O triunfo da javardice


Pedro Correia,

Eusébio, um dos maiores jogadores de sempre do futebol português, merecia o tributo das bancadas nos instantes que antecederam o Estoril-Sporting. Infelizmente o tempo é mais propício à javardice parola e exacerbada, como ficou demonstrado por elementos das claques presentes no estádio António Coimbra da Mota ao trocarem o minuto de silêncio por estrondosas vaias e cânticos tribais.

Vítor Damas, um grande símbolo de sempre do Sporting que também já não se encontra entre nós, foi adversário leal e um bom amigo de Eusébio. Tenho a certeza de que seria o primeiro a deplorar esta inaceitável atitude de adeptos incapazes de reconhecer mérito em figuras de outros clubes e de respeitar com decoro e dignidade a memória de quem partiu.

8 comentários em “O triunfo da javardice”

  1. Realmente é uma manifestação indecente, mas tem um fundo, que em fim, não diminui a javardice presente. Esse fundo é o sentimento geral de que Eusébio era um jogador Moçambicano, que o Benfica “roubou” ao Sporting.

    1. Conheço isso bem, Manuel. Mas no momento da morte esses episódios são irrelevantes. Há que procurar aquilo que une e congrega e mobiliza, não aquilo que divide e diminui e amesquinha.
      Saibamos reconhecer grandeza nos adversários. Sem adversários qualificados nenhum desafio valeria verdadeiramente a pena.

  2. As claques dos grandes clubes – e não só! – juntamente com os dirigentes, são o pior que o futebol tem.
    O que uma série de energúmenos fizeram há dias com os cachecóis, que estavam junto à estátua do Eusébio, é inominável.
    Sou de um tempo em que não havia claques organizadas. A malta juntava-se à esquina da rua, no café do bairro e arrancava para o campo e em dias de derby Benfica-Sporting ia tudo junto e a amizade e o gosto pelo futebol é que ditava lei.
    Ontem, num programa da SIC, ouvi Eusébio dizer que o Victor Damas tinha sido um grande amigo, ao mesmo tempo que batia com a mão no coração.
    Para além da amizade, respeitavam-se como profissionais.
    Guardarei sempre a imagem de uma espantosa defesa do Damas, a remate de Eusébio, um golo feito e e Eusébio correr a felicitá-lo.
    São gestos destes,são homens como Victor Damas, Eusébio, mais alguns, que fazem do futebol o grande espectáculo que é, que o engrandecem.
    Deviam ser um exemplo.
    Não são, lamentavelmente.
    Quando há uns tempos, parvamente, andei em troca de galhardetes com Patricia Reis por causa do que ela (não) pensa do futebol, jamais imaginaria que, no dia em que Eusébio morreu, a escritora colocaria um poema, no caso do Manuel Alegre, em sua homenagem.
    Perdi a oportinidade de dizer qualquer coisa sobre esse gesto.
    Aproveito agora: comoveu-me o gesto.
    Chapeau!

    1. Uma das imagens mais bonitas que guardo destes dias é a de Hilário, grande defesa do Sporting e da selecção, inclinado sobre o corpo de Eusébio, despedindo-se de um colega e amigo no estádio da Luz.
      Naquele instante todas as rivalidades de outrora haviam desaparecido para sempre. Ficava algo muito mais importante: a expressão profunda da solidariedade humana, para além de todas as barreiras e de todas as trincheiras.
      Saibamos aprender com este gesto.

  3. vem pouco a proprosito mas faço um paralelo entre esta intolerancia e o fanatismo poltico ou religioso. Como constatamos os graus de intolerancia são proporcionais as praticas dos dirigentes e concurso da informação para aplanar ou acirrar.
    Os países mais desenvolvidos vemos uma tolerancia impensavel no Egipto ou na Venezuela por ex. Por cá alguns candidatos a capangas das massas bem tentam acicatar as hostes mas felizmente vão fracassando. Que o digam muitos(eu tambem) que ao longo dos anos percebem o ridiculo de certas “verdades” que na altura defenderam como unica sabedoria.

    1. Faz todo o sentido a sua comparação com o fanatismo político e/ou religioso. São erupções do mesmo fenómeno, que anda a ser incentivado pelas chamadas ‘redes sociais’: quanto mais radical e rasca, mais divulgação tem. Seja sobre o que for.

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