. Eis a minha tentativa de moderação:
    – as caixas de comentários são, a meu ver, um bem precioso.
    – as caixas de comentários são como a farmácia: há de tudo.
    – quem entra numa caixa de comentários deve saber ao que vai; afinal, o futebol é desporto de contacto e num estádio os palavrões são património imaterial da humanidade.
    – tal como noutras situações, também nas caixas de comentários o negativo salta mais à vista que o positivo, mesmo que aquele seja ínfimo; e pior ainda se nos toca pessoalmente ou mexe com assunto que nos é querido.
    – tal como noutras situações, também nas caixas de comentários os maus expulsam os bons. E compreende-se que os bons acabem por se retirar. Todavia, sempre que alguém bom desiste, o mal ganha.

  12. Quanto ao ponto dos erros ortográficos, chamo apenas a atenção para o perigo real do paternalismo, condescendência e sobranceria se esconderem por detrás de certas avaliações. Os amantes da norma descambam com alguma facilidade para a intolerância. O epíteto “nazi da gramática” tem o seu quê de verdade.

    1. É verdade, o ” nazi da gramática ” existe, conheço malta que até queima as pestanas só de ler o ” campo de concentração ” das letras.

      1. A Dra. Rute Remédios a maior educadora de todos os tempos limpa o sebo sabe a qualquer douto pseudo nazi da gramática!

    2. Isso é lançar sorrateiramente sobre a mesa o equívoco do costume — confundir a mudança (natural) com a interferência (propositada e propositadamente ideológica), destruindo um património comum e recorrendo a um parlamentarismo ignorante e oportunista como meio de legitimar aquilo que é ilegítimo.

      É contra essa desonestidade intelectual que se deve ser violento. Eu serei sempre. E ser nazi é pouco: eu atirava logo uma bomba nuclear se soubesse que os apanhava a todos, à Lex Luthor da Ortographia.

        1. Temos de ter alguma liberdade poética. Eu dizer que nazi é pouco eu sou mas é o Lex Luthor da ortografia (recordo que o gajo queria destruir o mundo com um ataque nuclear) não implica necessariamente a existência do Super-Homem na mesma história! Além disso esse penteadinho de collants sair-se-ia com banalidades apaziguadoras à prof. Marcelo.

  13. Eu cá já vi muita escumalha fascista nas caixas de comentários deste blog por isso não têm muita moral para falar. Cada um sabe o lixo que filtra e, ainda mais importante, o lixo que não filtra.

  14. Pedro, deixei de ler as caixas de comentários, porque fico revoltada com os insultos que me incomodam.
    Sinto tristeza e vergonha.
    Perderam-se os valores que me parece que dificilmente voltem.

    1. A internet promoveu a verdadeira “revolução socialista” do mundo actual. Destruindo todas as hierarquias em nome da igualdade. Atrás dum ecrã digital, o génio e o imbecil ficam equiparados.

  15. Há todavia um bicudo.
    Os que melhor escrevem, pela logica sao seletivos, até distantes de temas simples, mesmo se bem escritos. Nao perdem tempo.
    Já nao vou a tempo de escrever bem, tambem por isso aposto no conteudo, que nao na forma.
    Nao sei se esta arrelia manifestada pelo Pedro, nao é um aviso á propria redaçao, para que nenhum se atreva a manifestar o contrario : a importancia do conteudo
    (Obviamente estou tao só a referir-me ao assunto conteudo e ou forma, nada a palavroes e insultos )

    1. Infelizmente, em linguagem conteúdo e forma são inseparáveis.
      (O que significa também que não podem ser absolutizados per se.)
      O que deveria ser explicado nas escolas: a forma incorrecta como te expressas (falas, escreves) descredibiliza e desvaloriza qualquer opinião que emitas, ideia que partilhes, tese que defendas, argumento que utilizes. Mancha e encobre a própria verdade do conteúdo que pretendes veicular. Constitui barreira a uma comunicação efectiva, é puro ruído no canal. Que te dêem um desconto, não o podes tomar como garantido ou exigível. Mesmo que outros o façam.

    2. Ainda um ponto a reter: na linguagem, a forma vai à frente do conteúdo.
      A forma como te expressas não é apenas manifestação do nível de organização do teu pensamento, mas influi também directamente nele. É causa, para além de consequência: se não sabes expressar-te bem, não conseguirás pensar bem. Afecta a própria construção mental das ideias e conceitos, a articulação e clareza interna do pensamento, a capacidade de raciocinar.

  16. Um ou outro erro, inadvertidamente, acabamos todos por dar mas isto não são erros, são assassinatos da língua portuguesa. E se alguém os corrigir é porque “tem a mania que é professor” ou então é arrogante. Ainda ontem me corrigiram no meu blogue e eu agradeci e emendei, antes que mais alguém testemunhasse a minha estupidez. O que ainda é de maior relevo é o facto de que pessoas que nem escrever sabem, se darem ao direito de criticar, opinar e vomitar ódio acerca de quem não conhecem, ou de alguém que a dormir poderá ter feito muito mais do que eles acordados.

    1. O problema é que, sem o menor filtro de qualidade, as caixas de comentários dos jornais vão invertendo o padrão.
      A norma torna-se erro e o erro torna-se norma. Perante a total indiferença dos responsáveis desses meios de comunicação, que só querem cliques, nada mais.
      Depois escrevem lindos editoriais contra a “iliteracia” dos portugueses.

  17. Não há propriamente uma enorme diferença entre as caixas de comentários e as outras redes sociais. Ao darem um palco a cada um, onde todos se podem sentir iguais e a todos é permitido agir a coberto do anonimato, permitem que o pior de nós possa ser libertado sem receios de consequências. As redes sociais, com todo o seu potencial para o bem, com toda a sua capacidade para nos interconectar, acabam por ajudar a criar pequenos monstros. E não são apenas os incultos ou os pobres de espírito que são atraídos para este abismo. Todos sentimos essa atracção (Nietzsche sabia bem o que dizia). Qual de nós não teve já vontade de disparatar, de dar largas à fúria, numa qualquer publicação ou troca de comentários? Uns de nós cedem, outros resistem… parece-me mais uma questão de formação moral do que cultural.

    1. O anonimato é a chave.
      Há quem diga que o maior retrocesso social do nosso tempo ocorreu no dia em que os bêbedos anónimos que garatujavam frases idiotas nas portas dos WC públicos passaram a fazer o mesmo num computador igual ao de qualquer de nós.

    1. “A mídia” é uma aberração sintáctica. Naquela espécie de jargão luso-“amaricano” que os brasileiros tanto cultivam. Emprenhando de ouvido e mandando o étimo latino às malvas.
      Uma “mírdia”, enfim.

  18. “As pás à sua alma”! – Lembra-te ó homem de que és pó e em pó te hás-de tornar…-Correcto.
    Ou :”A terra lhe seja leve!”- Dai-lhe Senhor o eterno descanso! -Correcto
    Ou ainda -“Vai em paz e o Senhor te acompanhe…” Correcto
    Era isto que queriam dizer… -Correcto…

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