Durante muitos séculos (ou seria melhor dizer milénios?), aceitava-se, como argumento para o suposto talento superior dos homens, dizer que era só comparar os feitos de uns e outras. 99% das obras-primas (fosse em literatura, pintura, música ou nas restantes artes), das invenções, das descobertas científicas, das obras de engenharia, etc. era de autoria de homens.
Por incrível que pareça, só nos últimos anos se começou a tomar consciência de que, salvo raras excepções, as mulheres não tinham, por um lado, acesso ao conhecimento e, por outro, andavam ocupadas com outras tarefas, impeditivas de se dedicarem a actividades consideradas mais prestigiantes. Era interessante verificar a contradição: se os homens se elogiavam por serem os maiores criadores e inventores, aplaudiam, ao mesmo tempo, as primeiras mulheres a serem aceites numa Universidade. Tinham a resposta à frente da cara e não a viam. Se isto é inteligência…
A esmagadora maioria das mulheres seguia-lhes aliás os passos. Mas havia excepções, mulheres com coragem para admitir que a educação que lhes impunham desde o berço só servia o universo masculino.
A bávara Emerenz Meier (1874-1928), pertencente a uma família de lavradores, foi uma dessas mulheres. Começou a escrever sobre a sua terra-natal ainda em criança e, em 1893, foram publicados os seus primeiros contos no periódico regional Passauer Donau. Três anos mais tarde, foi publicado o seu único livro. Mas também escreveu poemas, onde, muitas vezes, se destacava um tom irónico. Em Março de 1906, emigrou para os EUA com a sua mãe, juntando-se ao pai e às irmãs, no bairro alemão de Chicago. Casou em 1907, mas o marido morreu três anos mais tarde de tuberculose, deixando-a com o filho pequeno. Emerenz Meier não deixou de ser dona-de-casa, durante toda a sua vida e, durante a Lei Seca, fazia cerveja para si e os seus compatriotas.
No Jornal Católico da diocese de Hildesheim (edição nº 33, de 21-08-2022) deparei com um seu pequeno poema de traço irónico, o qual não resisto a traduzir (segue-se o original em alemão):
Tivesse Goethe de engrossar sopas,
De salgar almôndegas,
Schiller de limpar a pia,
Heine de remendar o que rompia,
Esfregar o chão, matar baratas,
Ah, os cavalheiros,
Não teriam sido
Esses poetas virtuosos.
Hätte Goethe Suppen schmalzen,
Klöße salzen,
Schiller Pfannen waschen müssen,
Heine nähen, was er verrissen,
Stuben scheuern, Wanzen morden,
Ach die Herren,
Alle wären
Keine großen Dichter worden.
Emerenz Meier (1874-1928)

Muito bem visto! (e que belo poema)
Ainda há dias vi uma breve entrevista com a escritora Bernardine Evaristo na qual ela abordou precisamente isso
Excelente escritora. Gostei muito do seu livro “Rapariga, Mulher, Outra”, vencedor do Booker Prize 2019.
Correcção: “Man Booker Prize”
que pérola…
Tudo tarefas que deixam o espírito livre…
Há melhores razões para justificar a diferenciação sem razão.
Pouco se fala na diferenciação com razão…e isso, é um novo obscurantismo.
Muito giro — faz lembrar as nossas cantigas de Maldizer
Não está mal visto. Mas então não é apenas “giro”
Tem razão
a condição humana é só uma e de má qualidade
a quantidade assusta. há por aí tanto ‘murcon’ na política
o importante reside na capacidade de realização
acabei de colocar tudo na mesa aos 91 anos e tiro, depois de comer almoço comprado para 2
Muito bem e muito bom, muito bem por ter trazido o tema e muito bom o poema da Emerenze Meier.
E o que seriam os homens conhecidos pelo seu talento, terem passado, também, por aquelas contingências da vida?
Obrigada.
Não escreveu muito, mas disse tanto. Muito bom, Cristina, obrigada!
Beijinho, Dulce.
As diferenças podem ter sido também de sexo, mas eram sobretudo de classe. Ou seja, os homens pobres também não faziam nada de grandioso nem de belo e, tal como as mulheres que faziam a sopa e coziam as peúgas, tinham pouca ou nenhuma educação. Eram muitos poucos os que não tinham de trabalhar nas coisas normais bem afastados do mundo das letras e das artes.
