“- Estas pequenas dimensões irão fascinar o meu cliente – disse J.S., o agente imobiliário, enquanto deixava escapar um assobio de admiração. – Um achado. J.S. quebrara um velho costume para acompanhar N. e C. à tal casa. Nunca, nos seus vinte anos de profissão, aceitara fazer uma visita numa noite de sábado: tabu total. Os sábados dedicava-os ao tai-chi, a única disciplina que lhe permitia manter o equilíbrio emocional em tão esgotante actividade. Mas sem dúvida o sacrifício tinha valido a pena. S. julgava ter descoberto uma pérola e não se cansava de repeti-lo. Por isso foi elogiando uma a uma as virtudes do andar: a altura dos seus tectos, como estavam bem orientadas as janelas e a boa qualidade das madeiras, até repetir com ênfase aquela história de que «tão perfeitas e diminutas dimensões» eram ideais para o seu cliente. N. não se deteve para ouvir quem podia ser esse cliente para o qual duzentos e cinquenta metros quadrados na Rua A. se demonstravam «umas diminutas dimensões», tanto lhe fazia.”
Pergunta-se: Este texto foi escrito por um homem ou por uma mulher? Fundamente a sua resposta. O nome do(a) autor(a) será divulgado logo que haja respostas suficientes para que este desafio tenha algum interesse. E, para que tenha realmente interesse, por favor evite a batota. Isto não é um concurso de erudição nem o objectivo é identificar os autores. O que realmente se pretende é discutir se existe ou não uma escrita literária sexuada, ainda que as amostras que aqui apresento sejam, como é óbvio, necessariamente insuficientes para classificar toda a obra de um autor.
Nota: Texto traduzido.
Solução (28/8, às 14.45h): Carmen Posadas – “Pequenas Infâmias”. Desta vez as respostas tenderam a acertar, mas ainda assim não foram consensuais e houve alguns cautelosos que fugiram à aposta. O que significa, uma vez mais, que o tema não é linear. E amanhã sai a última prova cega, um passatempo de Agosto que muito gosto me deu fazer. Toca a apostar, que as probabilidades são maiores do que no euromilhões e o prémio… bem, o prémio não é quantificável. Não são os melhores?


Gostei da ideia. Vou debruçar-me sobre o assunto, mas, sinceramente, não acredito que vá ter sucesso.
Não se debruce muito, nessa idade é capaz de cair…
E não é que caí mesmo! A intuição é feminina!
🙂
Este vou arriscar: é de homem. A descrição das vantagens da casa (altura dos tectos, orientação das janelas, qualidade das madeiras) é masculina. Em alternativa, é uma mulher que já teve um encontro com um vendedor assim 🙂
Escritora (mulher), personagem homem…
Gi, vingue-se amanhã! 🙂
Quer dizer, do outro texto ainda não há notícias … ai, ai.
Bem, vamos a este. Mulher. Não sei porquê, parece-me, é só isso. Acho que há aqui qualquer coisa de feminino, por exemplo a adjectivação “equilíbrio emocional em tão esgotante actividade”, ainda por cima o quiasmo é assim uma coisa rendilhada.
Pronto, não te engano, Ivone. Rendo-me.
Ora! Há-de ser agora no último.
este texto foi escrito por alguém que decidiu a sua escrita não teria sexo, para evitar mais desilusões amorosas, Ana.
por isso escreveu de uma forma tão limpa, para nos deixar ainda mais dúvidas e dizer que afinal o sexo nem é assim tão importante (também é mentiroso, claro). :))
Grande batota, Luís… safou-se pela lateral. 🙂
Mulher
“- Estas pequenas dimensões irão fascinar o meu cliente ”
acho que a associação de pequenas dimensões com o verbo fascinar é muito feminino.
Rita, achas que as mulheres se fascinam com pequenas dimensões? “Tamanho não é documento” tem limites… lol
nope
a associação de ‘pequenas dimensões’ com o verbo ‘fascinar’ é que me pareceu feminino
bjs
Ok. Small is beautiful, you mean. 🙂
Lembrei-me da Castafiore
‘Ah ! je ris de me voir si belle …’
ritafiore responderia
‘Ah! riome por acertar de novo …
ah ah ah
lol
A ironia fina que se desprende da narrativa parece-me a de uma mulher a descrever um homem.
Na mouche, Teresa. 🙂
Embora seja um texto bastante indefinido parece-me de Homem.
