Ó subalimentados do sonho,


Ana Vidal,

 

sabei que foi bonita a noite de ontem, no Palácio de Belém. Houve muita Poesia, dita, cantada e até dançada por quem melhor sabe fazê-lo neste país de poetas. Por umas horas (o que já é um verdadeiro luxo) esquecemos a crise, as catástrofes, as alterações climáticas, as tricas políticas, enfim… a pardacenta espuma dos dias que correm. Por umas horas, saboreámos a língua portuguesa com deleite de gourmets: palavra por palavra, sílaba por sílaba, letra por letra. Esta língua nossa que sabe e cheira a mar, de repente casada com música ou gestos, de repente assim mesmo, a solo, em todo o seu esplendor. Dou-vos só um cheirinho da magia que ali se respirou: Eunice Muñoz, magnífica na sua total sobriedade, disse tão maravilhosamente a Tabacaria que todos nós, suspensos, estaríamos prontos a jurar que ela estava lá, naquela mesma rua, debruçada com o Pessoa naquela mesma janela, filosofando com ele sobre tudo e nada.

E porque não há metafísica sem chocolates, e porque a poesia é mesmo para comer, e porque os tempos são de contenção, a noite acabou como começou, da forma mais poética: que melhor local do que uma varanda sobre o Tejo para um chazinho e uns pastelinhos de Belém acabados de fazer, com muita canela?

18 comentários em “Ó subalimentados do sonho,”

    1. Nós, os subalimentados do sonho, já sentimos os estômagos – e os corações e as cabeças – mais «aconchegados» com este seu «post», Ana. 🙂

  1. A morrer de inveja, é como eu estou 🙂
    E depois, com este título… cai-se logo aqui dentro! A Defesa do Poeta é um dos meus poemas nº1.
    «Sou um vestíbulo do impossível
    um lápis de armazenado espanto…»
    Provocatória e sensível como ninguém, a NC.
    (passe alguma desilusão com que fiquei acerca da pessoa, depois de ter lido a correspondência entre Sophia e Sena).

    1. Também gosto muito da “Defesa do Poeta”, Chloé. Um Veemente como a própria Natália, que ainda cheguei a conhecer no Botequim (já na fase de declínio). Acho que nada nela era pela metade… nem o bom, nem o mau. Era uma excessiva, em tudo.

      1. Bonito post , Ana. Quanto à Natália, do “meu” orgulho, ela era tal e qual a Ana diz “nada nela era pela metade”- um vulcão, digo eu;)) Mas, também, muito generosa – abrigava em sua casa todo aquele que, de uma certa forma, era excluido…

    1. Ah, Teresa, este “Rooms by the sea” é um dos quadros da minha vida. Quando era miúda, sonhava vir a ter uma dia uma casa exactamente assim… com uma porta que abrisse directamente para o mar. Uma casa mesmo, não um barco.
      A noite de ontem lembrou-me esse velho sonho.

  2. Que bonito deve ter sido o evento que aqui tão bem nos descreveu, Ana, a julgar pelas pinceladas que dele nos deixou no seu post. O Edward Hopper de que o fez acompanhar é lindíssimo e, confesso sem vergonha, que não o conhecia, embora goste muito da sua obra. A luminosidade muito especial que é uma das características principais de quase todos os seus quadros, (mesmo nos que retratam cenas nocturnas) fez-me logo pensar que seria um Hopper, antes mesmo de ver o comentário da Teresa, acima.
    Quando puder, traga-nos também um Pollock, que é igualmente um deleite para a vista.

  3. Deve ter sido um verdadeiro luxo, esquecer a crise, as catástrofes, as alterações climatéricas, as tricas politicas, enfim… a realidade…restou com toda a certeza a magia e o aroma no encontro das sílabas, nesse puzzle maravilhoso que é a poesia.
    Vou confessar, estou num momento de inveja.
    Relativamente ao Hopper do seu sonho, Ana, este é o quadro desse senhor que mais me perturba, e também tem a ver com um sonho, mas pela negativa. Só de pensar que ao abrir a porta de casa, caía nas profundezas do oceano, fico em estado de choque… e agora chegou a vez do pastelinho para rematar.
    Bom post.

    1. Ah, mas sonho é sonho, CR… no meu, eu movia-me com a mesma facilidade dentro e fora de água, e não sei mesmo se não era capaz de caminhar sobre ela…
      E agora, só para fazer-lhe ainda mais inveja: os pastelinhos estavam uma delícia!
      😉

      1. caminhar sobre a água, já me parece algo extraordinário, deve ser assim como que caminhar nas nuvens.
        Sempre que viajo de avião tenho sempre de ir com o nariz colado no vidro da janela, porque adoro olhar para os ” novelitos ” de nuvens e ” ver-me ” a saltitar lá no meio…
        mas o melhor mesmo, mesmo, é o sonho de voar, não sei se já lhe aconteceu, é mesmo inesquecível, conduzir o corpo leve , agitar os braços (asas), sentir o vento frio na cara, fazer voos rasantes e aterrar suavemente…é uma coisa! 🙂
        (isto já deve ser efeitos da Primavera)
        Agora vou a correr comer um pastelinho, o mais perto que conseguir, porque a Ana accionou a campainha do Ivan, não o terrível mas o Pavlov…
        eh eh eh

  4. Tratai-vos bem, senhora. Tratai-vos tão bem como escreveis. (Dispensados estão os Pastéis de Belém, ainda por cima com muita canela… e o chá? era da Escócia?). :-))

    1. Não, caríssimo, o chá era provavelmente da Índia (ou talvez dos Açores, cumprindo a tradição dos produtos portugueses em Belém). Mas sabei que me lembrei de vós, sir Mike, exactamente por causa disso… é que houve alguém ao meu lado que perguntou, quando ouviu a palavra chá: “É da escócia?”
      🙂

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