Era nas classes altas, educadas —ou na esfera disso— que apareciam poetas e artistas. Mesmo hoje, no nosso mundo burguês e pós-burguês o factor mais determinante para as realizações estéticas não é o sexo mas o acesso à cultura e a capacidade de uma pessoa subsistir e viver da sua arte sem trabalhar durante uma fase inicial e muitas vezes ao longo da vida ou da carreira artística. Isso normalmente depende mais da riqueza da família do que do próprio. Ou então de uma sorte do caraças.
No fundo, nada mudou assim tanto. Este tom (ou tese) que agora existe de que os homens andaram séculos a impedir as mulheres de fazer coisas de propósito, enfim, vale o que vale… Eu acho que era bem mais trágico do que isso.
A verdade mais evidente para mim é que era tudo uma miséria e uma tristeza — e a desigualdade de classes era a única lei. Hoje a igualdade está na Lei. Mas as vantagens de que tem património permanecem como factor distintivo e impedem que algumas pessoas se dediquem a uma actividade artística o tempo todo.
Outras pessoas estão equivocadas sobre o seu próprio talento e os seus falhanços vêm daí, mas isso é assim mesmo. A cultura já se apalermou e infantilizou o suficiente para que quase tudo seja válido.
Caro V., as suas afirmações, no geral, são válidas, mas fogem ao tema do meu postal. Quando os homens diziam, ou dizem, que são superiores às mulheres por terem mais “obra” para mostrar, é claro que se referem à mesma classe social. “Era nas classes altas, educadas —ou na esfera disso— que apareciam poetas e artistas” – pois era; mas acrescentando: “desde que fossem homens!”
“Mesmo hoje, no nosso mundo burguês e pós-burguês o factor mais determinante para as realizações estéticas não é o sexo mas o acesso à cultura e a capacidade de uma pessoa subsistir e viver da sua arte sem trabalhar” – “Mesmo hoje”? Não! Apenas “Hoje”. Porque, do mal o menos: felizmente, o sexo já não é o factor mais determinante. Mas até meados do século XX, era tão determinante como a classe social. E, substituindo “hoje”, por “antigamente”, a frase teria de ser escrita assim: “Antigamente, o sexo era um factor determinante para as realizações estéticas; a par dele, vinha o acesso à cultura e a capacidade de uma pessoa subsistir e viver da sua arte sem trabalhar”. Porque, no acesso à formação superior, uma mulher rica era tão prejudicada como um homem pobre.
Ok, concedo. Há, ou havia até há pouco tempo, um preconceito cultural e uma ideia de superioridade física e de capacidades — contraposto com alguns delírios sobre uma suposta superioridade emocional etc. Realmente não sei quem inventa estas coisas. Pessoalmente não acredito nisso: dizer que os homens e as mulheres possuam talentos diferenciados é uma espécie de astrologia sem planetas.
Agora, estava aqui a pensar que no fundo isto também tem a ver com papéis sociais e com o que é esperado das pessoas — mesmo nas classes altas, a resistência contra as mulheres que queria ter uma vida diferente era bem real (mas suspeito que teria mais a ver com a vergonha social, com o papel da “família” na comunidade, tal como ainda acontece no Islão, do que numa crença real sobre incapacidades das mulheres só por serem mulheres… muitas vezes as coisas estão codificadas desta maneira e é de facto na esfera maior das famílias e da sua função social que a coisa se passa. Não é por acaso que a esquerda americana agora passa a vida a tentar destruir a ideia da família tradicional Pai-Mãe-Filhos e a apresentá-las sempre como coisas disfuncionais através de dezenas e dezenas de séries e filmes.
Mas voltando um bocadinho atrás, lembremos por exemplo que na época vitoriana alguns escritores ingleses eram mulheres que assinavam com nomes masculinos, como por exemplo George Eliot. George Eliot, vale a pena mencionar, tem um conto lindíssimo chamado The Lifted Veil.
De George Eliot, li “O Moinho à beira do Floss” e gostei muito.
Há aqueles que dizem que a internet foi a maior invenção da Humanidade. E há os que contrapõem que não, que a invenção que mais tempo de trabalho poupou à Humanidade foi a máquina de lavar roupa – mas só poupou trabalho a mulheres…
Ooooh
É verdade sim senhor, e a máquina de lavar loiça foi a que poupou mais tempo de trabalho aos homens, senão como é que os poetas virtuosos tinham tempo para escrever poemas?