Não é, JP. Mas amanhã há mais.
Li e reli e voltei a reler. Não encontro qualquer pista que me indique se o autor é homem ou mulher. Apenas me parece um dos livros que li na minha adolescência. Como a maior parte deles foram escritos por mulheres, faço a minha aposta nesse sentido. Sou péssima em apostas, nunca acerto um número no euromilhões. 🙂
Quanto ao J.S. é um “menino” que assobia.
A Carmen Posadas é uma escritora contemporânea, Helena. Mas é verdade que não sei a sua idade… 🙂
Nasci precisamento no ano em que a Carmen Posadas iniciou a sua carreira literária. 🙂
Estou como a Ivone: não sei porquê, penso numa mulher. Talvez o pormenor do tai-chi… Qual o homem que aproveitava os serões de Sábado para praticar tai-chi? Quando os homens se querem descontrair… Enfim!
Acertou, mas a personagem é masculina. Enfim, kind of… 🙂
A autora deste passatempo que me perdoe a forma politicamente pouco correcta como o vou dizer, mas esta parece-me uma prosa de maricas.
Pronto, já disse!
P.s.:Se achar o comentário inconveniente, não publique.
Claro que publico, Zedeportugal, eu não faço censura. Só não publico os comentários ofensivos, e não é o caso. Era o que faltava que não pudesse dizer ou escrever a palavra “maricas”.
Confesso que não gosto da palavra, mas acertou no conceito. Em relação à personagem, não ao escritor.
Mulher
… equilíbrio emocional, … sacrifício tinha valido a pena, … descoberto uma pérola – palavras de mulher
Tem razão, mfm. São expressões que usamos, sim.
«O sacrifício tinha valido a pena»: prosa feminina. A tentar imitar (sem sucesso) a masculina. É uma ideia feminina recorrente: o sacrifício compensa.
Oh, Pedro, e não é que levas mesmo o prémio?
Mas temos de discutir essa coisa do sacrifício que compensa. Hum… afinal as mulheres estão mais ou menos destinadas ao sacrifício, não é? Mais vale acharmos que compensa… é uma questão de inteligência, e não de masoquismo. 🙂
Olá, Ana
Já me ri com o Pedro;)
Parece-me uma prosa com dúbios laivos femininos…Estarei errada?
Não vim a tempo de responder. Mas a minha aposta teria sido, mais uma vez, errada.
Sofia, ainda tem amanhã para fazer um brilharete… 🙂
Está certíssima, Fernanda! 🙂
Aproveito para dizer que sou fã fidelíssima desta série e da autora deste livro e se não tenho comentado é porque já tinha lido o livro no seu original.
«Estas pequeñas dimensiones fascinarán a mi cliente —dijo Juan Solís, el agente inmobiliario, mientras dejaba escapar un silbido de admiración—. Qué hallazgo, Néstor. Néstor Chaffino y Carlos se miraron y luego miraron a Solís, que abría y cerraba los cajones de las cómodas, curioseaba el contenido de las cajitas de biscuit, medía las distancias con paso experto, paseaba y sopesaba, como haciendo inventario de todo. Juan Solís había roto una vieja costumbre para acompañar a Néstor y a Carlos hasta la casa de Almagro 38. Nunca, en sus veinte años de profesión, había aceptado hacer una visita en la noche de un sábado: tabú total. Los sábados los dedicaba al tai-chi, única disciplina que le permitía mantener el equilibrio emocional en tan agotadora actividad. Pero sin duda el sacrificio había valido la pena. Solís creía haber descubierto una perla y no se cansaba de repetirlo. Por eso fue elogiando una a una las virtudes del piso de Almagro 38: la altura de sus techos, lo bien orientadas que estaban las ventanas y la calidad de las maderas, hasta repetir con énfasis aquello de que «tan perfectas y diminutas dimensiones» eran ideales para su cliente. Néstor no se quedó a escuchar quién podía ser ese cliente para el que doscientos cincuenta metros cuadrados en la calle de Almagro resultaban «unas diminutas dimensiones»: le daba igual. »
Interessante para ouvir na TSF:
http://www.tsf.pt/Programas/programa.asp x?content_id=917512&audio_id=889169
Resto de Bom Domingo.
Bj
Acho que faltou o meu nome no comentário.
Who else?
Reconheci-a logo, Ana. 😉
Bom domingo para si e obrigada pela achega! Vou ouvir a entrevista com muito interesse.