O sorriso de Deus


Pedro Correia,

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Quem tem fé acredita que não somos fruto de um acaso cósmico, de um acidente de percurso na eterna voragem dos dias e das noites desde que surgiram os primeiros clarões da alvorada à superfície da terra. Acredita que fazemos parte de um desígnio que nos transcende. Somos, não estamos. Vamos, sem nunca parar – numa espécie de viagem iniciática que nos devolve a insondáveis recomeços. Em busca permanente de nós próprios, reflectidos na face dos outros. Daí o significado mais profundo da palavra irmão, tantas vezes mencionada no Novo Testamento. Cristo nasceu pobre, despojado, sem bens materiais, na humilde gruta que lhe serviu de berço.

Quem acredita, encontra aqui o mais exemplar dos símbolos: todos os filhos de Deus nascem iguais. É impossível uma fé autêntica sem esta nítida consciência ontológica da igualdade perante o olhar divino.

 

Regresso, por estes dias, às palavras de um pensador desaparecido demasiado cedo e que nos faz falta pelas suas lúcidas e por vezes desconcertantes cogitações. Victor Cunha Rego – é dele que falo – escreveu assim n’ Os Dias de Amanhã: «O Natal é o sorriso de Deus num mundo que teima em egoísmos aterradores. Sem esse sorriso, a vida humana seria apocalíptica. O tempo seria apenas uma espera sem sentido, a miséria seria aceitada e aceitável, a opressão seria tolerável e tolerada.»

Reflexão para o Natal de hoje. Reflexão para o Natal de sempre.

30 comentários em “O sorriso de Deus”

  1. parece então que Deus deixou de sorrir há uns tempos…terá sido quando transformaram o Natal em festa do pai natal e centros comerciais e num bacanal de consumo ?

  2. BOM DIA PEDRO CORREIA
    Que tenha tido uma boa consoada.
    Respeitando, sempre, opinião diversa, concordando ou dela discordando, é exactamente isto -“todos os filhos de Deus nascem iguais” – e – “O Natal é o sorriso de Deus num mundo que teima em egoísmos aterradores. Sem esse sorriso, a vida humana seria apocalíptica”.
    Um bom e Natalício fim de semana.
    António Cabral

  3. no que respeita ao corpo vimos do mesmo sítio e vamos para o mesmo
    apesar da cagança do EGO
    as probabilidades são de 50%

  4. Talvez tenha sido caridoso o desaparecimento prematuro de Victor Cunha Rego porque acho que ele não sobreviveria politicamente por muito tempo. Lembro-se de ele dizer – lembro o sentido já não recordo as palavras – que a governação deveria ser limitada aos ricos para prevenir a corrupção e evitar os altos salários.
    Independentemente da (in)exequibilidade ele poderia ter razão na segunda parte mas não na primeira porque os ricos quase sempre querem ser mais ricos.

  5. Há filhos de um Deus menor.
    Não sei se fui fruto de um acaso cósmico, ou cómico, mas sei (não acho, sei) que tive uma sorte danada em nascer neste belo rectângulo, e no meio do privilégio.
    Tratar os outros com respeito, possuir empatia, o resto são clichés de postal.

  6. Não sei como é que ultimamente a malta consegue ouvir o sorriso de Deus por cima da gargalhada do Diabo. Ou eu estou a perder a fé ou estou a ficar surdo.

    1. quem tem olhos que veja , quem tem ouvidos que oiça…parece que a maior parte da malta ficou sem sentidos , hipnotizada pela publicidade de mundos e fundos. nem todos são Cristo , para recusar as ofertas do maligno. Feliz Natal.

  7. Em tempos obscuros e tirânicos como aquele que estamos a atravessar, onde a mediocridade, degeneração, o feio, e a maldade, se propagam e imperam numa clara ameaça à Humanidade, nunca é demais recordar um dos mais belos poemas de Natal – «Noite Sagrada» de Placide Cappeau – do qual deixo aqui uns versos:

    «…Ele nos ensinou a amar uns aos outros,
    Sua lei é o amor e Seu evangelho é a paz.
    Correntes ele quebrou, pois o escravo é nosso irmão.
    E no seu nome toda a opressão cessará…»

    Um Feliz Natal para toda a equipa do blogue e demais leitores(as).

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