O silêncio e tanta gente


Maria Dulce Fernandes,

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A lotaria genética é algo assombroso que transcende todo e qualquer um de nós. A possibilidade de um gene recessivo de existência recente ou até pré-histórica pode determinar um distúrbio de 25% de probabilidades de se verificar geneticamente adquirido.

E aí, ainda não nascemos e a nossa vida já possui toda uma carga adicional de lutas e desafios a superar, que com o passar do tempo constituirão a normalidade que conhecemos.

A lotaria genética pode proporcionar distúrbios esteticamente agradáveis ou monstruosidades e os outros, os que não se vêem e acarretam deficiências profundas que podem ou não ser contornáveis.

A hipoacusia bilateral profunda é A deficiência auditiva por excelência. É diagnosticada por uma sucessão de exames que se iniciam aos 2 dias de vida e não terminam nunca.

Após uma série de testes audiológicos e ressonâncias magnéticas para diagnóstico definitivo, somos postos perante a perspectiva da cirurgia, o tal ouvido biónico, que nos ajudará a perceber o mundo também pelo som e a podermos ser nós a traduzi-lo pela nossa própria voz, construído em palavras que nunca falámos na impossibilidade de reproduzir algo que desconhecemos.

Quem pensará duas vezes perante a possibilidade de contornar ou até vencer a imparidade?

É aqui que entram em cena os fundamentalistas do silêncio que, sob a capa da protecção à capacidade e direito absoluto de escolha das minorias, insistem em alternativas como a linguagem gestual ou a leitura labial, e a escolha – ouvir ou não ouvir – partirá exclusivamente do indivíduo com deficiência quando alcançar a idade da decisão.

Quero acreditar que estas pessoas têm boa intenção e são apenas imbuídas de sentimentos protectores, porque de outro modo é incompreensível que nos tempos do audiovisual estejam a condenar um indivíduo a um ostracismo de idade das trevas. Aqui, a questão religiosa nem se põe. Se Deus não deu ouvidos, então terá que ser surdo, ter-lhe-á dado cordas vocais para quê senão para poder falar?

A linguagem gestual e a leitura labial nunca devem ser excluídas da aprendizagem de um surdo, porque ser bilingue e estar comunicável é fundamental. Em última instância, a decisão de não querer ouvir, aí sim, dependerá sempre, única e exclusivamente, do indivíduo em questão se assim o seu livre arbítrio permitir fazer acontecer.

A transição nem sempre é confortável. A confusão e o medo podem marcar negativamente as primeiras horas ou os primeiros dias, até chegar o entendimento de que as palavras rupestres que gesticulamos podem ser pronunciadas, reproduzidas num som que pode chegar até nós e tornar-se música para os nossos “ouvidos biónicos”.

É um renascimento para um mundo sonoro, é um milagre, é magia… é isso tudo, as possibilidades são imensas e é fantástico poder acontecer.

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