Se fosse apenas a questão do tempo…
Sempre foi uma questão de tempo. Eu ainda sou do tempo em que só havia homens e mulheres. E os homens desse tempo eram feitos para guerrear. As mulheres desse tempo eram feitas para fazer a lida da casa.
Mudaram-se os tempos.
Agora não há homens nem mulheres, há pessoas e essas pessoas são todas iguais. Umas são portadoras duma coisa, outras são portadoras dum coiso.
Mas se um dia só houver pessoas portadoras duma coisa…acaba o tempo.
Einstein sobre a prima,2ª mulher : Ainda bem que não percebe nada de Física.
Interessaria mais uma investigação sobre a primeira,essa sabia,e uma suposta ou real lista de tarefas domésticas impostas pelo célebre físico,demasiado humano.
Este é um assunto que eu gostaria de aprofundar, mas penso que não é fácil, pois não haverá muita possibilidade de estragar a imagem do maior génio do século XX. Ou seja, não existem muitas informações. No entanto, num documentário visto há alguns anos na televisão alemã, aflorava-se o aspecto de Einstein ter propositadamente anulado o protagonismo da sua primeira mulher, por ela saber tanto de Física como ele e se interessar pelas discussões dele com os colegas que reunia lá em casa. Então, Einstein mandava-a para a cozinha, ou, quando já com filhos, dizia-lhe que fosse tratar deles.
E Mahler.
Casado com Alma,parece que boa compositora,tê-la-á “proibido” de compor…
Em todo o caso conferir no Delagrange.
Sincero poema da poetisa Meier que não conhecia.
Em casa Beethoven era uma desgraça,senão pior.
A investigação desses casos é um poço sem fundo, caro adão. Até os próprios Irmãos Grimm, conhecidos pelas histórias infantis, não estão livres de culpas, por terem obrigado uma irmã a tratar deles (e da casa), contra a vontade dela. Também já vi um documentário sobre isso.
Este é um assunto em que medito muitas vezes: como foi possível só tão recentemente começarmos a ter consciência de que não houve mais mulheres a destacarem-se publicamente porque foram, de todas as maneiras, barradas e silenciadas. Na literatura, nas artes, em todas as áreas do conhecimento. Só em profissões que dependem do trabalho braçal as mulheres poderão estar em situação de desvantagem. O resto é pura ficção machista.
Sim, é verdade que certas profissões foram/são exercidas quase exclusivamente por homens. Mas não se pense que as mulheres estavam livres de trabalho braçal (sei que sabes que não, mas queria salientar este aspecto). Na agricultura, por exemplo, elas sempre trabalharam lado a lado com os homens, com uma diferença: elas chegavam a casa e tinham de cozinhar, lavar, limpar, remendar, costurar, muitas vezes, até altas horas. Eles chegavam a casa, comiam e descansavam. É assim que o meu pai, nascido e criado numa aldeia transmontana, conta. E na Alemanha era a mesma coisa, já tenho lido relatos auto-biográficos.
Estive em África, subsariana, numa zona de influência muçulmana, mas as mulheres sem problemas de andar de mamas à mostra.
O trabalho das mulheres era ir à lenha, à água e lavar a roupa, tratar da limpeza da morança, fazer farinha no pilão, fazer as refeições e tratar dos filhos, os homens tratavam da agricultura, conserto e construções das casas e rezavam três vezes por dia.
a mulher estava para o homem, como o preto (escravo) para o branco
Há uma certa lógica nessa afirmação, sim. O que aliás nos leva a outras formas de discriminação e racismo. Não podemos esquecer que também as mulheres brancas discriminaram outras pessoas (homens e mulheres).
A Honorável Escritora Cristina Torrão com seu texto é exemplo de brilhante inteligere . A Autora com domínio linguístico e sensibilidade humanística levanta os véus dos tempos ao encontro da História das Mulheres , tendo nas mãos a pena com a qual esgrima com sabedoria e coragem vencendo o silêncio e trazendo ao panteão vidas de mulheres em vias dolorosas , libertando-as através das palavras ,dos sentimentos , das emoções à titularidade de seus lídimos Direitos Universais.; Meus respeitosos cumprimentos . Adv. Laura Bastos